Cidade no interior do Piauí é referência em ensino público de qualidade

01 de março de 2019

Participação da família na educação, valorização do professor e incentivo à leitura fizeram Oeiras, um município piauiense, conquistar nota 7,1 no Ideb em 2017

Menino vestindo uniforme escolar está sentando atrás de uma mesa lendo um livro

Há seis anos, Oeiras, cidade do interior do Piauí, é uma referência em ensino público de qualidade.  O exemplo bem-sucedido para transformar a educação e a vida de milhares de crianças está baseado no foco das escolas da cidade na alfabetização, no envolvimento da família na escola, na valorização do papel do professor e no incentivo à leitura.

“Não executamos nada de extraordinário, só fizemos o que era necessário e com qualidade”, revela a secretária municipal de educação de Oeiras, Sebastiana Tapety, sobre a revolução no sistema de ensino da cidade, que foi a primeira capital do Piauí.

Mas a situação nem sempre foi assim: em 2013, Oeiras tinha nota 4 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e a evasão escolar era de 32%. O município também não tinha uma política concreta de alfabetização, nem participação expressiva em olimpíadas estudantis. A estrutura das escolas também era outro ponto frágil.

O Ideb foi criado em 2007, como uma forma de avaliar a educação básica em todo o país e de estabelecer metas para a melhoria do ensino. São levadas em consideração no indicador, a taxa de rendimento escolar e a média de desempenho das instituições nas avaliações aplicadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep.

Foi a partir de 2013 que a vida de 6.200 crianças que cursam o ensino fundamental mudou e Oeiras passou a ser uma referência em educação pública de qualidade.

“Em pouco tempo, conseguimos grandes mudanças na educação pública municipal. Oeiras é um exemplo de que o que precisamos na educação é de criatividade, inovação e vontade de fazer bem o que precisa ser feito. As crianças têm acesso à merenda e transporte, aulas com educadores dinâmicos e que acreditam no poder da educação”, relata Sebastiana Tapety.

Crianças e educador de escola em Oeiras, Piauí, posam para foto com livros nas mãos.

 

Projetos para transformar a educação

A nota do Ideb que era de 4, em 2013, saltou para 7,1 em 2017 – o resultado superou a meta brasileira para 2021, quando o país espera alcançar a nota 6 no Índice. A evasão escolar caiu para 21% no mesmo ano.

Para o diretor da Escola Municipal Girassol, Washington Luis Santos, é muito difícil melhorar a educação no país sem pensar primeiro na alfabetização.

“Primeiramente, a criança precisa ser alfabetizada. É só a partir daí que ela vai poder aprender qualquer outra coisa. Em Oeiras, fizemos uma experiência de dividir os alunos em sala de aula por sua capacidade de leitura. Chegamos a ter estudantes de diferentes faixas etárias estudando juntos, mas que tinham dificuldades parecidas quanto ao aprendizado. Essa divisão fez com que o professor pudesse trabalhar as disciplinas, entendendo as necessidades das crianças”, conta o diretor.

Para incentivar a leitura e a escrita, o município desenvolveu os projetos Aprendendo Com e a Feira Literária de Oeiras (Flor). Na primeira iniciativa, os estudantes passam um ano inteiro conhecendo a vida e obra de um autor, como Monteiro Lobato e Ziraldo. Na segunda, as crianças colocam em prática esse aprendizado, impactando cerca de 30 mil pessoas, entre moradores de Oeiras e de municípios vizinhos.

Outra iniciativa desenvolvida no município foi o Projeto Borboletas, uma proposta de alfabetização, criada pelas professoras Ruthnéia Lima e Osana Morais. A metodologia desenvolvida pelas educadoras começa na modificação da sala de aula e vai até a alteração do modelo de gestão das escolas. Tudo pensado em sequências didáticas para que as crianças leiam com competência, entendam as diferentes formas de conhecer o mundo e que possam ser independentes em um futuro próximo.

A base do Projeto Borboletas é aplicada pelo educador, que pode conhecer, por meio da escuta, a personalidade das crianças, a estrutura de suas famílias, quais suas dificuldades de aprendizagem, quais são seus interesses pessoais, etc. O diálogo entre educador e o aluno gera um diagnóstico sobre o nível de leitura e de compreensão do mundo. A partir daí, eles são divididos em fases de aprendizado, e não em anos ou classes, de acordo com seu nível de leitura e escrita, mesmo que as idades sejam diferentes.

A iniciativa possibilitou combater um dado que preocupava a secretária de educação: no começo de 2017, sete em cada dez crianças do 5° ano do ensino fundamental não sabiam ler. Os resultados do projeto já podem ser constatados na cidade.

“A alfabetização é muito poderosa e causa mudanças de mentalidade que, por consequência, geram mudanças de comportamento”, revela Tapety.

Ainda como um dos efeitos da educação pública de qualidade alcançada por Oeiras, estão o acúmulo de títulos em competições estudantis. Foram 18 apenas na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e quase mil medalhas na Olimpíada de Astronomia e Astronáutica (OBA), um dos maiores eventos científicos estudantis do país.

Crianças de uniforme escolar mexem em livros expostos em uma mesa ao ar livre

 

O futuro da educação em Oeiras

Para buscar inspiração em uma educação pública de qualidade, representantes do município foram até Sobral (CE). A cidade lidera o ranking do Ideb dos municípios nos anos iniciais do ensino fundamental: em 2017, conquistou a nota 9,1.

Mas, enquanto os investimentos em educação no município cearense acumulam décadas, a transformação em Oeiras possui seis anos. As grandes transformações conquistadas em curto prazo animam professores e gestores da educação municipal a pensar o futuro da cidade.

“A educação é encarada no município como algo que transforma vidas. Ainda não alcançamos integralmente nossos objetivos, mas acreditamos que estamos cada vez mais perto da excelência. Enxergamos um belo futuro para as crianças e os jovens no município e, em consequência, para toda a cidade”, prevê Washington Luís.

 



Deixe uma resposta aqui