Ensino híbrido no Brasil está mais perto do que você imagina

20 de julho de 2018

Pesquisa mostra que professores brasileiros querem usar novas tecnologias em sala de aula, apesar das dificuldades. Entenda os desafios na adoção deste modelo de ensino.

Imagem mostra grupo de quatro pessoas usando tablets

Especialistas já professaram: até 2030 a educação na maior parte do mundo será personalizada, centrada nos interesses de cada estudante, além de híbrida, com conteúdos online ocupando a maior parte da grade curricular. Se você pensa que nosso país está muito longe de alcançar essa realidade, engana-se!

É verdade que grande parte das escolas brasileiras luta contra a falta de infraestrutura e baixa conectividade. Porém, é também cada vez mais comum a percepção de que a apropriação de novas tecnologias melhora a qualidade do ensino-aprendizagem. Foi o que mostrou um novo relatório do Instituto Clayton Christensen, que há mais de uma década estuda o potencial disruptivo da aprendizagem online nos Estados Unidos.

Foi a primeira vez que a organização norte-americana focou em outros países, colhendo dados do Brasil, da Malásia e da África do Sul com o objetivo de identificar os obstáculos e as oportunidades do ensino híbrido. A amostra brasileira considerou 110 entrevistados de 19 estados, entre professores, coordenadores e diretores. A metade deles atua em escolas públicas.

Julia Freeland Fisher, uma das autoras do estudo, dá a boa notícia. “As escolas brasileiras foram bons exemplos de uma mudança de mentalidade importante. Em vez de usar a tecnologia pela tecnologia, muitas delas mostravam foco em novas metodologias para impulsionar o aprendizado”, aponta a pesquisadora.

Essa tendência apareceu tanto nas visitas que a equipe norte-americana fez a escolas brasileiras como no questionário respondido pelos educadores. Quando perguntados sobre as principais motivações para o uso de tecnologia em sala de aula, as opções mais apontadas foram: a busca por programas que facilitem o aprendizado personalizado (72%), promoção da competência e aprendizagem (67%) e melhora dos resultados acadêmicos (62%).

A maioria dos professores é mais propensa a usar a tecnologia apenas como complemento ao ensino tradicional. Mesmo assim, eles reconhecem os benefícios do ensino híbrido. Para 72%, o uso de novas tecnologias em sala de aula melhora o aprendizado emocional e social dos alunos, e 79% dizem sentir os estudantes mais engajados com conteúdo híbrido.

 

Riqueza tecnológica X modelo combinado

Existe uma grande diferença entre agregar tecnologia no ambiente escolar e promover, de fato, o aprendizado híbrido. O modelo combinado leva em conta dois conceitos fundamentais: personalização e coleta de dados. Combina, portanto, a autonomia do estudante e atividades online a elementos típicos da educação offline, como trabalho em grupo, leitura e atividades mão na massa. São mudanças profundas na maneira como a escola é formada. E mudanças podem assustar.

Talvez por isso quase 80% dos entrevistados brasileiros apontaram a capacitação profissional de alta qualidade como o principal desafio para o uso de tecnologias em sala de aula, seguido por conectividade (62,7%) e infraestrutura (41,8%). Além disso, 25% dos educadores assumem ter dificuldades de relacionar aprendizado online e offline.

Segundo Julia Freeland, várias escolas adotam o uso de tecnologia, mas não propriamente a do ensino híbrido. “A internet, os jogos online, as redes sociais e os buscadores podem estar sendo usados para coordenar o aprendizado, mas a experiência é pouco eficiente quando não é conectada com experiências de aprendizagem off-line. O que só acontece quando os professores usam dados para refletir e moldar suas práticas”, explica.

Por isso, a recomendação é que os esforços de desenvolvimento profissional vão além de instruir os professores a usar os recursos e ferramentas específicas. Segundo a especialista, é importante ajudar o professor a entender o porquê e como a tecnologia pode apoiar uma revolução metodológica.

 

Novos caminhos na prática

Adaptar o uso de recursos tecnológicos a determinados conteúdos, controlar a dispersão de estudantes com tablets e smartphones, encontrar cursos de formação continuada que ensinem mais sobre o modelo híbrido e superar a rigidez do modelo curricular vão ao encontro dos temas da pesquisa e são pontos trabalhados nos cursos de capacitação de professores ministrados por Everton Tadeu Gonçalves, na EM Manoel Domingos (PE), que integra o Programa Inova Escola.

O analista educacional do CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados), em Recife, chama a atenção para que a sociedade se engaje na criação de políticas públicas que permitam um currículo mais flexível, com maior liberdade ao educador.

Enquanto isso, ele recomenda que cada escola faça o seu papel na promoção do ensino híbrido. Como? “Desenvolvendo ambientes que promovam o compartilhamento de informações, de como que o processo seja sistematizado e construído de forma colaborativa por todos da escola: educadores, gestores, estudantes e comunidade”, indica o analista.

Infográfico mostra dados da pesquisa Blended Beyond Borders, em tradução livre: O Ensino Híbrido Além das Fronteiras. Foram ouvidos 110 entrevistados no Brasil, sendo 50% de escolas particulares e os demais 50% de escolas municipais e estaduais

 

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