Felicidade é o segredo para formar uma geração mais inovadora e bem-sucedida

06 de fevereiro de 2020

Segundo o psicólogo israelense Tal Ben-Shahar, escolas, universidades e empresas do futuro precisam levar a felicidade a sério


O que é felicidade? As respostas para essa simples pergunta variam de pessoa para pessoa e podem se transformar ao longo da vida. De maneira geral, ela se relaciona com equilíbrio entre bem-estar físico, psíquico e espiritual e com propósito de vida.

Mais do que trazer qualidade de vida, a felicidade pode ser determinante para uma sociedade mais inovadora e bem-sucedida. É o que defende o psicólogo israelense Tal Ben-Shahar, doutor em Psicologia e Filosofia pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e fundador da Happiness Studies Academy, que reúne profissionais de diferentes vertentes dedicados ao estudo da felicidade.

A Academia adota uma abordagem interdisciplinar para definir e abordar o tema da felicidade como uma experiência integral na vida do ser humano, reunindo cinco elementos essenciais: espiritual, físico, intelectual, relacional e emocional.

Durante o último enlightED, evento organizado pela Fundação Telefônica Espanha, pela IE University e pelo South Summit, para discutir o futuro da educação, Bem-Shahar enfatizou que é necessário focar nas relações reais, pois o contato com as outras pessoas é a chave para sermos muito mais felizes, e reforçou ainda que o equilíbrio e o bem-estar também tem a ver com uso saudável da tecnologia.

“Um dos maiores indicadores da felicidade é a qualidade das relações que temos com os outros. Relações reais, não virtuais. Nós estamos conectados o tempo todo com a tecnologia, mas também temos que estabelecer limites e aprender a nos desconectar.”

Segundo o psicólogo, a pausa do mundo virtual ajuda a lidar com a ansiedade e com o estresse do dia a dia. Ele acredita que precisamos ter períodos durante o dia em que simplesmente desligamos. “Não há problema em trabalhar duro. Não há problema em ser multitarefa. Mas também é importante ouvir o chamado da serenidade durante o dia”, complementa.

Em entrevista ao programa Roda Viva, o historiador brasileiro Leandro Karnal alerta que a felicidade é um exercício, não uma meta. “Não devemos pensar nela como uma zona de chegada, um lugar alcançável. Ela tem patamares e horizontes que mudam dependendo do contexto”, explicou Karnal, que, em 2019, lançou o livro Felicidade: modos de usar junto com os filósofos Mario Sergio Cortella e Luiz Felipe Pondé, que também estavam presentes no Roda Viva.

No campo profissional, aprender a encontrar mais significado no que fazemos, buscar as áreas que realmente fazem a diferença e focar nelas com mais frequência é um dos caminhos para a felicidade, de acordo com o especialista. “Se tivermos mais tempo para a recuperação durante um dia de trabalho e formos capazes de estabelecer relacionamentos melhores e mais próximos com nossos colegas, seremos mais felizes no local de trabalho”.

Tal Ben-Shahar defende ainda que a discussão sobre felicidade deve sair da academia e dos livros de autoajuda e chegar a todos nós, desde a escola. Isso porque o aumento nos níveis de felicidade e bem-estar favorece a criatividade, a inovação, a motivação e o trabalho em equipe. “Em outras palavras, a felicidade é um bom investimento”, diz.

“As habilidades que precisamos ensinar tanto aos estudantes quanto aos trabalhadores de hoje é a capacidade de lidar com a mudança, de ser criativo, inovador, aprender coisas novas o tempo todo, trabalhar juntos e aprender uns com os outros. Isso tudo está relacionado à felicidade”, afirma Tal Ben-Shahar.

 

Um novo olhar para o ser humano

Os estudos sobre a felicidade se intensificaram na década de 90, quando o então presidente da Associação Americana de Psicologia, Martin Seligman, começou um movimento para que a psicologia mudasse o viés de tratamento para as pessoas. Ou seja, deixasse de focar apenas nos problemas e transtornos, tendência que se acentuou com os traumas causados pela II Guerra Mundial.

Surgia assim a chamada Psicologia Positiva. “É um movimento científico que traz um novo paradigma, já que propõe que a gente estude não só a depressão e os transtornos de ansiedade, por exemplo, mas também o lado positivo da vida para que possamos desenvolver talentos, inteligências, qualidades e virtudes”, define Renata Livramento, presidente do Instituto Brasileiro de Psicologia Positiva.

No podcast Psicocast, a psicóloga destaca que a Psicologia Positiva já nasce como um movimento multidisciplinar que olha para as potencialidades humanas e almeja a qualidade de vida e o desenvolvimento pleno dos seres humanos.

Apesar de ser um tema muito novo ainda, o movimento começa a ser olhado com mais atenção por educadores do mundo todo. Isso porque ele propõe uma educação que ajude o estudante a trabalhar seus talentos e usá-los a serviço da felicidade e do bem-estar individual e coletivo.

 

Educação socioemocional

No Brasil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz empatia, autoconhecimento e autocuidado como competências essenciais para o desenvolvimento integral dos estudantes na educação básica.

Estudos e práticas em sala de aula estão mostrando que estreitar laços e promover a afetividade são grandes segredos para melhorar os índices de ensino-aprendizagem dos estudantes.

“Quase todos os alunos têm um professor inesquecível. E provavelmente é por ele ter olhado para o aluno, perguntado como ele se sentia e acreditado no seu potencial, quando ninguém mais fazia isso. A afetividade funciona como uma cola que conecta a todos”, defende Tonia Casarin, professora, coach e especialista em competências socioemocionais.

Dicas para aumentar a felicidade no dia a dia

Crie uma pasta de emoções positivas em seu computador, com vídeos, músicas, textos e fotos favoritas. Acesse sempre que precisar de um ânimo;

– Meditação é uma ótima maneira de lidar com sentimentos ruins. Alguns aplicativos e vídeos no Youtube promovem a meditação guiada para quem ainda não consegue fazer por conta própria;

– Que tal começar a anotar os momentos do seu dia que te deixam felizes? Isso vai te tornar mais consciente sobre suas emoções e o que as movimenta;

– Desconecte-se do mundo virtual e viva mais os momentos reais.



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