5 lições de Nelson Mandela para crianças, jovens e adultos

18 de julho de 2019

Líder sul-africano vencedor do Nobel da Paz tem vida de lições sobre igualdade e justiça. Veja exemplos e também livros para alunos de todas as idades


Um líder da estatura de Nelson Mandela pode ensinar mais do que os livros de história conseguem contar. Exemplo na luta por equidade racial e justiça, prêmio Nobel da Paz em 1993 e presidente sul-africano após 27 anos preso, Mandela oferece um aprendizado rico em diferentes campos sociais que beneficiam alunos de qualquer idade, especialmente as crianças.

Para Angela Ramos, mestre em Educação pela Unirio e professora da rede municipal do Rio de Janeiro, “Mandela é um ícone e, talvez, a humanidade ainda leve muitos anos para entender todo o legado de mudanças que deixou ao mundo”.

A especialista acredita que muitas pessoas foram e são vítimas do racismo, mas muitas vidas foram preservadas por causa da luta de Mandela contra a segregação racial promovida pelo apartheid na África do Sul. “Ele é um símbolo de luta pela paz e pela igualdade racial”, diz.

Professora dos anos iniciais do ensino fundamental, Ramos acredita que é importantíssimo que as crianças conheçam a trajetória de Madiba, nome atribuído a ele no grupo étnico Xhosa, do qual fazia parte. “Primeiro pela questão da representatividade e, também, por conta de sua história. A figura dele, por si só, é positiva para todos os alunos e alunas, já que é um homem negro, com uma vida pessoal intensa e uma luta pelo fim da segregação racial mais intensa ainda. Todo mundo deveria conhecê-lo”.

 

Nelson Mandela na escola

A representatividade que Madiba traz a milhares de pessoas também é destacada por Marina Basques, coordenadora pedagógica da EMEI Nelson Mandela, localizada na zona norte de São Paulo. “A origem humilde de Mandela se aproxima da história de muitas crianças na escola pública, que são, na maioria, negras. Mandela é uma referência importante e quando o estudamos estabelecemos várias relações”.

Os alunos da EMEI têm entre 4 e 5 anos. “Existe no mundo a crença de que crianças não estão aptas a discutir temas como racismo, preconceito, justiça e igualdade”, afirma Ramos. “Descobrimos que elas estão interessadíssimas, afinal, fazem parte do mundo, o interpretam à sua maneira, pensam e falam sobre ele”.

A instituição realiza uma série de atividades sobre esses e outros assuntos, em linha também com a Lei 10.639/03. Um dos temas é a família Abayomi, um trabalho que usa bonecos para discutir questões como racismo, igualdade de gênero e diversidade sexual.

“Queremos criar uma grande cultura de paz, que Nelson Mandela quis também, mostrando que todas as vozes podem ser ouvidas”, diz Basques. “Não pontuamos a temática étnico-racial de forma isolada: ela perpassa tudo, desde os brinquedos que escolhemos até os livros que estudamos. Uma coisa é falar a respeito; outra coisa é viver, e o que vivemos fica marcado. Por isso, aqui na escola, vivenciamos esses temas”.

 

Aprendizados de Madiba

Quais as lições de Nelson Mandela que podem ser abordadas em sala de aula? Tanto Marina Basques, da EMEI Nelson Mandela, quanto Angela Ramos, mestre em Educação, elencaram pontos essenciais da trajetória do líder sul-africano que proporcionam grandes aprendizados.

 

1 – Justiça e equidade

Marina Basques diz que o conceito de justiça é algo extremamente delicado, por isso a escola pode problematizar a questão. “Em uma atividade que fizemos, problematizamos se a prisão de Mandela foi justa ou não. Também o usamos como referência para problematizar situações de justiça ou injustiça em um universo próximo da escola, ou seja, puxamos o tema para a realidade deles”.

A equidade, na visão da especialista, caminha lado a lado com a justiça. “Problematizamos que, no apartheid, crianças negras não podiam frequentar as mesmas escolas que as brancas. Levantamos a questão de como essa divisão também pode se reproduzir no Brasil”, afirma.

 

2 – Senso de comunidade

“Mandela não lutou apenas por ele, mas sim pelo seu povo negro da África do Sul e, além disso, acabou lutando pela população negra espalhada pelo planeta”, defende Angela Ramos. Ela explica que, embora a batalha de Madiba tenha sido em nível local, sua luta vai além e abrange o bem comum em outros lugares.

Marina Basques conta que a vida de Mandela também foi pautada pelo senso de comunidade do grupo Xhosa que envolvia todos os integrantes nas atividades. Além disso, a EMEI também aplica conceitos de comunidade similares.

