Grêmio Estudantil: democracia e protagonismo jovem na escola

13 de setembro de 2019

Além de trazer elementos democráticos em sua estrutura, os grêmios representam uma das formas de tornar o estudante parte dos processos de decisão da escola


Os jovens têm o direito de serem ouvidos e de participarem das decisões dentro e fora da escola. O artigo doze, estabelecido na convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente da ONU em 1989, nunca esteve tão atual. Segundo dados divulgados pelo jornal carioca Extra, os grêmios estudantis – também garantidos por leiaumentaram cerca de 600% nas escolas públicas e estaduais do Rio de Janeiro este ano, em comparação ao ano de 2018. Já em São Paulo, havia 4.713 grêmios atuantes em 2017, de acordo com a Secretaria de Educação, o que corresponde a 92% das escolas estaduais.

Ser parte de um grêmio estudantil é apenas uma das formas pelas quais os jovens podem exercer protagonismo na escola. Trata-se de uma entidade autônoma, que tem como objetivo representar os interesses dos estudantes em cinco eixos: comunicação, cultura, esporte, entretenimento, social e cidadania. A estrutura de um grêmio traz muitos dos ritos democráticos para o cotidiano dos estudantes, como a formação de chapas, eleições, votação pública e campanhas.

“Essa agenda de participação e democracia vai além de uma concepção de sociedade e de mundo, ela também assegura o direito à educação”, afirma Raquel Franzim, coordenadora da área de Educação do Instituto Alana.  “Escolas com essa prática reconhecida e valorizada, tem menos indicadores de evasão escolar e melhores indicadores de aprendizagem”, completa.

 

Sensação de pertencimento reduz a chance de evasão escolar 

O estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e da Evasão Escolar mostra que uma das causas mais recorrentes de evasão escolar é a falta de identificação do aluno com a instituição. Isso acontece porque sua participação nos processos de decisão é, geralmente, reduzida. Iniciativas como o grêmio estudantil buscam estreitar o diálogo entre a comunidade escolar, criando melhores condições de convivência.

“Organizar um grêmio pode fazer com que o aluno tenha interesse em frequentar aquele espaço. Sentir que eles são responsáveis pelas mudanças, desde colocar um espelho no banheiro até promover um passeio ou evento diferente”, conta Alice Riff, diretora do documentário “Eleições”, que mostra o processo eleitoral e a formação das chapas do grêmio estudantil na Escola Estadual Doutor Alarico Silveira. “Isso é importante porque eles entendem que podem reivindicar melhorias e levantar problemas do seu cotidiano”.

Além de criar essa sensação de pertencimento, o diálogo trabalhado entre os pares – seja entre os próprios jovens ou com os educadores – melhora o clima escolar. Começar a pensar em soluções a partir dos problemas levantados por eles, faz com estejam mais conscientes do seu papel como cidadãos responsáveis, aproximando-os de uma educação integral, que prepara as necessidades do mundo.

 

Gestão democrática e outros formatos de liderança

Raquel Franzim acrescenta que o aumento de grêmios estudantis nas escolas públicas é um sinal positivo de mudanças na educação, e que mostra uma aposta em metodologias mais ativas, incentivando os estudantes a se envolverem com o ambiente escolar e promovendo novos arranjos de convivência dentro da escola.

Um exemplo prático são os projetos da Fundação Educar Dpaschoal,  dentre eles o Academia Educar. Há trinta anos, a Fundação faz a formação de jovens sob a ótica do protagonismo, desenvolvendo competências socioemocionais e de cidadania em escolas públicas e estaduais de Campinas (São Paulo). Em conjunto com as escolas, os educadores e multiplicadores montam um núcleo de protagonismo jovem e oferecem oficinas que estimulam diversos formatos de liderança.

“O tempo inteiro a gente coloca o jovem em situações para que ele use essas ferramentas do protagonismo e do autoconhecimento para transformar a realidade dele. É a partir dos desafios que existem na escola, na comunidade e na família, que eles vão se descobrindo indivíduos que podem participar das decisões e liderar. “Nosso papel não é o de dar respostas, mas de fazer boas perguntas”, reforça Cristiane Stefanelli, gestora da Fundação Educar.

Além de oferecer oficinas e formar monitores que multiplicam a metodologia para outros jovens, a Fundação Educar também realiza formação de educadores para que estes estejam aptos a estimularem e servirem como referência para os estudantes.

“O papel da gestão escolar é fundamental em todo o processo, desde acreditar no jovem até garantir que a criação do grêmio aconteça de forma democrática”, reforça a gestora. “Há outros tipos de participação: coletivos, liderança de turma, conselhos escolares, reuniões entre salas, até mesmo batalhas de rap e slam, nas quais a única regra é não ofender ninguém. Tudo isso corresponde a manifestações de participação estudantil em formatos diferentes”.

Grêmio estudantil é mudança

Beatriz Feitoza (15), estudante da EMEF Parque Oziel é uma das participantes do Academia Educar. A experiência com o grêmio fez com que ela e todos os colegas se interessassem mais pelo que está acontecendo na escola. Em 2017, Beatriz criou a chapa 01 que venceria as eleições daquele ano. Ela conta que até hoje, os estudantes menores a reconhecem e a cumprimentam pelas conquistas.

“Os alunos são a escola. Nós, junto da equipe gestora, somos responsáveis pelas soluções. Ao invés de esperar a notícia de uma melhoria, por que não juntar um mutirão de estudantes e fazer as mudanças no espaço? Quando a gente faz, a gente dá mais valor. O grêmio é importante para garantir isso!”, afirma.

Na gestão da chapa 01, os alunos organizaram aulas de futebol no contraturno, campanha do agasalho, festa do dia das mães e muitos debates sobre a realidade que viviam dentro da escola. Hoje, apesar de não ser mais a presidente do grêmio, a estudante está por dentro de todas as mudanças que acontecerão ainda este ano: a quadra da escola, que é aberta para toda a comunidade, será pintada e reformada pelos alunos, assim como os banheiros.

Beatriz se orgulha em dizer que sua escola – já considerada como um dos piores desempenhos em Campinas – reduziu a taxa de evasão escolar, melhorou os indicadores de aprendizagem e está transformando o espaço para atender a comunidade que a cerca com acolhimento e soluções coletivas.



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