Autonomia pedagógica é base da escola Amorim Lima, em São Paulo

30 de junho de 2016
Escola aposta na autonomia das crianças

A escola aposta na autonomia das crianças e na manutenção de laços com a comunidade para inovar na educação no século XXI.

Série sobre as escoals apoiadas pela Fundação estão no Mapa de Inovação e Criatividade do Ministério da Educação (MEC)

Em cada canto da escola de paredes alaranjadas e poesias coladas nas portas, há um dedo da comunidade: na biblioteca, onde crianças entram e saem com as mãos cheias de livros, nos salões onde alunos de idades diferentes convivem, nas oficinas onde soam os tambores de maracatu ou nas aulas onde educadores versam em latim e grego. A Escola Municipal Desembargador Amorim Lima pulsa em uníssono com o bairro do Butantã, ao seu redor, e se hoje é referência em práticas inovadoras da educação, é porque abriu portas e quebrou muros.

Não só os muros físicos, os que dividem sem razão salas de aula, como os muros que separavam a escola da comunidade. Quando Ana Elisa Siqueira assumiu a diretoria, há 21 anos, a gestão escolar descerrou seus portões e convidou pais e mães a conhecerem e participarem do processo político- pedagógico. A comunidade que adentra, no início timidamente, ajudando a olhar crianças no recreio, percebe o que dá certo e o que não dá, e toma seu lugar dentro do Conselho Escolar. “Um olhar que antes era privado, voltado só para seu filho, se abre para uma esfera mais pública”, conta Ana.

Dos diálogos e conflitos naturais que surgem de repensar as práticas escolares em conjunto com a comunidade, a gestão entrou em contato com a Escola da Ponte, em Portugal. A generosa experiência de uma escola sem séries, sem provas e com uma multidisciplinariedade que considera fundamental a autonomia da criança, inspirou a escola Amorim Lima a repensar o seu projeto pedagógico. “Nós nos inspiramos nas questões de autonomia, responsabilidade, solidariedade e participação: como a escola participa do mundo, como fica mais engajada com o tempo e com a vida? Foi assim que introduzimos a mudança”.

O que começou nos anos de ponta de ciclo (1º e 5º), em dois anos estava estendido para todos os anos letivos. Foi no tateio e a todo vapor: sem parar as aulas, as mudanças foram feitas nos tropeços e acertos de experiências que abordavam a inovação na educação, nos prazeres e nas dificuldades de se fazer uma pedagogia política. Derrubar as paredes e agrupar os alunos em grandes salões de pesquisa foi uma necessidade surgida a partir do entendimento de que docência e crianças de diferentes idades deveriam compartilhar espaços, aprendendo e ensinando em paralelo.

Segunda, quarta, quinta e sexta, os estudantes do 1º ao 9º ano têm aulas nos salões de pesquisa. Os alunos da 1º e 2º ano ficam em espaços a parte por estarem em fase de alfabetização; e em outros salões ficam as turmas do 3º ao 5º ano e do 6º ao 9º. Nesses espaços, crianças e adolescentes seguem um roteiro de pesquisa por eles escolhido, pedindo orientação e levantando questões aos educadores – em média de cinco a seis em cada salão.

Os estudantes são agrupados em grupos de cinco alunos para realizarem a pesquisa de forma coletiva, mas cada um responde ao roteiro individualmente. Não há provas: o processo avaliativo acontece quando o aluno sente que está preparado e consiste na apresentação de um portfólio que pode vir em diversas mídias e formatos. Ana Elisa explica: “A ideia é que seja o mais narrativo e mais pessoal possível. Como essa criança incorpora esse novo conhecimento na vida dela. ‘Será que esse novo conhecimento faz uma diferença para a minha vida, o que eu estou entendendo melhor agora?’”.

Cada aluno é diferente e aprende de maneira distinta. É por isso que a figura do tutor é um importante. O tutor é um educador que cuida de um grupo de até 20 crianças, acompanhando-as e desenvolvendo projetos de tutoria, em encontros que acontecem às terças-feiras. “Está na responsabilidade do tutor olhar tanto o grupo como olhar cada pessoa na sua especificidade”. Ao mesmo tempo em que deve coordenar o coletivo, também deve ter um olhar afetivo para cada um dos indivíduos, entendendo seu percurso de aprendizado e ajudando-o a melhorá-lo. O tutor acompanha a criança durante todo o seu ciclo, para criar com ela um laço e um processo.

Os percursos pedagógicos são permeados pelo fio condutor da cultura; ela está presente nas oficinas de dança e música, nos poemas de Paulo Leminski e Fernando Pessoa espalhados pela escola, mas também nos lugares menos óbvios: em toda a construção da identidade dos pequenos cidadãos ali formados. “Temos que pensar em nossa história, origem, sobre quem somos. Nossas danças, festas e tradições fazem com que a gente se relacione e dialogue com o outro”, enfatiza Ana.

A Escola Desembargador Amorim Lima tem uma parceria com a Fundação Telefônica Vivo e com o Instituto Natura no programa Escolas que Inovam. Juntos, construíram uma plataforma para atender todas as necessidades dos tutores e da escola, funcionando tanto como local de aprendizagem quanto de armazenamento de dados. “Construímos uma plataforma que é cara do Amorim, a partir dos nossos dispositivos pedagógicos”, conclui a diretora.

Em uma escola onde se prima pela experimentação e inovação, a cultura digital assume formas que dialogam com as necessidades dos educadores e alunos. A parceria com a Fundação Telefônica Vivo equipou digitalmente a escola, trazendo aparelhagem como netbooks e tablets, além da implementação de conexão 3G. Junto com o programa Escolas que Inovam, os gestores construíram uma plataforma para atender todas as necessidades dos tutores e da escola, funcionando tanto como local de aprendizagem quanto de armazenamento de dados.

O escritor Rubem Alves escreveu: “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. As escolas que são asas existem para dar aos pássaros a coragem de voar”. Essa poesia está impregnada em cada um dos gestos educacionais inovadores da Escola Amorim Lima. Ao se abrir para a comunidade e minar divisões geográficas e subjetivas, permite aos seus alunos pássaros um voo de autoconhecimento e descoberta, baseado na premissa, simples e por muitas vezes submetidas, de que eles são capazes de aprender com autonomia justamente por serem crianças.



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