Cientista brasileira premiada inspira alunas a seguirem seus passos

11 de fevereiro de 2019

“Dos 40 jovens que já orientei, 32 estão hoje em universidades continuando suas pesquisas e oito seguiram para o mercado de trabalho”, comemora Joana D’Arc Félix, PhD em Harvard e professora no interior de São Paulo.


O nome é de heroína, a atuação é inspiradora e a história de vida não deve nada aos filmes hollywoodianos. No Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência conheça a cientista brasileira Joana D’Arc Félix de Sousa, que com mais de 80 prêmios conquistados nas áreas de Química e Sustentabilidade e 15 patentes registradas nacional e internacionalmente, representa um dos grandes nomes da área.

Joana é professora e coordena o curso técnico de curtimento na Escola Agrícola de Franca (Etec Prof. Camerlino Correa Júnior), no interior de São Paulo. Desde 2004, ela incentiva jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social a seguir o caminho da iniciação científica e se engajar em pesquisa de ponta. Muitos de seus orientandos trocaram o tráfico de drogas e a prostituição pelo estudo.

Dia Internacional de Mulheres e Meninas na CiênciaInstituída em 2015 e celebrada todo dia 11 de fevereiro, a data é liderada pela UNESCO e pela ONU Mulheres. É um lembrete de que as mulheres e as meninas desempenham papel fundamental nas comunidades de ciência e tecnologia e que sua participação deve ser fortalecida.

“Não tive nenhuma baixa. Dos 40 jovens que já orientei, 32 estão hoje em universidades continuando suas pesquisas e oito seguiram para o mercado de trabalho”, comemora.
Quando começou a trabalhar na escola, a professora tinha acabado de concluir seu pós-doutorado em Harvard, nos Estados Unidos, uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Encontrou um ambiente hostil com muita violência e evasão escolar. Mas foi ali que descobriu a vocação de transformar vidas usando a ciência para levar jovens a criar, inovar, desenvolver autoestima e autonomia.

“A Ciência está de braços abertos para qualquer pessoa. O investimento em educação científica desde a infância é a chave para a construção de uma sociedade democrática, economicamente produtiva, mais humana e sustentável. É o caminho para um mundo melhor”, afirma Joana D’Arc Félix.

Uma infância difícil e o sonho de usar jaleco

Desde muito cedo, Joana descobriu que seria difícil viver em um país como o Brasil. E o estudo sempre foi uma válvula de escape. Filha de uma empregada doméstica e de um funcionário de curtume, aprendeu a ler com a mãe, aos três anos de idade e, ao longo da formação escolar, sofreu com vários episódios de preconceito e exclusão devido à sua origem e por ser negra.

Foi após um desses episódios de rejeição que decidiu ouvir os conselhos do pai: “Meu pai me disse que não era para eu deixar o preconceito limitar meus sonhos. Estude para ser a primeira aluna da turma, ele me dizia”. 

E foi o que ela fez, tirou as melhores notas da sala e viveu cercada de livros. Na época, ela tinha o sonho de ser igual aos trabalhadores que via todos os dias onde morava e onde o pai trabalhou por 40 anos.  “Minha ambição de infância era ser química para vestir jaleco branco e trabalhar no curtume”.

A dura rotina de estudos se estendia até às 23h, sem final de semana. Aos 14 anos veio a recompensa: passou no curso de química nas três universidades que prestou – USP, Unesp e Unicamp, onde escolheu seguir a carreira acadêmica.

“No segundo semestre, consegui uma bolsa de iniciação científica e foi a grande transformação da minha vida. Com o dinheiro da bolsa, eu pagava minha moradia, comprava comida e ainda mandava um pouquinho para que minha mãe diminuísse o ritmo de trabalho”, enumera.

Após a graduação, seguiu com o mestrado e com o doutorado. Aos 25 anos, a publicação de artigos científicos lhe rendeu o convite para fazer PhD (última etapa na sequência de estudos acadêmicos) em Harvard.

“Quando cheguei aos Estados Unidos, pensei que era ali que eu queria ficar para sempre”.  Mas não foi o que o destino reservou a Joana. A irmã e o pai faleceram, com a diferença de um mês, e a mãe ficou sozinha e doente. Joana largou tudo para voltar à cidade natal e cuidar da mãe.

