Escola ativa: como expandir os benefícios da educação física para jovens

30 de agosto de 2019

Ao reconectar corpo e mente, a disciplina articula todas as competências previstas pela BNCC e ocupa papel central para o desenvolvimento pleno do estudante


Os benefícios de realizar atividade física nas escolas vão alémdo desenvolvimento de habilidades motoras. Também é movimentando o corpo que promovemos a saúde física e emocional, a melhora das funções cognitivas e do desempenho escolar. Assim, o conceito de escola ativa começa a ganhar espaço.

Apresentado em 2017 pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Brasil), o Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional – Movimento é Vida: Atividades Físicas e Esportivas para Todas as Pessoas propõe a escola ativa como um caminho para estimular o desenvolvimento integral dos estudantes.

Isso significa colocar o movimento como elemento central para potencializar o aprendizado e uma vida plena. “A escola ativa tem que fomentar e celebrar o movimento, considerar as necessidades diárias de atividades físicas, promover aprendizagens sobre o assunto e garantir a participação democrática da comunidade escolar”, explicou ao Porvir Gabriel Vettorazzo, assistente de projetos do PNUD.

O problema é que a educação física ainda sofre muitos entraves nas escolas. Com base em dados do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional sobre Saúde do Escolar, o relatório do PNUD constatou que entre mais de 200 mil instituições de ensino brasileiras, apenas 0,55% são consideradas ativas em nível pleno, com iniciativas e diretrizes para a promoção de atividades físicas e esportivas.

Contornar essa situação começa pela mudança da mentalidade que considera a educação física como uma disciplina menos importante do que outras, de cunho recreativo ou exclusivamente ligada à alfabetização motora.

“O intelecto e o desenvolvimento cognitivo sempre foi muito valorizado, mas tudo isso fica dentro de um corpo. Trabalhar essa relação é também uma questão de autoconhecimento, uma vez que a gente precisa entender melhor esse corpo para cuidar dele”, explica Vanderson Berbat, diretor do Impulsiona Educação Esportiva. “Inclusive problemas como depressão, ansiedade e sedentarismo vem por conta de uma desconexão com o corpo”.

Criado pelo Instituto Península e executado em parceria com o Ministério da Educação, o Impulsiona promove o esporte como ferramenta educacional para as escolas de educação básica de todo o país. Desde 2017, quando foi criado, já atraiu mais de 30 mil professores e chegou a mais de 22 mil escolas em todas as regiões do Brasil.

De acordo com Vanderson, o interesse em melhorar o status da educação física tem aumentado nos últimos anos. “Especialmente porque a educação física é uma disciplina central para trabalhar as dez competências da Base Nacional Comum Curricular”. O curso online do Impulsiona sobre como implementar a BNCC nas aulas de educação física já teve mais de 1.500 inscritos, segundo o diretor.

 

O papel do educador físico

Dia 1 de setembro é celebrado o Dia do Professor de Educação Física. Nas escolas, esse profissional costuma figurar entre os favoritos dos estudantes. Nem por isso deixa de enfrentar barreiras diárias para trabalhar a disciplina, desde a falta de quórum nas aulas até ausência de materiais adequados.

Há quatro anos, Marília Marques é professora de educação física na EMEF Josefa Nicacio Araújo, na zona leste de São Paulo. Para manter o engajamento da turma, ela costuma diversificar o cardápio de atividades, com aulas individuais e coletivas que passam por artes marciais, atletismo, tiro ao alvo, rúgbi, beisebol e até dança das cadeiras.

Colocar o estudante no centro de algumas decisões é outra estratégia. No Dia Nacional do Folclore, por exemplo, ela os informou que queria trabalhar com o tema e pediu que eles escolhessem a atividade. “Trabalho a consciência de que o esporte pode ser algo muito divertido e que traz muitos ensinamentos também. Durante um jogo eles entendem regras, elaboram estratégias, usam bastante o raciocínio lógico. Tem também um exercício de coletividade e empatia importante”.

A professora Marília também costuma trabalhar com colegas de outras disciplinas. “Algumas turmas são de alunos que têm muita dificuldade com algumas disciplinas, como Português e Matemática. Nós, professores, discutimos soluções conjuntas para o problema”, relata. “Estou trabalhando a autoestima da turma através das brincadeiras e das atividades físicas”.

 

Promovendo a inclusão

O esporte pode ser também uma via poderosa para promover inclusão e diversidade no ambiente educacional. Foi o que fez Leonardo Coelho de Deus Lima, que dá aulas de educação física no Instituto Federal do Piauí.

Com o projeto Educação Física Adaptada: Análise, Reflexão e Ação, Leonardo levou os alunos a se mobilizarem para tornar a comunidade onde a escola está inserida menos hostil às pessoas com deficiências. O trabalho envolveu várias etapas. Primeiro, os alunos saíram nas ruas para levantar os problemas de acessibilidade da região.

Em parceria com as aulas de Sociologia, eles participaram de debates, leram textos e assistiram filmes sobre inclusão. Depois, foi a vez de experimentarem, na prática, alguns esportes paralímpicos, como futebol de cinco e vôlei sentado.

Para ampliar a discussão para a população, os estudantes também participaram de audiências públicas para apresentar às autoridades os problemas observados e realizaram uma passeata pela cidade, em parceria com o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência (COMUDE).

O trabalho rendeu à Leonardo o Prêmio Professores do Brasil 2018, na categoria Esporte como Estratégia de Aprendizagem. Ao site do Impulsiona, Leonardo conta que um dos momentos mais marcantes que vivenciou durante a realização do projeto foi após a prática do futebol de cinco, que os alunos participaram com venda nos olhos.

“Uma das alunas começou a chorar muito. Ela falou que estava muito angustiada e com sensação de impotência”. O professor, então, respondeu: “agora imagine o dia a dia de um cego que não possui espaços públicos adaptados?”.

Dentro do conceito de escola ativa, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) está com inscrições abertas para o curso online Movimento Paralímpico: Fundamentos Básicos do Esporte, destinado a profissionais de Educação Física que desejam conhecer mais sobre esportes adaptados, e como incorporá-los em suas práticas pedagógicas.



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