Designer catarinense conta como é viver sem gerar lixo

01 de novembro de 2018

Autora do blog Um ano sem lixo, Cristal Muniz ensina brasileiros a reduzir o desperdício

Cristal Muniz, autora do blog Um Ano Sem Lixo está sentada com as mãos apoiadas sobre a mesa

Que ninguém pense em oferecer um guardanapo de papel ou um copinho plástico para Cristal Muniz, designer gráfica catarinense. Há três anos, ela trava uma luta particular para reduzir o volume de resíduos no mundo e baniu esses produtos do seu cotidiano com o objetivo de viver sem lixo.

Inspirada pela norte-americana Lauren Singer, do blog Trash is for Tossers, Cristal se lançou, em 2015, ao desafio de produzir, até o final daquele ano, o mínimo possível de resíduos. A experiência, relatada no blog Um ano sem lixo, deu tão certo que ela segue firme até hoje no mesmo objetivo, e compartilha suas dicas de redução de lixo, cosméticos e produtos naturais.

O “ano sem lixo” evoluiu para Uma vida sem lixo, livro que lançou em junho com recomendações para minimizar o desperdício. Em entrevista exclusiva ao portal da Fundação Telefônica, ela conta um pouco da sua experiência:

 

Em 2015, você iniciou o projeto Um ano sem lixo, após conhecer o blog Trash is for Tossers. Como foi sua adaptação à nova rotina?

Cristal Muniz: Alterei alguns produtos e modifiquei meu modo de agir. Continuei a escovar os dentes, mas passei a fazer minha própria pasta. Continuei lavando o cabelo, mas uso um shampoo sem embalagem. E assim por diante.

Meu cotidiano, na verdade, ficou mais fácil.  Não preciso ir ao mercado diariamente. Faço feira uma vez na semana e, uma vez por mês, compro alguns artigos a granel, como aveia.  Gasto menos tempo na rotina de manutenção da casa, pois eu uso poucas coisas e planejo bem minhas compras antes de fazê-las.

 

Quais suas maiores dificuldades e melhores descobertas nesse processo?

Cristal Muniz: As maiores dificuldades são, normalmente, a própria mudança de hábitos, pois passamos a ter atitudes com as quais não estamos acostumados, como a de levar sempre um “kit lixo” ao sair de casa. Entre as melhores descobertas, sem dúvida está a otimização do tempo e dos gastos. Eu mesma faço meus produtos de limpeza, que servem para a casa toda. Aliás, quase todos os artigos que uso têm mais de uma função. Então, eu preciso de poucas coisas e elas funcionam pra tudo. E isso se reflete no aspecto financeiro. Gasto muito menos dinheiro do que antes, com cosméticos, artigos de limpeza e até comida – compro tudo orgânico – pois as compras são bem planejadas e substituí diversos produtos por opções mais baratas.

 

É possível substituir todos os produtos por alternativas que não gerem lixo?

Cristal Muniz: Evidentemente, há certos produtos que não têm substitutos, principalmente os relacionados à saúde e medicamentos. Precisamos ter limites, né? O que não for possível substituir, não substituímos.  No caso dos medicamentos, pacientes de doenças crônicas, por exemplo, podem aprender a descartar corretamente todas as caixinhas, cartelas e outros resíduos provenientes dos remédios.

O mesmo se aplica aos artigos médicos descartáveis, como seringas agulhas etc., e à camisinha, um lixo que precisa ser gerado (risos).  Camisinha evita gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, é um lixo bem-vindo, pois não há opção biodegradável no Brasil.

Há outros artigos domésticos que não têm muita alternativa, como pilhas, baterias e lâmpadas. Nesse caso, o ideal é escolher produtos com boa durabilidade, que resistam ao tempo. Se você trocar uma lâmpada incandescente por uma de LED, no longo prazo a geração de resíduo será menor, pois dura mais. A questão é fazer uma avaliação caso a caso, considerando a durabilidade, o descarte e o impacto ambiental de cada artigo.

 

Quando não está em casa, como faz para não gerar lixo? 

Cristal Muniz: Carrego sempre na bolsa um Kit Lixo Zero, um estojo com talheres, guardanapo de pano, hashis, canudo e um copo reutilizável. Se peço comida para viagem, levo no meu guardanapo. Se não dá para colocar no guardanapo, levo meu potinho ou marmitinha. Quando vou tomar um café, peço para colocar direto no meu copo.

Assim, evito os descartáveis, principalmente os plásticos, que estão entre os piores tipos de resíduo, pois normalmente não são reciclados – um copo que usamos por poucos segundo pode levar mais de 400 anos para se decompor. Também sempre carrego uma ecobag ou saquinho de pano. Basicamente, são essas as minhas estratégias para não gerar lixo fora de casa.

 

Muitas pessoas, em vez de reduzirem a produção de lixo, optam por encaminhar os resíduos para a reciclagem. Quais os equívocos dessa prática? 

Cristal Muniz: Não há equívoco em encaminhar os resíduos pra reciclagem, considerando que em nosso país apenas 3% do lixo tem esse destino. Ainda temos de falar muito a respeito.

O problema é achar que essa é a solução-fim para a questão do lixo. Não é. Porque, mesmo que a gente reciclasse todo o lixo possível de ser reciclado, restariam muitos resíduos que não podem ser reciclados e que vão parar nos lixões e aterros sanitários, locais que são um verdadeiro desperdício de espaço e podem contaminar o meio ambiente.

Assim, é preciso um esforço gigante em começar a reduzir a quantidade de lixo que se produz, principalmente os que não podem ser reciclados: fraldas, absorventes, papel sujo, papel engordurado, caixas de pizza… Esse tipo de resíduo precisa deixar de ser produzido. A partir desse esforço, aos poucos, podemos fazer trocas pra reduzir também o lixo reciclável.

 

Um ano sem lixo acabou virando o livro “Uma vida sem lixo.” Você cumpriu o objetivo de não gerar mais nenhum tipo de lixo, ou precisa fazer isso ocasionalmente?

Cristal Muniz: Quando eu digo “não produzir lixo”, sempre me refiro a resíduos não-recicláveis e não-compostáveis, do tipo “rejeito”, que vão para o aterro sanitário. Produzo alguns lixos recicláveis, pois não consigo comprar tudo sem embalagem. Também produzo lixo orgânico, mas o transformo em adubo com minha composteira.

Quanto ao lixo reciclável, me esforço para produzir o mínimo possível.  Compro a granel tudo que posso. Quando não consigo, opto por materiais recicláveis e destino as embalagens corretamente. Aliás, deixei de comprar (ou passei a comprar pouco) muita coisa por causa das embalagens. Produtos em bandeja de isopor, embrulhados em plástico-filme, caixas longa vida… Até são materiais recicláveis, mas, como raramente isso é feito, melhor evitar. Minha estratégia é basicamente essa.

 

Saiba como as escolas podem trabalhar o conceito de sustentabilidade na prática com seus alunos

– Não usar produtos descartáveis de plástico na cantina;
– Dar a cada aluno um copinho/ caneca / squeeze, não descartável para beber água, de forma que seja reutilizado no dia a dia;
– Cultivar uma horta para que se valorize mais o ciclo do alimento e se desperdice menos;
– Realizar a Segunda Sem Carne – iniciativa da Sociedade Vegetariana Brasileira para oferecer alimentos de origem não-animal;
– Fazer a gestão de resíduos correta dentro do colégio.

 



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