Coronavírus: como combater o preconceito e as fake news

17 de março de 2020

Com mais de 150 mil pessoas infectadas em todo o planeta até o momento, o coronavírus foi reconhecido como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) na última semana. Isso significa que transmissões estão ocorrendo em todas as partes do mundo e que governos devem tomar medidas para atender a todos, em especial, os grupos de risco.

O Brasil já tem centenas de casos confirmados e os números devem aumentar nas próximas semanas, com eventos sendo cancelados, escolas e universidades fechando e já com efeitos econômicos sentidos. Nesta situação de emergência, tão importante quanto conter o vírus, é combater o discurso de ódio e as fake news (notícias falsas) decorrentes da pandemia. E a educação, aliada a fontes seguras de informação, é uma arma poderosa.

Segundo o Ministério da Saúde, Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus foi descoberto em dezembro de 2019 após casos registrados na China, e provoca a doença chamada de coronavírus (COVID-19).

Desde o fim de janeiro, a China já computou mais de 80 mil casos e cerca três mil mortes por coronavírus, sendo o epicentro na cidade de Wuhan. Com a doença se espalhando, inicialmente, pela Ásia, episódios de racismo e xenofobia começaram a acontecer com asiáticos e descendentes em diversos países.

Si Liao, professora de mandarim que mora em São Paulo desde 2011, passou por algumas situações. Com 650 mil inscritos em seu canal, o Pula Muralha, ela atendeu a pedidos de seus seguidores e produziu uma série de vídeos sobre o coronavírus na China.

Por ter estudado em Wuhan e com parentes e amigos morando na região, a intenção também era combater notícias falsas. No entanto, ela passou a ter de lidar com comentários ofensivos após realizar os vídeos.

“A mídia toda só falava desse assunto. Com isso, entrou um monte de gente nova, não só a minha audiência, que já tem interesse na China e já me acompanha. Aí apareceram comentários muito preconceituosos e outros sem sentido, do tipo ‘Ah, volta para a China!’, ou ‘Me ensina como fazer sopa de morcego’”, conta Sisi, como é conhecida.

Além disso, Sisise viu constrangida por olhares ao tossir em público e soube de um amigo coreano intimidado por um motorista de aplicativo, que ficou questionando se ele seria chinês. Por tudo isso, ela achou importante se juntar à campanha #EuNãoSouUmVírus, que surgiu na França, mas foi usada em vários países, como Estados Unidos e Itália, para combater discurso de ódio relacionado ao coronavírus.As mensagens foram reunidas em uma página.

“A situação está muito grave e a gente precisa juntar forças, precisa de mais amor. Porque é um vírus que não tem país, é algo mundial, é humano. Na campanha, pedi que enviassem mensagens positivas para os chineses nos comentários do canal para eu traduzir tudo para o mandarim. Foram muitas mensagens! Mostrei aos meus pais e eles ficaram muito emocionados”, conta a professora.

 

Desconstruindo o discurso ódio e a desinformação

Para Michele Marques Pereira, diretora de Assuntos Profissionais e Formação Continuada da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom), um dos maiores desafios da educação é tirar a pessoa da inércia diante de algum sofrimento, ou em casos de preconceito e racismo.

Atuando também como formadora do Núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Michele defende que tanto esses episódios que envolvem discurso de ódio, quanto o compartilhamento de fakenews são oportunidades de pensar conceitos como empatia e a importância da apuração. “A informação e o conhecimento são valiosos para quebrar preconceitos que assolam nossa sociedade”.

A educadora acredita no papel ativo e no protagonismo dos jovens na produção de conteúdo como estratégia de combate às notícias falsas. Ela cita como exemplo os resultados obtidos pelo programa Imprensa Jovem, uma agência de notícias feita por estudantes que, com suporte de professores, fazem matérias sobre a comunidade, a escola e temas como vacinação e o próprio COVID-19.

“Quando o jovem produz a informação, é maior a chance de reter o conhecimento. Além de trabalhar vertentes da escrita, da linguagem falada, da edição da imagem, unindo comunicação e educação. Então, é uma série de ganhos”, enumera.

