Crianças autônomas, professores valorizados: conheça o sistema educacional finlandês

05 de agosto de 2016

Beatriz Fortes, educadora brasileira que mora na Finlândia, fala sobre as características inovadoras que fazem do país líder em rankings educacionais.

É de bicicleta, com o caule da flor em mãos e os pés em contato com a grama que crianças estão em aula, em uma floresta próxima à escola. De maneira prática e sensorial, os alunos têm uma aula interdisciplinar de biologia: aprendem sobre animais observando a formiga no dedo, geografia nos relevos visíveis da paisagem, a língua ao se comunicarem para contar suas experiências. Na Finlândia, a teoria não se separa da prática, e o aprendizado também é inseparável da afeição.

Há provavelmente poucos sistemas educacionais que instiguem tanta curiosidade e reflexão quanto o finlandês. Com uma premissa integral, contrária à hierarquização e ao encaixotamento de disciplinas, a Finlândia obtém contínuos resultados expressivos em avaliações como o PISA (Programme for International Student Assessment), figurando ao lado de países com sistemas educacionais mais rígidos e tradicionais. O sistema educacional nórdico prevê uma educação que acompanha o cidadão desde a mais tenra idade até a formação superior: 99% da população possuí educação fundamental e 62% educação superior.

No centro da pedagogia contínua e da inovação educativa, figuram alunos autônomos em seu aprendizado e educadores preparados para servirem como mentores de percurso. Quando a educadora brasileira Beatriz de Oliveira Fortes se mudou para Karjaa, cidade a 280 quilômetros da capital Helsinque, surpreendeu-se com a escola afetiva e integrada à comunidade. Ela relata sua experiência no blog Beatriz na Finlândia. “Professores e alunos aqui tem liberdade para aprender e consciência de como usar essa liberdade.”

A figura do profissional de educação é muito valorizada. Um educador do ensino médio ganha normalmente algo em torno de 3,5 mil euros (em torno de 9 mil reais). Para que ele exerça a profissão, deve possuir mestrado e passar por testes onde sua vocação e suas habilidades serão postas à prova. Ainda que receba aporte da gestão escolar, o educador é um livre interventor de realidade de seus alunos.

“As crianças e adolescentes têm uma relação muito positiva com a escola. Não é somente um lugar de aprendizado, mas também de convivência e afetividade”, explica Beatriz. Como estão inseridos em um sistema educacional desde muito jovens, os alunos sentem que a escola lhes pertence, em uma tríade aluno/escola/comunidade. Essa valorização tem origem, segundo a educadora, em um contexto de pós-guerra: foram os próprios moradores que reconstruíram escolas destruídas em batalhas, entendendo seu papel vital no reviver da comunidade.

O sistema finlandês prima pela metodologia de aprendizado por projetos – os alunos aprendem diversas competências de maneira interdisciplinar, baseadas na relação com o entorno. “Também são igualmente importantes matérias como música, mecânica, culinária e artes”, complementa Beatriz. A maioria das escolas funciona das 9h até às 15h e quando as crianças saem dela, não há lição de casa. A pausa e a diversão são parte do aprendizado.

Por renovar constantemente sua metodologia, não é de se estranhar o papel que a tecnologia cumpre no currículo escolar finlandês: os alunos contam com tablets e notebooks, e são incentivados a usá-los para potencializar seu aprendizado. Em paralelo, Beatriz atenta para a preocupação que as escolas têm no sentido de que a tecnologia seja uma ferramenta disruptiva a ser trabalhada em conjunto com outras formas de aprendizado, como o contato com a natureza e trabalhos manuais.

Neste segundo semestre, entra em vigor uma reforma curricular na Finlândia, baseada em premissas como uma educação voltada para o futuro – portanto mais inserida em um contexto tecnológico – com formas cooperativas de aprendizado, igualdade de gênero e empreendedorismo. Ainda que tenha um currículo complexo e integral, com resultados positivos em termos de avaliação quanto de qualidade, o país entende que um currículo que prepara cidadãos para um mundo em transformação é também um currículo em constante renovação.

*Crédito da foto: Amanda Soila / Ministério de Relações Exteriores da Finlândia

 

 



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