Como montar um laboratório mão na massa para o ensino médio

29 de março de 2019

Entenda as vantagens de incentivar a cultura maker e confira algumas dicas de como começar a ressignificar os espaços da escola

Grupo de alunos está sentado em torno de uma bancada com elementos usados para experimento, como álcool e alimentos, em laboratório da Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, em Manacapuru (AM).

O Censo Escolar de 2018, divulgado recentemente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), trouxe um dado preocupante: menos da metade das escolas brasileiras (44%) têm laboratório de Ciências. O levantamento mostrou que este espaço de aprendizagem está presente em apenas 38,8% das escolas públicas de ensino médio e em 57,2% dos colégios da rede privada.

Um laboratório de Ciências é, antes de tudo, um espaço para exploração criativa, investigação de problemas e trabalho em grupo. Na educação do século XXI, esse tipo de espaço vem sendo substituído  pelo espaços maker, ou mão na massa, onde a experimentação, a pesquisa e manipulação são fundamentais.

Para além dos experimentos científicos, os laboratórios mão na massa também envolvem programação, criação artísticas e os mais diversos tipos de exploração. Quando bem guiadas, as experimentações podem ser poderosas.

“Tocar, mexer e experimentar, é essencial. Na pirâmide de aprendizagem, a experiência do fazer é um dos mecanismos mais eficientes para reter o conteúdo”, afirma o pesquisador brasileiro Leo Burd, do MIT Media Lab, grupo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, cujo foco é o estudo da aprendizagem criativa.

Segundo Leo Burd, a aprendizagem criativa inverte uma lógica que é normalmente usada nos currículos tradicionais, que primeiro apresenta o conteúdo para que, depois, o aluno construa pontes.

Por tudo isso, um espaço maker pode tornar a aprendizagem dos estudantes do ensino médio muito mais interessante e está alinhado com as novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio, que prevê o desenvolvimento de competências, como pensamento científico, crítico e criativo, projeto de vida e cooperação.

“As atividades mão na massa têm o poder de engajar, de dar autonomia ao aluno, de tornar os conteúdos mais atraentes e mais próximos do mundo dos jovens, o que é essencial para uma aprendizagem para a vida”, explica Mônica Mandaji, educadora e coordenadora geral do Programaê, uma iniciativa da Fundação Telefônica Vivo em parceria com a Fundação Lemann, que busca aproximar a programação do cotidiano de jovens de escolas públicas de todo o país.

 

Não é preciso grande investimento para começar!

Mas custa caro para implantar um espaço deste tipo? Mônica garante que não. Carteiras velhas viram bancadas, basta customizar. Os 15 computadores quebrados e encostados, podem se transformar em cinco que funcionam bem. O segredo é usar a criatividade e o trabalho de cooperação para transformar o ambiente.

“Que tal engajar os alunos na concepção do projeto do laboratório maker? A proposta é justamente estimular a colaboração. São três as palavras que resumem a aprendizagem mão na massa: criatividade, comprometimento e colaboração”, diz a educadora.

Em Vitória de Santo Antão (PE), a EM Manoel Domingos de Melo, que integra o Inova Escola  projeto da Fundação Telefônica Vivo, usou a criatividade para minimizar custos e maximizar espaços ao construir um carrinho móvel que circula pela escola e leva equipamentos às mãos dos estudantes.

 

Ressignificação do entorno

O professor de biologia e física Galileu da Silva Pires, de Manacapuru (AM), é a prova de que força de vontade e iniciativa valem mais que qualquer laboratório bem estruturado. Quando chegou à Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, encontrou o pequeno laboratório sem uso e fez da floresta um espaço vivo de experimentos. “Temos essa rica natureza como fonte de pesquisa, por que não a utilizar? Nas aulas de agroecologia, buscamos usar a ciência para desenvolver projetos sustentáveis”.

Alunos da Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré estão manipulando panelas com diferentes alimentos em laboratório ao ar livre, em Manacapuru (AM).

Galileu e seus alunos do Ensino Médio já transformaram escamas de peixe em algodão, que pode ser usado para filtro ecológico de cigarro e curativos resistentes para feridas em diabéticos, e bagaço do coco verde em carvão ecológico.

E, provando que criatividade supera a falta de recursos, o grupo está engajado na construção de um drone feito com materiais colhidos da floresta. “Quando estimulados, os estudantes têm plena capacidade de deixar um legado”, relata o professor.

Comece já!

Veja dicas de como montar um laboratório maker:

1) Faça uma lista com os objetivos que você espera alcançar com o laboratório maker.

2) Mapeie e dê funcionalidade a lugares subaproveitados, como paredes no pátio, espaços embaixo das escadas, muros e corredores.

3) Reúna ferramentas simples como chaves de fenda, mandeira, cola quente, tesouras e  furadeira

4) Reaproveite materiais eletrônicos como fios, baterias ou pilhas, motores de brinquedos quebrados, peças de computadores, leds, resistores, entre outros.

5) Envolva pais e comunidade e peça doações de equipamentos.

6) Reorganize o mobiliário! Reagrupe mesas e cadeiras em formato de bancada, dê novo uso à madeira de portas e cadeiras velhas, pendure ferramentas e máquinas nas paredes. A organização libera espaço e ajuda a visualizar os materiais disponíveis.

No especial Mão na Massa, o Porvir reuniu relatos de boas práticas de escolas públicas que utilizaram a cultura maker e disponibilizou um simulador que ajuda a montar um laboratório.

 



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