Escolas itinerantes: espaços móveis de discussão e aprendizado no campo

09 de agosto de 2016

As escolas do campo que funcionam dentro dos assentamentos preparam para o universo agrícola e para a vida ao redor.

Os alunos do assentamento não aprendiam matemática com números riscados a giz na lousa. Aprendiam com alface. A verdura plantada e colhida por seus pais e mães era a unidade utilizada para a aritmética na escola Caminhos do Saber. Quantas alfaces na caixa, quantas vendidas e devoradas, o fruto do trabalho em comunidade como métrica para que crianças e jovens não tenham que decorar uma equação sem afeto. A escola itinerante é também a escola de fincar raízes: a das crianças com o aprendizado e com a terra.

Entre o constante perigo da lona incendiada e a desapropriação violenta, crianças e jovens filhos de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sempre tiveram dificuldade de acesso ao ensino convencional. Ainda que toda criança tenha direito à educação gratuita, longas distâncias impediam filhos de assentados de frequentar a escola; também eram obstáculos as burocracias de matrícula e o risco de abandoná-la a qualquer movimentação forçada.

Em 1996, foi erguida a primeira escola itinerante no Rio Grande do Sul, espalhando-se para outras regiões. Elas se constituíram como uma política pública de responsabilidade partilhada entre o Estado e o acampamento; enquanto o governo prevê a infraestrutura necessária para criação física de uma escola, o MST entra com a pedagogia. São hoje mais de duas mil escolas do campo construídas em acampamentos, atendendo 200 mil crianças e jovens.

A escola itinerante é uma materialização da pedagogia já exercida no cotidiano de luta por terras, portanto, sua configuração como espaço educativo é sujeita à intensa política. “Na escola itinerante, a escolha é por um diálogo entre a escola, a vida do trabalhador e da comunidade que está lutando pela terra”, explica Alexandra Filipak, autora da tese de mestrado A Nossa Escola, Ela vem do Coração – Política Pública de Educação do Campo nas Histórias de Vida dos Educadores e Educadoras da Escola Itinerante Caminhos do Saber. Durante meses ela acompanhou a pedagogia dentro do assentamento Maila Sabrina, em Ortigueira, no Paraná.

A mobilização intensa da comunidade, que se comprometeu a criar a escola com ou sem o auxílio do Estado, foi o que possibilitou o nascimento da Escola Caminhos do Saber. “A escola do campo é diferente da escola urbana porque sua estrutura física dialoga com o espaço onde as crianças vivem. Não há quadra ou pátio, mas sim espaço da natureza onde acontecem os momentos lúdicos dos estudantes”, recorda Alexandra. Caminhos do Saber tinha salas de aula, espaço de merenda e de biblioteca, que foram ganhando corpo à medida que a política pública adicionou recursos.

Os educadores, também moradores e militantes pelos assentamentos, são lembrados na pedagogia geradora de Paulo Freire: para ensinar, é necessário ter afeto com a substância lecionada. “Os conhecimentos transmitidos dentro da escola são escolhas de poder. Por isso, a pedagogia do MST fala de uma aprendizagem que extrapola os muros da escola”, sinaliza Alexandra, retomando a importância que o universo agrícola permeie as didáticas, tanto do ponto de vista de dar continuidade às tradições da lavoura familiar, se a criança assim escolher, como para uma transformação no modo como hoje a agricultura se configura.

Assim como a maioria dos direitos conquistados pelos trabalhadores, a escola itinerante é uma politica pública frágil, sujeita às movimentações e trocas de governo. No estado onde ela se iniciou, Rio Grande do Sul, deixou existir, extinguida por uma agenda mais conversadora.

Como escola do campo, a escola itinerante cumpre um papel inovador. Sua metodologia de integração, que prevê uma educação para muito além dos conteúdos, tem como por objetivo fortalecer crianças e adolescentes como indivíduos integrais, tanto para persistir na busca pela reforma agrária, como também para se experimentar e escolher outros caminhos fora dela.



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