Educação 360 discute a implementação da Base Nacional Comum Curricular

17 de dezembro de 2018

Pela primeira vez em São Paulo, o evento reuniu especialistas para avaliar os desafios que surgem a partir da BNCC. Saiba o que rolou!

Imagem da plenária durante Educação 360.

O último evento da série Educação 360 aconteceu na última quarta-feira (12), em São Paulo, e reuniu especialistas de todo o país para uma discussão aprofundada sobre a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC).  O objetivo foi abordar a relevância da implementação da BNCC como forma de reduzir as desigualdades educacionais no Brasil.

O evento, promovido pelos jornais O Globo e Extra, com o apoio da Fundação Telefônica Vivo, encerrou uma série de encontros de 2018, que se propôs a levantar assuntos como tecnologia, educação infantil, diversidade, papel das juventudes e STEAM para elevar o debate sobre a qualidade da educação brasileira.

“A série cumpriu bem a função do nome, que é oferecer esse olhar em 360 graus para a educação. Foi plural, trouxe diferentes temas e atores, e promoveu o diálogo”, avaliou o jornalista Antônio Gois, presidente da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) e mediador dos painéis.

Dessa vez, o debate se centrou nas oportunidades e desafios que surgem na aplicação do documento normativo que define o conjunto de aprendizagens essenciais para a educação básica. Confira os principais tópicos abordados no evento, a seguir.

Todos por um

Renata Simões, gestora de tecnologias da Fundação Vanzoline

Com a aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para todas as etapas do ensino, a tendência é que as redes passem das discussões à ação. O próximo ano será decisivo para a implantação da base, em um esforço que envolve adequação de currículos, formação inicial e continuada de professores e a revisão de material didático e dos sistemas de avaliação. Para dar conta dessa tarefa, será indispensável um trabalho de articulação entre municípios, estados e governo federal.

O painel Cultura de Colaboração e Desenvolvimento de Currículos trouxe a experiência de quem já está fazendo acontecer. É o caso do Espírito Santo, que desde o início de 2017 começou a trabalhar em regime de colaboração com os municípios em duas iniciativas: a construção de um currículo socioemocional e uma nova política de formação de professores das redes públicas.

“Foi extraordinário ver cada município discutindo a Base e sonhando em melhorar a aprendizagem das crianças”, definiu o secretário de educação do estado Haroldo Corrêa Rocha, que também é vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).

Também presente na mesa estava Kátia Smole, secretária de educação básica do Ministério da Educação (MEC). Ela contou que o ministério propôs uma estrutura de apoio financeiro para quem participasse do regime de colaboração para a implementação da BNCC. “Nós estamos muito felizes que 80% dos municípios aderiram ao regime, mesmo sendo um convite, não uma obrigação”.

Eduardo Deschamps, presidente da Comissão da BNCC, ressaltou que o trabalho em conjunto de toda a rede é fundamental para sair de uma ideia antiga que joga toda a responsabilidade para o MEC.

“Nós só vamos dar um salto para a educação de qualidade se as soluções começarem lá na base, nas escolas, apoiadas pelas redes, municípios e estados”, afirma Eduardo Deschamps.

O cuidado com a formação docente

A formação dos professores foi um dos assuntos mais comentados entre os participantes do evento. O consenso é que para a implementação da Base, repensar a formação é indispensável e um desafio em tanto. “O problema é que a BNCC aponta para a revolução 4.0, mas, do ponto de vista da formação dos professores, nós estamos ainda na 2.0”, afirmou Mozart Neves Ramos, direto de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, no painel Os Impactos da BNCC na Formação dos Professores.

A sugestão de Mozart é criar um Instituto de Formação de Professores dentro das universidades para conectar o ensino superior com a realidade do chão da escola, uma crítica recorrente dos educadores. “O professor de educação básica é visto como inferior por quem está dentro das universidades. Temos que mudar isso. Por que não os convidamos a fazer parte do corpo docente de quem forma professores, a trabalhar em regime de colaboração nas universidades?”, sugeriu, aplaudido intensamente pela plateia.

Para Luiz Roberto Curi, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), é papel da governança criar o bom professor. “Essa governança depende de questões como aula invertida, aulas menos expositivas, mais leitura e escrita, discussões de questões mais complexas do que o programa das disciplinas”.

Já o palestrante Miguel Thompson, presidente do Instituto Singularidades, reforçou que mudar a escola também passa pela discussão não só das formações, mas dos tempos e dos espaços também. “Ser e formar um professor nesse mundo é muito complexo, porque temos que reprogramar constantemente. É como ser um Miles Davis, que sabe tudo de música, mas também trabalha no improviso”.

