Feira Preta: 17 anos olhando para o afro-empreendedorismo

23 de julho de 2018

Em entrevista, a fundadora Adriana Barbosa fala sobre o evento que recebe e incentiva empreendedores e artistas negros, a mudança do público ao longo do tempo e as novas necessidades dos jovens

Foto mostra diversos itens como colares e lenços coloridos em uma bancada da Feira Preta, evento que recebe e incentiva empreendedores negros em São Paulo

Adriana Barbosa, 40 anos, começou a empreender por necessidade. Em uma situação de desemprego, passou a vender suas próprias roupas. A experiência a fez observar que, apesar de negros produzirem e consumirem, muitas vezes não eram eles quem obtinham os recursos.

Com a intenção de incentivar e mapear o afro-empreendedorismo, em 2002, foi criada a Feira Preta, em São Paulo, espaço que hoje recebe empreendedores e artistas negros, proporcionando um debate a respeito de oportunidades e racismo.

Ao longo dos 17 anos de trabalho, Adriana acompanhou a evolução do afro-empreendedorismo. “Ainda há a necessidade do empreendedorismo pela escassez de recursos, mas muita gente está empreendendo também pelas oportunidades de mercado”, diz.

“O nosso público mudou, porque a minha geração foi uma geração que se tornou negra. Passou por um processo de negação, até se reconhecer. Essa geração de jovens de 17 anos já vem preta e com outras demandas”, completa.

Confira a seguir a entrevista completa com Adriana Barbosa a respeito dessa trajetória:

 

Como você começou a empreender?

Adriana Barbosa: Em 2002, eu vinha de uma situação de desemprego, estava fora do mercado de trabalho formal e não conseguia retornar. Eu e uma amiga na mesma situação resolvemos empreender para sobreviver e conseguir dinheiro para comer e procurar trabalho.

Nós formamos uma dupla do que chamamos de “sevirologia”, que é a arte de “se virar”. Começamos a circular por feiras. Minha amiga vendia pastel, que a mãe dela fazia, e eu vendia as minhas roupas, em um brechó de troca.

Em uma dessas feiras, houve um arrastão e perdemos parte da nossa mercadoria. Foi aí que decidimos não ficar mais no esquema da “sevirologia” e montar algo mais estruturado. Na época, a Vila Madalena fervia de casas de black music e nós éramos frequentadoras.

Observamos o deslocamento de jovens negros de regiões periféricas para a região da Vila Madalena para o consumo e também para a produção, como DJs, bandas e técnicos de som. Era toda uma cadeia de produção e consumo negros.

O que me deixava incomodada era perceber que, no fim da noite, quem colocava a mão no dinheiro eram os homens brancos. A gente produzia e consumia, mas não tinha apropriação. Foi assim que decidimos criar a Feira Preta.

 

Foto mostra Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, usando terno e sorrindo

 

O que é a Feira Preta?

A Feira Preta surgiu em 2002, na praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A ideia era justamente fazer o mapeamento do afro-empreendedorismo. Depois de todo o nosso percurso em feiras, decidimos fazer a nossa própria.

Conseguimos um patrocínio e uma parceria com a Prefeitura, para estruturar minimamente o evento. No primeiro ano, atraímos 5.000 pessoas. Fizemos a divulgação pela distribuição de filipetas, como acontecia nos bailes black da década de 70.

No segundo ano, houve um abaixo assinado para sairmos da praça. Nos mobilizamos e recolhemos assinaturas, mas não conseguimos ficar. Depois disso, a feira começou a peregrinar por vários espaços até chegar ao Anhembi, em 2006.

Em 2016, nós quebramos e no ano seguinte nos remodelamos em formato de festival, atraindo diversas expressões culturais. No final das contas, a Feira é um espaço para visibilizar potências e ressignificar o olhar para a população negra. Treze décadas após a abolição da escravidão, o que fez a população negra emergir foi o empreendedorismo.

 

Os negros são, inclusive, a maioria no empreendedorismo. Tudo começou por necessidade. Como você avalia isso hoje em dia?

Segundo dados do Sebrae, mais de 50% dos empreendedores são negros. Muitos empreendem na lógica da “sevirologia”, mas o que tem acontecido é que a nova geração também vislumbra uma oportunidade de negócio. Acho que estamos em um momento de sair da resistência para a oportunidade.

Eu olho para os jovens negros e vejo que eles estão buscando criar soluções para eles mesmos, em iniciativas como Clube da Preta e Conta Black. O que vou criar para a necessidade desse público? Ainda há a necessidade do empreendedorismo pela escassez de recursos, mas muita gente está empreendendo também pelas oportunidades de mercado.

 

Com todas essas mudanças de gerações, como você enxerga o futuro da Feira Preta?

Nós completamos 17 anos e há dois estamos fazendo uma avaliação do que queremos para os próximos 15 anos. O nosso público mudou, porque a minha geração foi uma geração que se tornou negra. Passou por um processo de negação, até se reconhecer.

Essa geração de jovens de 17 anos já vem preta e com outras demandas. Como se preparar para ela? Não sei se chegamos ao modelo ideal, mas estamos experimentando, uma vez que grande parte do nosso público é formado por jovens.

 

Vocês também dialogam com os brancos?

Olhamos muito para isso. O fato de chamar Feira Preta não significa que é só para os negros. A cultura afro-brasileira faz parte da identidade cultural do país, de todo mundo. Para a gente não é legal falar somente com os negros e produzir para nós mesmos.

Uma vez um artista disse na feira: “Muito bem, muito lindo, mas quero só ver vocês usarem esses cabelos e roupas coloridas fora da Feira Preta.” O ambiente da Feira Preta protege, mas e fora? Precisamos falar sobre racismo.

A diversidade é uma via de mão dupla, entre negros e não negros. Como podemos inclui-los no debate? Temos de olhar para isso.

A próxima edição do festival Feira Preta será nos dias 19 e 20 de novembro, na Praça das Artes em São Paulo. É possível acompanhar outros eventos pela página Feira Cultura Preta, no Facebook.

 

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