Escola sem fronteiras: conheça o projeto GENTE, modelo de inovação na educação no Rio de Janeiro

16 de maio de 2016
Projeto GENTE, localizado na comunidade da Rocinha, é formado por um ginásio que abriga novas tecnologias educacionais.

Iniciativa derruba paredes para que o aluno se torne protagonista de sua aprendizagem.

Projeto GENTE, localizado na comunidade da Rocinha, é formado por um ginásio que abriga novas tecnologias educacionais.Maior comunidade do Brasil, a Rocinha ondula nos morros da Zona Sul carioca, expondo duros contrastes sociais. As questões territoriais sempre fizeram parte da formação da comunidade, de mais de 100 mil habitantes, e foi uma grande vitória quando um clube de classe média fronteiriço foi adquirido pela prefeitura e reestruturado para formar a Escola Municipal André Urani. Em 2013, o prédio começou a abrigar um projeto pioneiro de inovação na educação: o GENTE – Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais.

Funcionando para alunos dos últimos anos do Ensino Fundamental – 7º, 8º e 9º anos – o GENTE foi projetado pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, e dissolve fronteiras e limites educacionais para proporcionar aos seus 240 alunos um ensino que preze pela autonomia. Isso se evidencia pela arquitetura escolar: no modelo inicialmente idealizado para o GENTE, as aulas aconteceriam simultaneamente em um par de amplos salões sem divisórias e sem paredes com mesas arredondadas e bastante espaço para circulação e interações.

O modo como a escola foi construída influencia sua pedagogia, e isso é fundamental para que o processo inovador de educação se constitua. Não só as paredes foram extirpadas, como também os ideais tradicionais de turmas e disciplinas. “A ideia é que os alunos ficassem divididos em dois grandes salões, acompanhados pelos professores mentores, trabalhando em famílias, estimulando a colaboração e desenvolvimento de soluções coletivas para as dificuldades cotidianas”, explica Alexandre Rodrigues, gestor operacional do projeto.

Com a experiência vivida pelos mentores, sentiu-se a necessidade de um espaço menos amplo, onde cada professor pudesse desenvolver as atividades dentro de sua área de formação, inclusive na fixação de determinados conteúdos mais densos. Um dos salões foi então dividido em salas menores – os Laboratórios de Aprendizagem – onde os alunos são atendidos pelos mentores em grupos pequenos, ainda fora do modelo de seriação.

Para dividir os estudantes em grupos que atendessem suas expectativas e interesses, a escola conduz um processo de avaliação de cada um. São considerados não somente suas habilidades dentro de conteúdos tradicionais, como português ou matemática, como também por seus conhecimentos não-cognitivos (características da personalidade, por exemplo).

Feita essa avaliação, que continua servindo como guia durante todo o percurso estudantil, o aluno é encaminhado para uma “família”, time guiado por um professor mentor. “Percebemos que o diferencial do GENTE é que conhecemos os alunos pelo nome, buscando diálogo frequente com suas famílias e histórias, envolvendo a todos nesse processo. Dessa forma, toda a equipe tem o mesmo compromisso, descobrindo talentos e estimulando o crescimento e amadurecimento desse aluno e do seu projeto de vida”, detalha a professora Marcela Oliveira, diretora-geral da escola apoiada pela Fundação Telefônica Vivo e pelo Instituto Natura.

Como a autonomia é altamente encorajada entre os estudantes, para que eles possam desenvolver sua aprendizagem, o papel do professor também se transformou. Ao invés de ser responsável por um conteúdo único e fixo, ele também derruba as fronteiras que separam disciplinas. Para isso, ele atua como mentor, oferecendo orientação dentro da sua área de conhecimento, mas também expandindo-a para outras de forma colaborativa e interdisciplinar. Cada mentor é responsável por um time, composto por quatro famílias.

Os dispositivos móveis e a inovação tecnológica desempenham papel importante dentro de uma construção nova de saberes; cada aluno tem à sua disposição durante as atividades um notebook. Um bom exemplo de plataforma de estudos é a Geekie, apresentada oficialmente como a “única tecnologia de aprendizado personalizado certificada pelo MEC”. De acordo com Claudio Sassaki, cofundador e CEO da iniciativa, em entrevista ao Portal G1, trata-se de uma “plataforma que fala a língua do jovem”: as vídeoaulas e a interação com o conteúdo interativo pode acontecer de qualquer ponto de acesso.

Marcela garante que a tecnologia é facilitadora, mas que o conhecimento não está atrelado aos dispositivos, e sim, ao que eles podem oferecer como ferramenta. “Estamos interessados no quanto a tecnologia amplia o aspecto de inovação às possibilidades metodológicas de aquisição de conhecimento”.

Alexandre e Marcela reforçam o papel do GENTE como experiência laboratorial: os saberes construídos e desconstruídos podem servir como referência para iniciativas que também queiram inovar seus métodos e não saibam por onde começar. A inovação vai muito além de dispositivos eletrônicos ou das paredes inexistentes; ela faz parte de um processo de transformação radical da escola, onde o acolhimento, o respeito e a disposição de conhecer a fundo seus alunos tornam a aprendizagem personalizada.