Educação infantil em foco

As palestrantes Nilma Fontanive e Mara Mansani participaram do painel sobre Os Principais Efeitos da BNCC na Alfabetização e nos Modelos de Avaliação. Nilma, que é vice-presidente da Câmara de Educação Básica do CNE, focou sua apresentação nas metodologias de avaliação de crianças da pré-escola.

“Estar na escola é direito da criança, mas nós temos que criar instrumentos coerentes de avaliação para a garantia desse direito. O que não é avaliado, não é direito, é narrativa”, Nilma Fontanive.

Segundo Nilma, não são provas que medem o quanto crianças de 4 e 5 anos estão aprendendo e a observação é o único mecanismo possível para a faixa-etária. Mesmo assim, ela precisa ser guiada e com apoio de recursos diferentes. “Em alguns momentos essa avaliação terá que ser subjetiva, já que muitas habilidades das crianças não são facilmente detectáveis. Muitas vezes, gravar crianças em situações de brincadeira pode ser muito revelador”, disse.

Já Mara, que é professora alfabetizadora, ressaltou que é a primeira vez que vê um documento realmente democrático, com construção coletiva que também parte da sala de aula, como a BNCC. Porém, considera polêmica a exigência de alfabetizar as crianças até o segundo ano do ensino fundamental I (atualmente, aprender a ler e a escrever se dá até o terceiro ano).

“Não me parece uma meta muito realista se olharmos para a realidade brasileira”, disse, ao exibir alguns dados que mostram que 14% dos estudantes que ingressam na escola não concluem o Ensino Fundamental I e apenas 44% das escolas brasileiras contam com biblioteca ou sala de leitura. “Os professores de educação infantil precisam de ajuda e nós temos que olhar melhor para os alfabetizadores”, completou.

O que ainda vem por aí

O Educação 360 contou ainda com um painel Os Desafios para a Adaptação dos Materiais Didáticos à BNCC, que reuniu relatos de como a Editora Moderna e a Abrelivros estão fazendo a transição da produção de um material estático para um multimídia, mais integrado à realidade do aluno.  Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare, participou do painel com dicas para essa transição, entre elas produzir materiais que favoreçam o protagonismo do aluno, que convide a explorar espaços para além da sala de aula e que convoquem o professor a assumir outra atitude.

Já no painel BNCC do Ensino Médio: os próximos passos, especialistas avaliaram o que o documento propõe para a última etapa da educação básica. Eduardo Deschamps, Presidente da Comissão da BNCC no CNE, esclareceu que a Base é única para as três etapas e que, portanto, as dez competências gerais estabelecidas no documento são as mesmas. “Porém, o projeto de vida é eixo estrutural importante para o novo ensino médio, assim como o aprofundamento em pensamento computacional e cultura digital”.

José Francisco Soares, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e conselheiro do CNE, fez uma distinção entre mudanças importantes que a Base propõe sobre o que ensinar aos jovens. “Se antes eram apenas conteúdos disciplinares, agora é necessário ensinar o que é importante para a vida dos estudantes. Além de habilidades cognitivas, também as habilidades essenciais para o XXI, traduzidas pelos 4 Cs – comunicação, colaboração, pensamento crítico e criatividade”, afirmou.

Também fez parte da mesa Frederico da Costa Amâncio, Secretário de Educação de Pernambuco, que relatou a experiência bem-sucedida do estado com o Ensino Médio.  Ele se diz otimista com a aprovação da BNCC e ressaltou duas palavras que, em sua visão, resumem as propostas apresentadas: equidade e oportunidade.

“Está sendo uma ótima oportunidade conversar sobre currículo, avaliações em larga escala, Enem, materiais didáticos. Quando foi que paramos para fazer isso?”, enfatiza. “Que ao longo de 2019 a gente possa ter mais debates como estes”, concluiu.

Workshops

Além dos painéis, o Educação 360 contou com dois workshops promovidos pela Fundação Telefônica Vivo.

A oficina Por uma escola mais digital: objetos de aprendizagem em sintonia com a BNCC, conduzida por Beto Silva, colaborador do parceiro-executor CIEDS, abordou formas de usar a tecnologia para se ajustar a novas demandas do currículo escolar.

“Precisamos deixar de lado a cultura de que o celular é proibido na sala de aula e usá-lo como ferramenta para trabalhar a inovação. Ele faz parte da realidade dos alunos”, disse o orientador.

Já Monica Mandaji, professora, doutora em educação e consultora de formação do Instituto Conhecimento Para Todos, parceiro executor das oficinas do Programaê!, falou sobre Os desafios da BNCC – A importância da integração do pensamento computacional ao Currículo para o desenvolvimento de competências e habilidades do cidadão do século XXI. Como sugere o nome do treinamento, foram propostas atividades e jogos que exercitam a lógica da programação, sem necessariamente usar o computador.



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