Alunos da professora Joana, posam para foto em grupo, vestidos de jaleco dentro do laboratório.
 

Ciência que transforma

De volta ao Brasil, Joana prestou concurso para lecionar na Escola Agrícola de Franca, localizada na mesma cidade em que nasceu. O que encontrou não era o que esperava. Uma noite, ligou para seu orientador nos Estados Unidos buscando apoio e coragem para sair logo dali.

“Fiquei reclamando de tudo, que a escola era péssima, que nem laboratório tinha, que os alunos não queriam saber de nada. Quando terminei, ele me disse: ‘Joana, larga de ser preguiçosa. Não é porque você estudou em Harvard que você precisa trabalhar no melhor centro de pesquisa. Mude a realidade dessa escola, faça com que ela seja conhecida no mundo inteiro’. Aquelas palavras me bateram fundo e no dia seguinte eu já queria mudar tudo”, conta Joana.

A aluna Ângela Ferreira de
Oliveira

Como professora do curso técnico de curtimento, pleiteou bolsas de pesquisa para aluno e começou a pensar em projetos que estimulassem os jovens com uma nova estratégia de ensino e aprendizagem, voltada para a criatividade, inovação e empreendedorismo.

“Desenvolvi uma metodologia na qual os alunos podem montar um mini curtume em casa, que não exige muito espaço e não gera resíduos tóxicos, já que substituí todos os produtos químicos por restos de frutas e vegetais. Assim, muitos alunos se tornaram empreendedores e envolveram toda a família nos negócios”, orgulha-se Joana.

“A Joana mudou a minha vida”, afirma Ângela Ferreira de Oliveira, de 22 anos, orientada pela professora desde os 15. A jovem conta que é filha mais velha de nove irmãos, a mãe é doméstica e o pai trabalha em curtume. “Aos olhos da sociedade, eu seria mais uma sem perspectiva. Só que a Joana enxergou meu potencial e me ajudou a superar todas as barreiras”, afirma.

Ângela já segue passos semelhantes de Joana: ganhou mais de cinco prêmios nacionais com uma pesquisa sobre pele artificial para transplantes e testes farmacológicos, e ficou em 4º lugar na GENIUS Olympiad, em Oswego, nos Estados Unidos. Hoje está cursando o 3º ano de química na Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Agora é que são elas

A aluna Verônica e a professora Joana posam para foto
“Trabalhar com a professora Joana é uma das
maiores experiências da minha vida.
Em vez de ficar na teoria, temos a chance de
desenvolver projetos e apresentá-los em feiras
de engenharia e ciência que acontecem em
diversas universidades brasileiras.
Ganhamos prêmios, oportunidades de estudo,
contato com pessoas de diferentes lugares e
culturas do Brasil e do mundo”, diz a aluna
Verônica Marques, 19 anos, que sonha em
fazer direito e defender as mulheres no Brasil.

Cerca de 80% das orientandas de Joana são mulheres, índice que contrasta com a escassez da presença feminina na área de exatas do Brasil. Um estudo realizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostrou que apenas 20% dos projetos de pesquisa da área de exatas financiados pelo governo são de mulheres.  No mundo, o quadro não é tão diferente: apenas 28% dos pesquisadores são do sexo feminino, segundo a Unesco.

“A gente precisa motivar essas meninas, especialmente as que estão em condição de vulnerabilidade social. Muitas delas são desencorajadas pela própria família, outras engravidam e não voltam mais para a escola”, analisa Joana D’Arc Félix.

Além de motivação, a inspiração pode incentivar o aumento de representatividade na área. Aos 14 anos, Havilla de Matos assistiu a uma reportagem sobre Joana. A jovem sempre quis ser engenheira e, aos 22 anos, descobriu que a cientista seria sua professora no curso técnico de Meio Ambiente. “Quando a vi na sala, chorei de emoção. Estar diante de um ídolo é surreal!”, relata.

Depois de ser premiada com um projeto de redução de toxidade de resíduos da indústria de curtume, a jovem e seu grupo se preparam para apresentar o trabalho no México, em julho. “Nunca esteve na minha imaginação representar o Brasil numa feira internacional, mas estou aprendendo que barreiras e limites são criados por nós mesmos”, conclui Havilla.



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