Inclusão: site traz informações sobre coronavírus para pessoas com deficiência visual

30 de abril de 2020

Desenvolvido por um empreendedor social, o Guia pra Todos Verem traz conteúdo de qualidade de forma acessível


Durante os dias de isolamento social, a internet é uma aliada valiosa, seja para continuar trabalhando, manter-se informado ou até mesmo buscar alternativas de entretenimento. Mas grande parte do conteúdo da rede nem sempre está disponível para pessoas com deficiência visual.

Pensando em tornar acessível algumas informações sobre a pandemia causada pelo coronavírus, o empreendedor social curitibano João Pedro Novochadlo criou o site Guia pra Todos Verem, que centraliza conteúdo sobre a Covid-19 a partir de diretrizes de acessibilidade na web para pessoas com deficiência visual.

Além de informações específicas sobre sintomas e cuidados com a Covid-19, o site também traz as notícias mais relevantes e atualizadas sobre o tema, detalhes sobre o auxílio emergencial do Governo Federal e diversos conteúdos para entretenimento, como audiolivros, filmes com audiodescrição e playlists de música para animar a vida em quarentena.

“É uma plataforma web bem completa, que pode ser acessada pelo celular sem a necessidade de um aplicativo”, afirma João, que criou o site de forma voluntária com a ajuda do amigo Mateus Silva, em um final de semana.

“O site foi lançado em 30 de março e em menos de um mês já tínhamos 11 mil usuários e mais de 100 mil visualizações. Os feedbacks que recebo mostram que estamos chegando para quem precisa e no Brasil inteiro”, relata João.

 

Acessibilidade escassa

Não é possível afirmar com precisão a prevalência de deficiência visual no Brasil, mas o IBGE estima que o número ultrapasse os 6,5 milhões de pessoas, entre cegos e com baixa visão. Para essa população, o acesso à internet depende de conteúdo com diretrizes específicas de acessibilidade, além de softwares e equipamentos que ajudam a decifrar o que está na rede.

O problema é que a acessibilidade é ainda escassa, fazendo com que, muitas vezes, parte desse grupo que consegue acessar a internet obtenha informações de fontes limitadas, não consiga interagir com dispositivos do teclado, distinguir links ou compreender estrutura de textos e documentos.

“Produzir conteúdo acessível não deveria ser uma opção, e sim uma obrigação. Enquanto não existir uma lei específica para isso no Brasil, ainda ficamos na base do convencimento, infelizmente. Eu penso que se a gente percebe um problema e não faz nada, no fundo os verdadeiros cegos somos nós”, acredita João.

 

O caminho para a inclusão

O empreendedor social já trabalha com inclusão de pessoas com deficiência visual há algum tempo. É um dos fundadores da startup Veever, responsável por um aplicativo gratuito que combina microlocalização e audiodescrição para facilitar a locomoção e a interação em diversos ambientes.

O aplicativo ganhou notoriedade no ano passado, quando foi utilizado no Rock in Rio para deixar o evento mais acessível. A solução tecnológica é também usada de forma pioneira no Aeroporto Municipal Tancredo Thomas de Faria, em Guarapuava, interior do Paraná.

“Quando chegou a crise do coronavírus, nós desativamos o aplicativo para desestimular as pessoas a saírem de casa. Em conversa com alguns de nossos usuários, perguntei como eles estavam levando a crise e muitos me responderam que não sabiam direito o que estavam acontecendo, já que não conseguiam acessar muitas informações na internet”, relembra o empreendedor.

Ele e o amigo Mateus, então, se engajaram na programação de robôs inteligentes que captam o conteúdo da internet de fontes confiáveis, como Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde, e dos grandes portais dos veículos de informação.

“Os robôs automatizados percorrem a internet e centralizam as informações em um banco de dados nosso, mas a curadoria final sou eu que faço. Manualmente faço um pente fino no conteúdo para a plataforma”, informa João.

Recentemente, o Guia pra Todos Verem fez uma parceria com médicos do Hospital São Paulo para construir um sistema de pré-orientação, como uma espécie de triagem, para que pessoas com deficiência visual possam tirar dúvidas mais específicas sobre sintomas da Covid-19.

“A inteligência artificial vem para ajudar. Eu sempre falo que a tecnologia é o caminho para a inclusão, mas os pés que percorrem esse caminho são os nossos. Ou seja, a real inclusão quem faz são as pessoas”, finaliza.



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