Fórum Brasileiro de Filantropia traz a tecnologia como aliada

18 de setembro de 2018

Investidores sociais se reuniram em São Paulo para debater sobre riscos e oportunidades provocados por inteligência artificial e machine learning. Saiba como foi o debate

Imagem mostra banner do Fórum Brasileiro de Filantropia, que debateu oportunidades e riscos da inteligência artificial

Na última quarta-feira (12), filantropos e investidores sociais do Brasil e do mundo participaram do Fórum Brasileiro de Filantropia e Investidores Sociais 2018, organizado pelo Instituto para o Desenvolvimento Social (Idis) com o apoio da Fundação Telefônica Vivo. O evento mostrou como a tecnologia pode contribuir para diminuir ou aumentar desigualdades e impacto social.
Entre as oportunidades trazidas pelo avanço tecnológico estão o uso da inteligência artificial para aumentar eficiência e democratização de serviços e plataformas que ampliam a aprendizagem, aplicativos facilitadores da disseminação de informação e o surgimento de sistemas cada vez mais inovadores com a participação da sociedade civil.

Por outro lado, os avanços evidenciam o grande contingente de excluídos digitais e tornam ainda mais necessário o debate sobre a proteção de dados e da liberdade de pensamento na era das mídias sociais e seus algoritmos.

 

Imagem mostra Paula Fabiani, diretora-presidente do Idis, no palco do evento Fórum Brasileiro de Filantropia
“A tecnologia vai trazer mais soluções do que problemas, mas nós temos que trabalhar para mitigar aspectos negativos. Afinal, estamos todos juntos em busca de um mundo onde cada um faz sua parte”, anunciou, na abertura do evento, Paula Fabiani, diretora-presidente do Idis.

 

Cerca de 200 filantropos e investidores circularam pelo Fórum Brasileiro de Filantropia, incluindo referências internacionais, como o economista Michael Green, autor de um dos principais livros da filantropia moderna (Philanthrocapitalism) e um dos 50 nomes do investimento social da atualidade. Durante sua apresentação, ele repetiu as ideias de sua palestra TED 2014 – considerada uma das melhores de todas da plataforma (veja abaixo) – que propõe uma maneira diferente de medir o desenvolvimento dos países, focando em questões socioambientais em vez de Produto Interno Bruto (PIB).

O inglês Rhodri Davies, líder do Giving Thought, Charities Aid Foundation (CAF), do Reino Unido, palestrou sobre o recurso mais valioso da humanidade, segundo ele, os dados. “A tecnologia está tão acelerada que não é mais questão de falar se devemos ou não acompanhá-la, mas de que maneira faremos isso. Entendo que existem três importantes formas de usá-la para impacto social: inovar para alcançar um objetivo, mudar a forma como as organizações operam e encontrar novos desafios para resolver”.

Em entrevista à Fundação Telefônica Vivo, ele se diz surpreso com a falta de confiança em filantropia no Brasil. “Num país com extrema pobreza e desigualdade social, é curioso ver que é também um dos países onde há menos confiança e onde os doadores mantém suas ações no anonimato. É muito diferente do Reino Unido”, compara.

 

 

Homens e máquinas: uma nova relação

No painel Inteligência artificial e filantropia: dá match?, mediado por Americo Mattar, diretor-presidente da Fundação Telefônica Vivo, especialistas ressaltaram que a tecnologia está a favor dos seres humanos, e não o contrário. “O lado humano é a base do processo de integração tecnológica. Nós da Fundação a usamos a serviço da inovação educativa, do empreendedorismo social e do voluntariado”.

O palestrante Alexandre Dietrich, líder do programa de inteligência artificial Watson para América Latina na IBM, desmistifica a ideia de que a tecnologia acaba com as profissões. “Quando ela torna uma etapa mais barata, acaba criando valor na etapa seguinte. Como exemplo, temos o surgimento de roteiristas de interações por Bots – ou robôs da Internet”. Para ele, é o momento de vislumbrar uma nova parceria entre homens e máquinas: “Elas estão se tornando melhores em dar respostas e nós temos que ficar cada vez melhores em fazer as perguntas corretas. Não é uma inteligência artificial, é uma inteligência aumentada”.

Também participaram do painel José Alfredo Nahas, da ONG Parceiros Voluntários, e Jake Garcia, do Foundation Center, empresa americana que usa dados a serviço da filantropia e do impacto social. A companhia analisa artigos diários publicados sobre o assunto para definir um panorama global do financiamento, promover parcerias entre financiadores e ONGs e levantar as necessidades de regiões carentes. Ele alerta: “temos menos dados das fundações brasileiras do que do resto do mundo”.

 

Um olhar sobre os direitos humanos

A discussão sobre direitos humanos também esteve presente no Fórum Brasileiro de Filantropia. No bate-papo Tecnologia às vezes um campo minado, Joshua Franco, diretor da Anistia Internacional, pontuou que a tecnologia está sendo usada para o bem e para o mal, por isso a importância da recém-assinada Declaração de Toronto, uma coalização formada por grupos ativistas e empresas de tecnologia para fiscalizar e impedir que os avanços da inteligência artificial viole os direitos humanos.

Graciela Selaimen, ativista de governança da internet e responsável pelo programa de mídia da Fundação Ford, acrescenta à discussão: “Nosso desafio é garantir o fortalecimento da diversidade também na construção da tecnologia, não apenas no uso. É fundamental o empoderamento de mulheres negras do hemisfério sul”.

 

A cultura do bem

Palestrante inglês Rhodri Davies no palco do Fórum Brasileiro de Filantropia discursa para plateia.

O Fórum Brasileiro de Filantropia trouxe também os depoimentos inspiradores dos empreendedores sociais vencedores do Prêmio Empreendedor Social Folha 2017. Valdeci Ferreira falou sobre o seu trabalho à frente da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, de prisões humanizadas.Ralf Toenjes, fundador e CEO da Renovatio, comoveu a plateia ao contar como a sua empresa levou mais de 30 mil óculos para brasileiros que sequer vislumbravam a possibilidade de ver um mundo sem miopia.

E para quem pensa que ajudar ao próximo é coisa de filantropos, o Idis trouxe uma realidade desconhecida da maioria dos brasileiros. De acordo com a Pesquisa Doação Brasil, o brasileiro tem comportamento doador, mas a maioria acredita que não deve comentar sobre isso com família e colegas. “O problema é que quando não falamos sobre o bem que promovemos, não damos o exemplo”, defende Paula Fabiani, diretora-presidente do Instituto.

Para fortalecer o comportamento doador, o Idis está lançando a campanha Se Liga. “Todos nós temos uma causa. Todo mundo quer mudar alguma coisa na sociedade. A ideia é a gente tentar puxar o brasileiro para essa reflexão e transformá-la em ação, seja via doação, seja via participação voluntária ou até mesmo pleito ao governo”, diz Paula.

 

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