Três educadores brasileiros estão entre os finalistas do Global Teacher Prize 2020

30 de abril de 2020

Conheça mais sobre os projetos de transformação social dos educadores brasileiros que concorrem ao maior prêmio internacional de Educação


O Global Teacher Prize é considerado o maior prêmio internacional na área de Educação e tem como objetivo reconhecer o trabalho de educadores que transformam realidades. Na edição de 2020, três brasileiros estão entre os 50 finalistas que concorrem ao prêmio de um milhão de dólares.

Organizada pela Varkey Foundation, a premiação acontece anualmente e, nesta edição, conta com a parceria da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO). A ideia é homenagear iniciativas que impactam positivamente os estudantes e as comunidades da qual fazem parte. O valor do prêmio é usado para dar continuidade aos projetos inscritos.

Para Débora Garofalo, educadora que ficou entre os 10 melhores professores do mundo no ano anterior, a premiação é importante para valorizar o trabalho de todos os educadores, do Brasil e do mundo. Em artigo escrito para o UOL, ela comenta sobre as indicações dos colegas brasileiros. “O trabalho destes professores tem em comum a inclusão de estudantes, principalmente de periferias e baixa renda, com atividades significativas e transformadoras”, conclui.

DESTAQUES BRASILEIROS

A educadora Débora Garofalo foi a primeira mulher brasileira e sul-americana a se classificar para o TOP10 do Global Teacher Prize 2019. O projeto inscrito por ela alia robótica e sucata, trabalhando a coleta de lixo na comunidade e a transformação tecnológica dos materiais pelos estudantes. Apesar do prêmio da edição de 2019 ter sido conquistado pelo professor queniano Peter Tabichi, a educadora ganhou destaque internacionalmente e hoje assume um cargo de gestão na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Conheça mais sobre o trabalho de Doani Bertan, Lília Melo e Francisco Freitas, os três finalistas brasileiros do Global Teacher Prize 2020, que terá o resultado anunciado em junho deste ano.

 

Doani Emanuela Bertan

Professora de educação especial e Língua Portuguesa;

Escola Municipal de Ensino Fundamental Júlio de Mesquita Filho – Campinas (SP)

O desafio de levar educação de qualidade e aprendizagem adequada aos estudantes, levou Doani Bertan a criar um canal no YouTube, o Sala8, para ensinar Libras (Língua Brasileira de Sinais) de uma forma divertida e lúdica. “Desde sempre, a problemática enfrentada na educação bilíngue é a escassez de material didático específico. Os materiais impressos dificultam o entendimento do sinal e há de se considerar o regionalismo linguístico, que geralmente não é contemplado”, reforça a educadora.

Antes de criar o canal, Doani costumava gravar videoaulas e tirar dúvidas sobre as tarefas de casa por meio de videochamadas. Mas, por uma limitação de tempo e acessibilidade, percebeu que poderia sistematizar o conteúdo para ser trabalhado com mais profundidade. Debateu essa possibilidade com os estudantes do Fundamental I, e a aceitação foi surpreendente.

“Conseguir explorar o potencial tecnológico requer um grande repensar pedagógico para proporcionar ao aluno o papel de agente de sua aprendizagem”, afirma Doani. Depois de um planejamento intenso, muita pesquisa e estudos técnicos para fazer a edição, legendagem e adaptação do conteúdo em vídeos curtos, ela finalmente lançou o canal.

A partir dos apontamentos da turma, sobretudo dos estudantes com deficiência auditiva, a educadora foi aprimorando as técnicas e não demorou até que os resultados começassem a aparecer. Os estudantes pediam para rever alguns vídeos, participavam na sugestão de temas e iam, aos poucos, se aproximando de uma educação igualitária entre os pares.

“As videoaulas são planejadas e desenvolvidas para atingir a todos, não apenas aos estudantes com deficiência. Com a imersão dos alunos ouvintes na comunidade surda, a Libras passou a ser entendida como uma ponte para a comunicação, novas amizades, aprendizados e empatia”, conta Doani.

