África dentro dos livros, fora do estereótipo

29 de setembro de 2015

Estudar nossa herança afrodescendente é entender a constituição histórica do país.

 

Folheando qualquer livro didático de História, as páginas reservadas ao continente africano serão breves e estereotipadas. A África que nos constituiu como Brasil é imensa e rica nas culturas particulares de cada um de seus países: você sabia que 47% do parlamento da Namíbia é composto por mulheres, herança de sociedades matriarcais? Ou que a língua Iorubá, que viajou da costa ocidental da África para cá, é considerada um patrimônio imaterial pela UNESCO?

Em 2003, foi instituída a lei 10.693, que prevê que os professores devem incluir em seu conteúdo pedagógico a relevância e protagonismo dos países africanos na formação da nação brasileira. Porém, segundo previsões de pesquisadores da área, menos de 10% adotaram essa medida: “A lei é fantástica. Mas os professores não têm formação para abordar a história africana nas escolas. Ou falta conteúdo, ou falta o ensinamento de como utilizar esse conteúdo”, explica Flora Pereira, cocriadora do projeto Afreaka.

A iniciativa abriga um acervo visual de informações consistentes sobre os mais diversos aspectos da cultura africana, desde a arquitetura de cidades milenares até os hubs mais tecnológicos da Nigéria. Entendendo que a sala de aula é o lugar onde o debate sobre nossa herança afrodescendente deve começar, criando bases de representativade para as crianças negras, criou-se um braço dessa causa destinado à formação de educadores: “O racismo nasce na escola. Enquanto não tratar do cabelo negro como algo bonito, que tem que ser usado e valorizado, a criança que tem esse cabelo nunca vai se sentir representada”.

O Afreaka está criando, em conjunto com professores, livros didáticos que reúnem seu acervo de informações e pesquisas, além de exercícios de diversidas disciplinas que tanjem de alguma forma símbolos de cultura africana: “Vai ter um exercício de geometria, por exemplo, que usa um prédio contemporâneo africano. Trazemos isso para equilibrar as representações que vemos no Brasil, geralmente eurocêntricas”, Flora exemplifica.

Kauê Vieira, jornalista do projeto, diz que o obscurantismo e a ignorância impedem as pessoas de enxergar a imensa fonte de conhecimento que é nossa ancestralidade africana. Ele dá como exemplo o próprio Candomblé: “Se você tiver a oportunidade de ir num terreiro, vai ver que é um poço de cultura sem fim, as crianças falam Iorubá, aprendem a cozinhar, a distinguir folhas, são ensinadas a preservar e cuidar da natureza”.

África não é só candomblé, não é só tambor e tradição. África é Pierre Verger fotografando a cultura religiosa de Salvador, é acaçá, é a beleza do cabelo crespo e de ser protagonista da história de seu país. É folhear de novo o livro e descobrir-se ocupando seu lugar de direito na cronologia cultural e social do Brasil.

 



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