Economia solidária: uma forma transparente e sustentável de fazer negócios

25 de março de 2020

Conheça a modalidade que se torna uma alternativa para empoderar comunidades locais com responsabilidade socioambiental


Um jeito diferente de comprar, vender e produzir baseado na autogestão de cooperativas ou associações têm ganhado cada vez mais espaço no Brasil. É a chamada Economia Solidária, uma maneira mais significativa de movimentar a economia a partir de valores éticos e sustentáveis, da inclusão, da geração de renda, do empoderamento e do desenvolvimento de comunidades locais.

Diferente do modelo mais tradicional, baseado na separação entre os donos do negócio e empregados, na economia solidária são os próprios trabalhadores que gerem e cuidam de seus empreendimentos. Outra marca forte desse modelo é a responsabilidade socioambiental, como define Daniel Tygel, porta-voz do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, que organiza uma rede de entidades de apoio e empreendimentos que já seguem essa lógica.

“Na economia solidária, a responsabilidade socioambiental não se limita ao produto pronto para o consumo. Práticas e valores éticos estão presentes em toda a cadeia, até a distribuição e o comércio. Cada produto tem uma história e o consumidor pode escolher investir em empresas que respeitem o meio ambiente e os direitos humanos”.

Embora ainda pouco difundido, o movimento existe por aqui desde os anos 80. O economista Paul Singer era um dos principais estudiosos do tema no Brasil. De 2003 até pouco antes de seu falecimento, em 2018, ele foi titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), que integrava o Ministério do Trabalho.

Em entrevista à TV Brasil, ele contou que o movimento começou em 1844, quando um grupo de operários demitidos de uma fábrica na Inglaterra se juntou para continuar a produzir e ter renda. “Os princípios são os mesmos até hoje: a porta aberta para que qualquer pessoa que pertença à cooperativa entre ou saia do movimento quando desejar e a ajuda para quem precisa, a tal da solidariedade”, explica o economista.

 

Mas funciona na prática? 

Já existem inúmeras iniciativas pelo Brasil que demonstram o sucesso desse modo de organização produtivo. A Cáritas, confederação de mais de 160 organizações humanitárias de mais de 200 países, é uma das que mais trabalha para fomentar a cultura da economia solidária.

Em 2015, criou o projeto Fortalecimento da Economia Solidária no Brasil, que apoia, com assessoria técnica e jurídica, 166 empreendimentos econômicos em todo o território nacional com o objetivo de valorizar práticas culturais e de coletividade. Os segmentos atendidos são agricultura familiar, reciclagem de resíduos sólidos, pesca artesanal e finanças solidárias.

O coletivo Mulheres do Axé, localizado na comunidade Colônia Oliveira Machado, em Manaus (AM), é um deles. Formado por 30 mulheres, é voltado para a valorização de práticas e culturas das comunidades tradicionais da região.

Além de fomentar o artesanato feito por mulheres em situação de vulnerabilidade social, o projeto também atua em parceria com profissionais da saúde para auxiliar na prevenção de doenças, como depressão, câncer do colo de útero e HIV, além da conscientização sobre cuidados com a natureza.

“Para nós, o apoio foi de extrema importância, porque salvou mulheres que estavam isoladas em suas casas, com uma série de sofrimentos, e que hoje estão sendo superados com cuidados médicos, conversas e inserção social e empoderamento nos diversos aspectos da vida”, revela a coordenadora do projeto Flor de Nave, em entrevista ao site da Caritas.

 

Empreendedorismo social é um caminho

Há muitas iniciativas lideradas por empreendedores sociais que fomentam a economia solidária, como o Coletivo Mulheres de Itapuã, criado pela educadora Rita Capotira para fomentar o resgate de valores históricos do bairro de Itapuã, em Salvador (BA) através do empreendedorismo feminino.

Em parceria com ONGs e instituições, as integrantes do coletivo fazem cursos de capacitação, de técnica de vendas e planejamento financeiro a técnica de bordados, moda e estética. Mensalmente, vendem seus produtos na Feira das Mulheres de Itapuã, que também conta com rodas de conversas, saraus e outras atividades culturais voltadas para a comunidade.

“As mulheres negras começaram o empreendedorismo no Brasil. Aqui no bairro não foi diferente. Elas que faziam artesanato e quitutes, colocavam a cesta nas costas e saiam para vender no centro. Nós queremos resgatar essa ancestralidade e a força da mulher empreendedora”, contou Rita em entrevista à Fundação Telefônica Vivo.

A SO+MA, fundada em 2014 pela cientista social Claudia Pires, é uma startup que também baseia suas ações na economia solidária. Ela gerencia um programa de fidelidade para periferias, totalmente gratuito. Resíduos recicláveis são trocados por pontos que podem ser convertidos em compras em mercearias locais ou em cursos de capacitação, girando a economia e a geração de renda local.

Basta se cadastrar na plataforma e levar o lixo para um dos postos de troca, chamado Casa So+ma, que atualmente estão localizados em dois bairros da zona sul de São Paulo – Grajaú e Ana Rosa -, além de bairros em Salvador (BA) e Curitiba (PR). O material recebido é encaminhado para reciclagem através de cooperativas de catadores, aumentando também a renda desses grupos.

Em entrevista à Fundação Telefônica Vivo, Claudia contou mais sobre a lógica que move a startup. “Não nos baseamos no poder de compra, e sim no poder de comportamento das pessoas. De um lado criar novos hábitos, e do outro ampliar essas oportunidades. A gente realmente gosta de somar coisas!”.

Como começar?

Segundo o Fórum Brasileiro de Economia Solidária, há três maneiras de integrar a economia solidária. A primeira está relacionada ao consumo, ou seja, sempre que possível, você pode comprar produtos e serviços de cooperativas agroecológicas e de comunidades locais.

Outra maneira é apoiar a divulgação de iniciativas de economia solidária e se informar sobre temas de capacitação, finanças e legislação para o setor. Por fim, os interessados também podem organizar associações de compradores ou grupos de troca de produtos e serviços de forma solidária.



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