 

O uso da Ciência e fontes seguras

Para a formadora Michele Pereira, é preciso educar as pessoas sobre a origem da informação e para sempre buscar fontes primárias. “A primeira regra é analisar de onde vem a informação. Se não é de um especialista no tema ou de um veículo de comunicação reconhecido, a recomendação é checar. É preciso recorrer a artigos e revistas acadêmicos, jornais e instituições de qualidade, além de não passar adiante informações não verificadas”, afirma.

Nesse sentido, a especialista vê a tecnologia como um meio no processo de comunicação.

“É fundamental pensarmos em formar jovens cidadãos que tenham uma leitura crítica dos meios, e que trabalhem as tecnologias para transformar suas comunidades de forma propositiva”, opina.

Foi com o intuito de ser uma fonte segura de compartilhamento de informações em redes sociais que nasceu o Nunca vi 1 Cientista, projeto que reúne nove cientistas e 13 colaboradores na produção de conteúdo sobre Ciências.

Laura de Freitas, farmacêutico-bioquímica, doutora em Biociências e Biotecnologia, pesquisadora na USP e cofundadora da iniciativa, afirma que no caso do coronavírus, o grande problema das notícias falsas é que trazem riscos à saúde das pessoas.

A especialista alerta que o cientista é peça fundamental no combate à desinformação. “Uma pessoa bem informada e que é capaz de compreender os princípios científicos por trás de uma afirmação, não cai em mentiras e não coloca sua saúde em risco”, acredita.

Em uma situação que envolve um novo vírus, há um estado de alerta entre autoridades médicas porque não se sabe exatamente como irá se comportar nas diferentes populações.

Nesse cenário, para frear as informações falsas, Laura acredita que a melhor abordagem é usar a mesma mídia de disseminação das mensagens recebidas.

“Se uma notícia falsa circula no Whatsapp, temos de circular a informação correta no mesmo meio. Não adianta escrever um texto lindo em um site que não dá para ser compartilhado de forma direta no grupo da família. A informação científica tem o mesmo poder de viralizar  que a informação falsa, basta criá-la no formato e linguagem correta”, finaliza a doutora e pesquisadora.

Abaixo, selecionamos uma lista de fontes de seguras de informação sobre o coronavírus (COVID-19). Os exemplos vão desde perfis de cientistas em redes sociais, até sites de notícias e de conteúdo acadêmico. Confira a seguir!

Sites e agências de checagem

UOL, Nexo e Folha de S. Paulo

Os três sites de notícias anunciaram que vão liberar os links relacionados ao tema do coronavírus, ou seja, não vão cobrar pelo acesso a esses conteúdos. Você pode acessar os conteúdos pelos seguintes links: página especial do UOL, a página inicial do Nexo e as últimas notícias sobre Coronavírus na página de cotidiano da Folha.

Lupa

A agência de checagem se uniu a checadores de notícias em mais de 40 países e criou o Coronavírus: o que checamos, atualizados diariamente, desmentindo boatos que vão de prevenção a fatores políticos e culturais sobre a pandemia de coronavírus no mundo.

Instituto Sociocultural Brasil China

O Ibrachina atualiza diariamente o Observatório do Coronavírus. A iniciativa surgiu depois que o presidente da entidade recebeu muitas notícias falsas relacionadas ao tema.

 

Perfis em redes sociais

NuncaVi1Cientista

O grupo formado por cientistas orientou sobre o uso de máscaras no perfil do Instagram nuncavi1cientista e desmentiu boatos sobre álcool gel e coronavírus no canal do Youtube Nunca vi 1 cientista.

Atila Iamarino

Biólogo, pesquisador e comunicador científico e criador do canal Nerdologia está usando o perfil @oatila, no Twitter, para falar sobre o tema, trazendo últimas notícias e informações confiáveis sobre formas de combate.

 

Recursos acadêmicos

Rede SciELO

A Scielo provê Acesso Aberto (AA) a conteúdos de periódicos científicos, organizados em coleções nacionais e temáticas. Cada coleção é gerida por uma organização científica reconhecida nacionalmente, como CNPq, Fapesp e Capes.

Google Acadêmico

Buscador do Google que reúne Artigos científicos, teses de mestrado e doutorado, livros e material de organizações profissionais e acadêmicas. Também é possível encontrar resumos e citações.

Fontes oficiais

O Ministério da Saúde elaborou um guia com informações sobre o COVID-19 que vão desde prevenção até ações tomadas pelo SUS para conter o avanço do coronavírus.



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