A educadora diz que a sensação de ter sido indicada ao Global Teacher Prize 2020 foi indescritível e será uma oportunidade de dar visibilidade à educação bilíngue, no Brasil e no mundo. “A escola tem urgência na sua reformulação, na adequação às exigências do tempo presente e na oferta de ferramentas para que todos os públicos sejam contemplados, cada um em sua especificidade”, conclui.

 

Lília Melo

Professora de Língua Portuguesa e projetos

Escola Brigadeiro Fontenelle -Terra Firme, Belém (PA)

Em 2014, impactada pela violência recorrente no bairro em que dava aulas, localizado na região metropolitana Terra Firme, a professora Lília Melo começou a notar que a evasão escolar aumentou a partir de um grave incidente na região. Em uma tentativa de trazê-los de volta, estimulando a autonomia dos estudantes, ela lançou o projeto “Juventude negra periférica: do extermínio ao protagonismo”.

A ideia era aprimorar e produzir arte na escola e para a comunidade, dentro e fora da sala de aula. A partir de oficinas de teatro, saraus, poesia, dança, capoeira, música e cinema, os estudantes de Ensino Médio passaram a ocupar a escola e as ruas com suas próprias vozes, criando vínculos e narrando suas vivências. Esse projeto rendeu à Lila o Prêmio Professores do Brasil, realizado pelo Ministério da Educação (MEC), em 2018.

Para trabalhar ainda mais a questão da representatividade, a educadora mobilizou uma campanha, com a ajuda da imprensa local, para levar seus estudantes ao cinema. Nem todos tinham condições de comprar os ingressos para assistir ao filme “Pantera Negra”, da franquia Marvel, que conta a história de um herói negro e uma comunidade única capaz de salvar o mundo com a sua cultura e tecnologia.

Na época, empresas se uniram para tornar essa oportunidade possível, custeando a viagem e os ingressos de cerca de 400 estudantes. As reflexões posteriores foram essenciais para motivar e estimular as produções audiovisuais do Cine Clube TF, feitas pelos próprios estudantes e exibidas na rua, para que toda a comunidade pudesse participar.

“A lição desse projeto é que é possível transformar vidas e fazer educação pública de qualidade através de uma percepção coletiva. Agora, nós temos condições de transformar a nossa realidade e deixar um mundo melhor para os que vem”, disse Lília em vídeo gravado para a TV Escola.

 

Francisco Celso Freitas

Professor de História e especialista em educação inclusiva

Centro de Ensino da Unidade de Hospitalização de Santa Maria (DF).

Além de ser professor de História, Francisco Celso Freitas também é produtor cultural e acredita que a arte é um importante instrumento pedagógico para disseminar os direitos humanos. E foi através da cultura, da música e da educação que transformou a vida de cerca de 150 jovens dentro da Unidade de Santa Maria, no Distrito Federal, onde leciona desde 2015.

A instituição abriga meninos e meninas que tem problemas com a lei e estão privados de liberdade. “Existe um desconhecimento da sociedade sobre o que é o sistema socioeducativo. As pessoas não sabem que existe um núcleo de ensino e que os jovens têm direito à escolarização”, disse o professor em entrevista ao Porvir.

A fim de mudar esse estigma e engajar os jovens em uma narrativa que conversasse mais com a realidade deles, o educador começou a usar a música e  cultura do hip-hop para debater direitos humanos e cultura de paz. A partir de saraus, rodas de conversa, festivais de música, cine-debates e outras atividades culturais, os estudantes passaram a fazer parte do projeto RAP (Ressocialização, Autonomia e Protagonismo).

Não demorou até que os jovens se transformassem em artistas e começassem a lançar suas próprias produções: videoclipes, músicas, e-books. Todos compartilhados publicamente e gratuitamente, para que outras pessoas pudessem conhecer e se inspirar a partir desses trabalhos. Em 2019, um desses produtos audiovisual, o videoclipe “18 razões para a não redução da maioridade penal”, entrou para a exposição no 52º Festival de Cinema Brasileiro.

Em entrevista para o portal do G1, o educador comenta sobre os resultados: “A gente consegue deixar eles mais soltos, melhorar a expressão oral, corporal, escrita e, o principal, a autoestima. Nem quando eles estavam em liberdade conseguiam perceber todo esse potencial”, afirmou.



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