Educação inclusiva: o caminho para jovens diagnosticados com autismo

26 de fevereiro de 2019

Conheça a história de jovens que, por meio da educação, superaram desafios e preconceitos para realizar seus sonhos.

Mulher está sentada ao lado de menina, que está escrevendo. Imagem ilustra matéria sobre educação inclusiva

 
Diana Prates tinha 12 anos quando ouviu falar, pela primeira vez, sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela se identificou com algumas características e, na mesma hora, pensou: “nossa, acho que eu sou autista!”. Mas até que um diagnóstico oficial fosse identificado e realmente confirmado, quase dez anos se passaram e muitas visitas a psicólogos e psiquiatras foram realizadas.

Diana Prates, que está usando um terno amarelo claro e óculos, acredita no poder da educação inclusiva.

Atualmente, aos 22 anos, Diana é estudante de pedagogia e acredita no poder da educação inclusiva. Ela tem desenvolvido estratégias de alfabetização para crianças, diagnosticadas com autismo, ou não. “Cheguei a cursar a faculdade de biomedicina e de saúde pública, mas agora eu sei que o meu propósito está mesmo na educação”, considera Diana.

A jovem é criadora da Alopex – Prestação de Serviços, que por meio do Projeto Pomar, busca alfabetizar, ensinar matemática, ciências humanas e ciências da natureza a jovens e crianças que sentem dificuldades no processo de aprendizagem.

As estratégias e materiais de ensino – livros, cartilhas, filmes ou brincadeiras – são pensados especialmente para cada pessoa, de acordo com suas necessidades.

“Além de ensinar a ler e escrever, outra missão que tenho é de fortalecer a inclusão por meio da educação, principalmente para pessoas autistas. Quando a gente dá visibilidade para a causa, mostramos tudo aquilo que somos capazes de fazer e ainda podemos engajar as pessoas e desmistificar algumas ideias que são recorrentes quando tratamos do tema do autismo”, conta.

 

Políticas públicas para a inserção social

Em 2008, o Ministério da Educação (MEC) lançou a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, que traz o histórico de inclusão escolar no Brasil para a construção de “políticas públicas promotoras de uma Educação de qualidade para todos os alunos”.

Em outra iniciativa, a Lei n° 12.764, de 2012, instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, que garante à pessoa com TEA acesso a serviços de saúde, educação, ensino profissionalizante, moradia, entre outros. Dessa forma, a lei prevê que as escolas são proibidas de recusar a matrícula de alunos diagnosticados com o transtorno ou qualquer outra deficiência.

Em 2015, foi estabelecida a Lei Brasileira de Inclusão, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência e aborda, dentre outros aspectos, medidas para garantir o acesso à educação, como a proibição da cobrança pelas escolas de valores adicionais pela implementação de recursos de acessibilidade.

Essas são algumas das iniciativas do Estado para garantir a inclusão pela educação de quase dois milhões de pessoas autistas no Brasil, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Diana Prates considera que as políticas públicas são fundamentais para que a pessoa diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista tenha autonomia e acesso à educação – a forma mais eficaz de transformação da realidade.

“As políticas públicas para as pessoas com deficiência são extremamente relevantes, para entender que não estamos sozinhos no mundo. A única diferença é que precisamos de algumas adaptações, mas temos a mesma potencialidade de ser uma Temple Grandin (renomada cientista e professora estadunidense, diagnosticada com TEA). A inclusão pela educação é um caminho sem volta”, diz Diana.
 

Ele não seria nem alfabetizado e, agora, é médico

Érica Rezende é psicóloga e mãe de Enã Rezende, um jovem médico de 26 anos, diagnosticado com Síndrome de Asperger, um autismo de grau mais leve. Quando o filho era criança, Érica chegou a ouvir de uma professora que ele não seria sequer alfabetizado.

“Recebi da professora essa notícia com grande espanto, porque era notória a capacidade do meu filho para o aprendizado. Decidimos trocar o Enã de escola e passamos a viver um dia de cada vez. O sonho de ser médico surgiu após a morte do pai, quando ele tinha sete anos. No início até achei que era uma vontade passageira, mas depois percebi que era realmente uma vocação”, lembra Érica Rezende.

No terceiro ano do Ensino Médio, para colocar em prática o sonho de cursar medicina, ele se mudou de Rondonópolis (MT) para Cuiabá. Lá, morou sozinho, passou a ser mais independente e ter mais autonomia. Em 2019, Enã Rezende se formou em Medicina pela Universidade de Cuiabá (Unic).
 

Preconceitos e desafios

Assim como Diana, Enã recebeu o diagnóstico na fase adulta, aos 19 anos. No entanto, desde que tinha pouco mais de um ano de idade, seus pais perceberam que seu comportamento era um pouco diferente das crianças de sua faixa etária: ele tinha dificuldade na fala, de compreensão e não conseguia olhar nos olhos das pessoas. Mas, segundo a mãe, aprender nunca foi um problema.

“O Enã sempre foi apaixonado pelo saber e ficava chateado nos dias que não havia aula, porque estudar sempre foi prazeroso e uma descoberta diária. Diria que o conhecimento é seu maior tesouro”, conta Érica.

Enã Rezende está vestindo beca ao se formar em medicina. Jovem diagnosticado com autismo luta por uma educação inclusiva.

Durante a graduação, Enã era considerado um aluno exemplar, que tirava boas notas nas disciplinas e ajudava os colegas em diversas atividades. Mas na época do colégio foi vítima de bullying por não ter seu comportamento compreendido pelos colegas de sala.

“Algumas pessoas me disseram que nunca se consultariam com um médico autista. Isso é puro preconceito”, lamenta em entrevista ao Portal G1.

Para Érica, a inclusão pela educação é um tema que precisa ser urgentemente discutido pela sociedade.  “Temos um longo caminho até que a inclusão seja uma prática nas escolas. Não adianta colocar o aluno em sala de aula e deixar sem nenhuma intervenção. Falo sempre que a verdadeira inclusão é aquela que acolhe, coopera, envolve e participa”, conclui a psicóloga.

Para conhecer outras iniciativas e histórias

Em 2017, a psicóloga Érica Rezende, mãe de Enã, criou o projeto Autismo na Escola. A iniciativa percorre instituições de ensino em Rondonópolis estimulando a amizade e o companheirismo entre os estudantes e formando multiplicadores para tratar do tema do Transtorno do Espectro Autista (TEA)
Em 2018, o Canal Futura lançou a série documental “Em um Mundo interior”, que retrata o universo de crianças e jovens, de diferentes classes sociais e regiões do país, diagnosticados com o TEA. Os sete episódios apresentam a história de crianças na fase escolar e de jovens que estão concluindo a graduação, por exemplo.

 



Deixe uma resposta aqui