”As crianças entendem muito bem. Quando tomamos alguma decisão aqui na escola, sobre verba, por exemplo, a gente poderia, como adultos, decidir onde aplicá-la. Mas fazemos uma assembleia com as crianças para ouvir delas onde acham que poderíamos aplicar o recurso. É algo que não precisa ser apenas falado, mas sim vivido, e a vida de Mandela foi assim”.

 

3 – Ancestralidade e ludicidade

Três alunos estão sentados em frente a muro da EMEI Nelson Mandela, onde está desenhado o rosto de Madiba com árvores típicas da savana africana ao fundo.

“Mandela tinha uma avó que lhe contava histórias. É a descentralização do conhecimento acadêmico, mostrando que existe um conhecimento de mundo que vem dos ancestrais”, diz Marina Basques. “Aqui na escola, convidamos avós dos alunos a ensinarem para as crianças o que já aprenderam”.

Trabalhar de forma lúdica também é importante na transmissão de conhecimento, especialmente para crianças. “Não podemos subestimar as crianças, elas têm muito a dizer sobre o mundo com hipóteses que nos deixam de queixo caído. A vida de Mandela é marcada por isso”, diz Basques. “O exemplo dele se sentar ao redor de uma fogueira para ouvir histórias da avó, sua mobilização na prisão para fazer uma horta, ou para praticar esportes com os outros presos. Tudo isso é ludicidade”, exemplifica.

 

4 – Diálogo e empatia

“Mandela valorizou o diálogo sempre que pode. Sua história  traz uma reflexão: lutar sim, mas lutar com diálogo”, diz Angela Ramos. A empatia que Madiba também demonstrou em sua trajetória é outro item que rende aprendizados a todos.

“Ele soube muitas vezes se colocar no lugar do outro. Dessa forma, conseguiu sensibilizar muitas outras pessoas para a causa que defendia junto aos seus companheiros. Ao ser empático, Mandela deu uma grande contribuição na sensibilização das pessoas para a causa, transmitindo uma imagem de tranquilidade típica de quem ouve, dialoga e se coloca no lugar do outro”, reflete.

 

5 – Respeito à liberdade O líder sul-africano também simboliza o respeito ao direito de ir e vir e à liberdade de expressão, segundo Ramos. “Mandela, mesmo privado de sua liberdade, se manteve resiliente, lutando pela liberdade o tempo todo”. Essa ideia de liberdade, de acordo com a especialista, é uma lição para entendermos “o quanto é importante respeitar a minha liberdade e a do outro e como conseguimos isso por meio do diálogo, da empatia e do pensamento no bem comum”.

Nelson Mandela é “um homem que, mesmo condenado à prisão perpétua, nunca desistiu e, continuando na luta, chegou à presidência. Foi um líder positivo que lutou por uma causa justa, com uma trajetória encantadora que nos faz acreditar no poder da luta por um ideal”, diz Angela Ramos. “Às vezes nos sentimos desanimados, sem acreditar que algo vale a pena. Quando apresentamos a história de Mandela para crianças, adolescentes e mesmo adultos, plantamos sementes e cultivamos a ideia de lutar em busca de um sonho”.

Quatro alunos da EMEI Nelson Mandela estão sentados de pernas cruzadas no chão, um deles segurando um cartaz com Mandela desenhado com o punho direito cerrado e levantado.

Livros infanto-juvenis sobre Nelson Mandela

A mestre em Educação Angela Ramos também elencou algumas obras que ajudam a contar diferentes fases da história de Nelson Mandela. “São livros de literatura infanto-juvenil, mas que também servem para os adultos”.

Nelson Mandela, o prisioneiro mais famoso do mundo, de Seong Eun Gang e editado pela editora Pallas, fala sobre Mandela na prisão. Preso em 1962 e condenado à prisão perpétua, continuou lutando por uma política mais justa em que todos tivessem os mesmos direitos.

Madiba, o menino africano, de Rogério Andrade Barbosa, da editora Cortez. Aborda o menino Nelson Mandela, que cresce e se torna um líder, por meio de uma linguagem leve e envolvente.

Vovô Mandela, da V&R edições, é uma história contada como se os netos de Mandela estivessem ouvindo a história dele por meio da avó, Zindzi Mandela, filha do líder. Foi escrito em autoria conjunta de Zindzi e dos bisnetos de Mandela Zazi e Ziwelene.

Mandela, o africano de todas as cores, de Alain Serres, da editora Pequena Zahar, mostra a empatia do líder e sua luta pela liberdade, paz e diálogo. A obra traz ainda material de pesquisa que inclui palavras-chave, fotos, um mapa e uma cronologia da vida de Mandela.



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