1º desenho animado em Libras dá passo importante para inclusão

15 de outubro de 2018

Além de marcar o acesso e a representatividade das crianças surdas, Min e as Mãozinhas também ensina a Língua Brasileira de Sinais a ouvintes. Assista!

Na imagem, a personagem Min está deitada em um sofá segurando um celular

Como toda criança, Giovanna, de 3 anos, adora desenhos animados. A surdez, porém, a limita a assistir apenas a desenhos com intérprete. Mas aí se cria um problema: ou presta atenção na intérprete que fica ali no cantinho da tela, ou foca na história. “Muita coisa ela assiste sem entender, essa é a verdade”, conta a mãe Paloma Almeida. Talvez por isso ela tenha ficado eufórica ao se deparar com Min e as Mãozinhas, o primeiro desenho animado em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

Paloma Almeida em cabelos compridos e usa batom rosa. Ela está abraçada à filha, Giovanna, que tem 3 anos e usa um laço rosa na cabeça. As duas sorriem para a foto
“A gente só passa a entender a importância de uma iniciativa
dessas quando alguém na família com deficiência.
Esse desenho é muito relevante para a sociedade e, em especial,
para as crianças surdas que passam a ver aquilo que faz parte
do mundo delas”, Paloma Almeida, mãe de Giovanna.

Lançada no Youtube no dia 26 de setembro, na celebração do Dia Nacional do Surdo, a animação foi pensada para transpor algumas das barreiras de acessibilidade enfrentadas pelos quase 10 milhões de brasileiros com deficiência auditiva. Segundo o animador e criador do projeto, Paulo Henrique Rodrigues, de 28 anos, além de permitir a inclusão, a animação também foi pensada para ensinar as crianças ouvintes a se comunicar em Libras.

A intenção é desdobrar a história em uma série com 13 episódios. “Cada episódio traz cinco novos sinais, que vão se repetir ao longo da animação para facilitar o aprendizado. Assim, as crianças vão reforçando o vocabulário e, ao final da temporada, terão condições de ver uma história mais complexa”, explica o animador. Paloma aprova a ideia, embasada pela própria experiência: “vejo pelos amigos da Giovanna que eles têm interesse em se comunicar melhor com ela e aprendem muito rápido”.

A animação também foi marcante para as crianças coda (sigla em inglês para Children of Deaf Adults), filhas de pais surdos. Quando Sabrina Lage descobriu a animação, rapidamente chamou a filha Catharina, de 2 anos. “Assistimos juntas pela primeira vez! Ela gostou tanto que pediu para ver repetidas vezes. Ficou fascinada ao reconhecer os mesmos códigos que usamos para nos comunicarmos, como o piscar das luzes”, relata.

Olha eu ali!

Na imagem, a personagem Min interage com um esquilo

Min é uma garotinha surda que faz amizade com os animais da floresta. A comunicação se torna possível quando ela passa a ensinar aos amigos alguns sinais simples, como “oi”, “bom dia” e “boa noite”, assim como as letras que compõem seu nome. Além da forma inovadora de apresentar Libras na linguagem audiovisual, a animação reforça a representatividade.

“Minha prima é surda, tem 11 anos e amou o desenho! Disse que finalmente fizeram um trabalho em que a personagem é como ela”, relatou Caroline Amanda, em um dos comentários na página da animação. Outro comentário, de Isabela Dias, pede que a animação continue: “Sou intérprete de Libras e chorei vendo o desenho. A representação é muito importante para os surdos, é o mundo da inclusão que se abre para as crianças”.

O fato de que a primeira animação voltada para crianças com deficiência auditiva chegar só em 2018 diz bastante sobre o quanto ainda o país precisa investir em inclusão. “Descobrir que éramos pioneiros foi surpresa até para nossa equipe”, relata Paulo. “Aqui no Brasil são mais de 100 anos de animação e até agora nada foi feito pensado nesse público! Temos que olhar mais para a realidade do outro”.

“Desenho, documentário, filme, qualquer recurso informativo precisa chegar até as pessoas para que elas se percebam como agentes de transformação. É preciso desconstruir preconceitos e reconstruir um novo olhar sobre inclusão. Convido a todos que se aproximem e se abram para conhecer as pessoas com deficiência, só assim conseguimos superar as barreiras que nos separam”, Sabrina Lage, surda e mãe da ouvinte Catharina.

Uma luta pela sustentabilidade

Desde a estreia, a animação já teve quase 150 mil visualizações, mas a luta agora é para conseguir patrocínio para a produção dos novos episódios. O criador, Paulo, aposta em financiamento coletivo. Outra estratégia é ressaltar a importância da iniciativa com exibições presenciais, que já foram realizadas com mais de 400 crianças do Estado de São Paulo.
“Eu faço uma brincadeirinha com as crianças ouvintes. Antes de começar a sessão de Min e as Mãozinhas, coloco na tela um desenho qualquer no mudo. Quando elas reclamam que não estão entendo a história, aproveito para dizer que é exatamente assim que uma criança surda se sente quando tenta assistir os programas que eles assistem”, conta o animador.
Ficou curioso? Assista ao desenho aqui:

 

 



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