Competências socioemocionais conectam professores e jovens

20 de agosto de 2018

A especialista Tonia Casarin defende que competências socioemocionais devem ser incluídas desde cedo na vida escolar e auxiliam a estabelecer um vínculo de afeto entre aluno e educador

Tonia Casarin, especialista em competências socioemocionais, está sorrindo na imagem. Ela usa óculos e blusa estampada, em preto e branco.

Em sua primeira experiência profissional, Tonia Casarin percebeu que não tinha aprendido na faculdade as competências socioemocionais mais importantes para lidar com o mercado de trabalho: persistência, tolerância à frustração, comunicação assertiva, capacidade de trabalhar em equipe e de ouvir o outro.

“Pensei que isso talvez fosse mais importante que certos conhecimentos teóricos e nunca ninguém tinha me ensinado”, conta ela, que se questionava porque não dedicamos mais tempo a aprender e desenvolver tais habilidades.

O interesse pelo assunto foi tanto que ela se tornou especialista em competências socioemocionais, que são empregadas para superar os desafios do século XXI. Profissional multifacetada: coach, empreendedora, palestrante, escritora e professora, Tonia defende que tais aptidões sejam incorporadas desde cedo à vida escolar.

Na entrevista abaixo, ela explica como ter consciência e capacidade de moldar alguns comportamentos nesta era tecnológica pode auxiliar os professores a se conectar com os jovens. Confira:

Como podemos explicar o que são competências socioemocionais?

Tonia Casarin: São competências que podem ser tangibilizadas em comportamentos. Ou seja, a capacidade de pensar, sentir e de se comportar de uma determinada forma faz com que se tenha uma competência.

É importante salientar que tais habilidades podem ser desenvolvidas e aprimoradas. Um aluno que tem dificuldade em manter o foco no início da vida escolar não necessariamente permanecerá assim até o final dos estudos. Ele pode ser estimulado e auxiliado a desenvolver essa competência.

Como incorporar as competências socioemocionais ao dia a dia da sala de aula?

Tonia Casarin: A escola é um microcosmo da sociedade. O jovem frequenta a escola para aprender matemática e português, mas também para conviver com amigos, com regras, com os horários etc. A educação ocorre também em casa.

Na escola, o professor pode integrar competências socioemocionais às matérias do currículo. No início do dia, pode organizar uma roda de conversa, na qual os alunos vão comentar o que fizeram e como estão se sentindo. Na aula de português, ao analisar um livro, pode perguntar à turma como eles avaliam o comportamento de um personagem.

As competências socioemocionais também podem ser usadas para endereçar questões específicas. Por exemplo, a do professor que dá aula logo após o recreio e, provavelmente, recebe uma turma agitada.  O educador pode propor, de forma lúdica, um exercício de respiração. Se empregar cinco minutos nessa atividade, talvez tenha alunos que aproveitarão melhor o restante do tempo.

Isso exige uma mudança da forma de pensar por parte do professor, não?

Tonia Casarin: Sim. O professor tem de compreender que está ali também para aprender, não apenas para ensinar. Não precisa ter respostas para tudo ou ter medo de errar. Nem todas as propostas funcionarão de imediato, mas tem de ser perseverante.

No entanto, não se pode exigir que os professores incorporem as competências à sua prática diária sem capacitá-los para tal. Há muitos que nunca tiveram a chance de explorar o assunto. É preciso dar tempo e apostar em sua formação, para que possam criar ambientes seguros, nos quais os alunos possam se expressar, experimentar e errar. Em minha plataforma, desenvolvi cursos sobre o tema.

Como fica a relação professor e aluno nesse contexto?

Tonia Casarin: Depende de cada caso. Falo sobre a capacidade de criar uma relação mais próxima com o aluno, mudar, com o auxilio do espaço seguro, a forma como o aluno enxerga essa relação.  Diversos educadores já fazem isso, ainda que com outra denominação.

Quase todos os alunos têm um professor inesquecível. E provavelmente é inesquecível não por ter ensinado gramática ou trigonometria, mas por ter olhado para o aluno, perguntado como ele se sentia, acreditado no seu potencial quando ninguém mais fazia isso.

Assim, se estabelece uma relação de afeto que conecta aluno e professor. A afetividade funciona como uma “cola” que conecta a todos.

Os jovens são fascinados pela tecnologia e passam cada vez mais tempo online. Como trabalhar as competências socioemocionais nesse contexto?

Tonia Casarin: A tecnologia traz aspectos positivos e negativos. O professor pode aproveitar os recursos tecnológicos para entender aquilo que os alunos gostariam de aprender e para enriquecer as aulas. Ao debater o bullying, pode aproveitar seriados sobre o assunto. No entanto, a tecnologia também pode provocar distanciamento.

Com frequência, nem os pais estão emocionalmente disponíveis para os filhos. É importante estabelecer um espaço de diálogo, um espaço de conversa. Os jovens sentem muita falta disso. Os recursos tecnológicos podem ajudar na construção desse espaço, mas apenas como ferramenta de trabalho. O mais importante é a tecnologia humana.



Deixe uma resposta aqui