Conheça o brasileiro que luta por mais prisões humanizadas

25 de abril de 2018

Há mais de 30 anos, Valdeci Ferreira divulga Brasil afora método inovador de ressocialização de condenados. Em 2017 ele ganhou o Prêmio Empreendedor Social do Ano

Valdeci Ferreira posa sorridente para foto em corredor. Ele divulga método inovador de ressocialização de condenados em prisões humanizadas, e por isso conquistou Prêmio Empreendedor Social do Ano

Nas unidades prisionais humanizadas da APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), os prisioneiros são tratados como sujeitos de direitos e deveres. Embora pouco conhecida, a metodologia existe há mais de 40 anos, e muito devido ao trabalho e Valdeci Ferreira.

Desde os 21 anos, ele atua como voluntário em presídios. Hoje, aos 55, é presidente da FBAC, a federação que congrega as APACs, e um dos principais ativistas pelos direitos humanos da população carcerária.

Em 2017 conquistou o Prêmio Empreendedor Social do Ano entre 160 inscritos na América Latina, promovido pela Fundação Schwab, da Suíça, em parceria com o jornal Folha de S.Paulo. O prêmio foi entregue durante a abertura do 13º Fórum Econômico Mundial da América Latina, realizado em março em São Paulo.

Na ocasião, Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, afirmou que o evento também tem seu “lado social”, na figura dos empreendedores sociais e destacou o impacto da metodologia empregada pela instituição. Para Valdeci, o reconhecimento no Fórum Econômico Mundial é uma chancela para ampliar o impacto das APACs no Brasil e no mundo.

 

Prisões humanizadas

“As APACs cumprem a Lei de Execução Penal naquilo que toca direitos e deveres dos presos, além de oferecer alternativas para a mudança de vida. O que deveria ser regra acaba sendo pequenos oásis de esperança em meio a um deserto de sofrimento”, define ele.

Criada pelo advogado Mario Ottoboni, em 1972, a metodologia disseminada por Valdeci Ferreira tem como finalidade evitar a reincidência. Com foco na valorização humana, o método da APAC oferece aos condenados condições de reintegração social. A educação tem grande importância nesse processo com cursos supletivos, profissionais e oficinas. Além disso, eles prestam serviços a comunidade local, e tem acesso a assistência médica, psicológica, espiritual e jurídica e apoio aos familiares.

Hoje são 120 APACs no Brasil e em 23 países, como Chile e Costa Rica. Por aqui já atenderam mais de 33 mil condenados, uma média de 3.600 por ano. Em viagem a Colômbia, Valdeci conversou com a Fundação Telefônica Vivo, e faz um diagnóstico da situação prisional e aponta caminhos para que as penalizações sejam mais humanizadas.

Com mais de 700 mil presos, o Brasil tem a 4ª maior população carcerária do mundo, 40% ainda aguarda por condenação judicial. O que esses dados mostram sobre o nosso país?

Mostra que vivemos em uma profunda crise econômica, política, de valores e liderança. O caos e a falência prisional têm a mesma idade do nosso país. Quando o problema é discutido, fala-se em construção de novos presídios e edição de leis para prender mais pessoas ou agravar as penas para crimes já existentes, mas engana-se quem pensa que temos justiça quando mandamos para a prisão. O Estado prende, piora essas pessoas e depois as devolve à sociedade.

 

 Homem escreve em lousa em sala de aula dentro de prisão humanizada da APAC
“Ninguém é irrecuperável”. A metodologia surgiu na APAC de São José dos Campos (SP), com o advogado Mario Ottoboni. Ferreira trouxe o conceito para Minas Gerais e trabalha pela expansão.

 

Nas prisões comuns, as atividades educacionais, assim como o trabalho, garantem diminuição da pena. Apesar de ser direito garantido, apenas 10% dos encarcerados têm acesso aos estudos, principalmente por causa da baixa oferta do Estado. Quais as implicações disso?

Educação e trabalho praticamente não existem em nossas prisões. Sabemos que trabalho é fundamental para a dignidade humana, porém mais de 70% dos presos nunca tiveram carteira assinada. 75% dos presos são analfabetos ou semianalfabetos, e nós sabemos como a educação abre portas e janelas e ajuda as pessoas a enxergarem novos horizontes. O Estado precisa entender que deve atuar para que o tempo de cumprimento de pena não seja perdido ou ocioso.

A maneira como se penaliza hoje no Brasil é ineficiente?

Falta ênfase em medidas alternativas. Mas eu sou otimista e acredito que uma mudança pode acontecer agora que pessoas envolvidas com crimes de colarinho branco começam a ocupar as prisões e conviver com de perto com o que acontece lá dentro.

As prisões humanizadas das APACs são um exemplo de ressocialização de presos, principalmente pelos baixos índices de reincidência – em torno de 25%, comparado aos 85% dos presídios comuns. Afinal, qual o segredo?

Nós partimos do pressuposto de que quem conhece os problemas e devem apontar soluções são aqueles que estão atrás das grades. O método nasce da convivência diária, da escuta atenta. Nós desenvolvemos 12 elementos fundamentais que quando atuam harmonicamente e se apoiam no tripé amor, confiança e disciplina, vão produzir uma mudança de comportamento e, sobretudo, de mentalidade.

Ao longo de sua trajetória, o que fez com que você sentisse que realmente estava fazendo um bom trabalho?

Como voluntário há 34 anos, posso dizer que sou privilegiado por ver a transformação de pessoas que cometeram todos os tipos de delitos e eram motivo de vergonha e humilhação, e hoje estão bem, são bons pais de família, bons filhos. Metade dos funcionários da FBAC é composta por ex-presidiários. A dedicação dessas pessoas é a certeza de que nós estamos no caminho certo.

Você recebeu o Prêmio Empreendedor Social da América Latina por seu trabalho. O que essa conquista simboliza

O prêmio veio em boa hora por ajudar na divulgação do nosso trabalho. Eu acredito que o reconhecimento é a coroação de um esforço de 45 anos de existência da APAC e de dedicação de tantos homens e mulheres que nunca medem esforços e sacrifícios na luta contra o crime e a violência.

 

 



2 comentários sobre “Conheça o brasileiro que luta por mais prisões humanizadas”

  1. francisca iolani fernandes claudino disse:

    obrigada por ter me dado a possibilidade de conhecer essa fantástica experiencia.
    adcredito no projeto.

    1. Fundação Telefônica Vivo disse:

      Olá, cara leitora!
      Obrigada pela mensagem, sua opinião é importante para nós
      Continue nos acompanhando
      Abraços

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