12 comentários sobre “Escola sem fronteiras: conheça o projeto GENTE, modelo de inovação na educação no Rio de Janeiro”

  1. ELANE VILELA DA SILVA STOCCO disse:

    O projeto é muito interessante, inovações, como exemplo em Portugal de Jose Pacheco, se cada aluno aluno tem um notebook e plataforma própria para estudar e professores como tutores ou mediadores, dará certo. A PMSP tem escolas com este mesmo formato e é muito bom, deu certo, com roteiros de conteudos de todas as disciplinas e professores como tutores. o que precisamos em nossas escolas que não tem estes projetos é desta tecnologias e formação adequados para nossos professores. estou gostando muito desta formação do Estado de SP.

    1. aprendiz disse:

      Olá cara leitora! Obrigada pelo seu comentário. Abraços!!

    2. Na qualidade de professor do ensino oficial de Portugal e de nacionalidade brasileira, gostaria de estabelecer um canal de comunicação com esta escola da Rocinha, sobre à qual, já tive a oportunidade de tomar conhecimento e de partilhar vídeos com alunos portugueses, bem como, de constatar o pouco conhecimento ou do desconhecimento da existência da famosa Escola da Ponte, de Vila das aves (região da cidade do Porto), pelos próprios professores portugueses. Já há mais de quinze anos, meus alunos e eu, substituímos o suporte papel pelo digital, na nossa prática pedagógica, sendo tudo ou quase tudo, desenvolvido pela internet, e pelos próprios alunos, que se tornaram os protagonistas da sua própria aprendizagem. Abaixo, deixo o link de um site simples que criamos, alunos e eu, em colaboração. Espero que gostem e que entrem em contacto.

      1. aprendiz disse:

        Olá, caro Leonardo!
        Agradecemos o interesse em nosso projeto Inova Escola, que apoia 6 escolas no Brasil incluindo a André Urani (GENTE), e ficamos felizes em saber que utiliza a tecnologia como ferramenta de ensino-aprendizagem com os estudantes. Encaminhamos seu pedido de contato à equipe responsável. Para saber mais sobre esse projeto, e também outros que apoiamos, indicamos os links das publicações Inova Escola ( e Viagem a Escola do Séc XXI ( Você pode fazer os downloads gratuitamente de cada publicação.

        Obrigada pelo contato, e continue nos acompanhando!
        Forte abraço

        1. Obrigado. Vou explorar o conteúdo destes projetos e fazer o download, com certeza.

    3. Olá, Elane. Gostaria de esclarecer que, embora já desenvolva esta metodologia em Portugal, não significa que esta seja uma prática comum e que todo o corpo docente esteja preparado para implementar estas mudanças nas suas práticas pedagógicas. Pelo contrário. Assim como aí no Brasil, o baixo nível de literacia digital dos professores, a falta de recursos, sejam eles informáticos, tecnológicos ou econômicos, é grande, bem como, a baixa motivação para mudar de uma fatia considerável dos professores. Sem querer super valorizar o que faço, mas acredite: faço parte de uma pequeníssima fatia dos docentes portugueses que procuram mudar algo no seu trabalho docente. em especial, com a inclusão das TIC em sala de aula, embora existam, de forma pontual, projetos fantásticos a nível nacional. A começar pela incongruência entre os objetivos (teoria) do Ministério da Educação e a realidade, aquilo que nos cobram na prática: uma infinidade de papéis, agora, também documentos digitais, na sua grande maioria, inúteis e desnecessários.
      Portanto, tanto aí, como aqui. é bom que essas mudanças aconteçam, e rápido, pois “a caravana anda”, e se os professores não a acompanharem, ficarão para trás. E ficar para trás, é parar no tempo. E parar no tempo significa ‘tornar-se desnecessário, obsoleto’. E tornar-se desnecessário e obsoleto leva ao seu desaparecimento, a sua extinção, como profissão.

      1. aprendiz disse:

        Olá, caro leitor
        Obrigada pelo comentário

        abraços

  2. Flávia disse:

    Estou aprendendo mais sobre as metodologias ativas, inclusive gostaria de assistir à aulas online sobre o tema na prática, pois estou participando de um processo seletivo numa escola com esta linha de trabalho. Agradeço quem puder me orientar. Professora, Flávia.

    1. aprendiz disse:

      Olá, cara leitora!
      Obrigada pelo comentário! Continue nos acompanhando e conheça mais sobre o nosso projeto Inova Escola que apoia, entre outras, a EMEF Desembargador Amorim Lima e Presidente Campos Salles, em São Paulo e os cursos online e gratuitos da plataforma Escolas Conectadas https://www.scolartic.com/pt/web/escolas-conectadas/cursos1
      Abraços

  3. mirian disse:

    Gostaria de saber mais sobre esse novo modelo esducacional.

    1. mirian disse:

      *educacional

    2. aprendiz disse:

      Olá, cara leitora!
      Obrigada pelo comentário! Continue nos acompanhando e conheça mais sobre o nosso projeto Inova Escola que apoia, entre outras, a EM André Urani/GENTE, no Rio de Janeiro.
      Abraços

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