Indígenas criam enciclopédia de plantas medicinais para novas gerações

18 de abril de 2019

Tribo que está no Brasil e no Peru criou enciclopédia sobre propriedades medicinais de plantas para repassar conhecimento aos mais novos


A morte de um importante líder dos Matsés, indígenas que vivem na Amazônia, entre o Peru e o Brasil, foi o sinal de alerta para um problema que, infelizmente, faz parte da história de várias tribos: o desaparecimento de todo o conhecimento que as populações das florestas produziram ao longo de milênios.

O xamã morreu sem passar os seus ensinamentos aos mais novos. Para impedir que informações preciosas se perdessem no tempo, o grupo indígena, com auxílio da ONG Acaté, criou uma das primeiras enciclopédias no mundo que consolida o conhecimento dos xamãs da tribo para mantê-lo vivos às próximas gerações.

A Enciclopédia Matsés de Medicina Tradicional reúne mais de 500 páginas que falam sobre doenças, procedimentos e plantas da floresta amazônica que fazem parte da cultura da tribo desde sempre.

A partir dos relatos orais de um grupo de cinco xamãs, jovens matsés passaram a escrever práticas, fotografar as plantas e consolidar e categorizar o conhecimento tradicional, tudo em sua língua tradicional para coibir a biopirataria ou a exploração por parte de terceiros.

 

Extinção e resistência

Os Matsés são estimados em cerca de 2 mil pessoas que vivem, na bacia do rio Javari na Amazônia. Os primeiros contatos com não-indígenas ocorreram, segundo o Instituto Socioambiental, no ciclo da borracha, entre 1870 e 1920. Posteriormente, a atividade madeireira e o comércio de carnes e peles de animais também forçaram a convivência com os Matsés.

Ao contrário dos mais jovens, durante essas intervenções os mais velhos não se submeteram às influências externas e mantiveram a sua cultura.

 

Mapa mostra parte da América Latina e marca região entre Brasil e Peru, onde se localizam indígenas do povo Matsés, que criou enciclopédia sobre plantas medicinais.

“A influência externa acabou levando muitos dos Matsés mais novos a perder o interesse e até sentir vergonha de sua cultura”, disse Christopher Herndon, presidente e cofundador do Acaté, ao site Motherboard.

O desinteresse inicial dos mais jovens em relação à documentação do conhecimento da tribo mudou após encontros nos quais os mais velhos puderam mostrar o legado de luta e a importância de manter vivos seus ensinamentos.

Herndon afirmou ao Mongabay que o destino e a cultura dos povos indígenas estão ligados ao futuro de onde habitam. “Protegendo suas florestas e fortalecendo sua cultura, estamos protegendo a saúde deles de um futuro destruído por diabetes, má nutrição, depressão e alcoolismo”.

Segundo ele, a enciclopédia é um primeiro passo para criar uma ponte entre gerações, antes que seja tarde. “A iniciativa renova o respeito pela sabedoria dos mais velhos e faz a floresta voltar a ser um lugar de cura e aprendizado”.

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Saberes da floresta também na escola

Unir o conhecimento de buscar a cura de doenças na floresta com a produção científica da escola é um dos objetivos do curso de Plantas Medicinais, oferecido pela plataforma Escolas Conectadas, da Fundação Telefônica Vivo.

Online, com certificação pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e carga horária de 15 horas, a formação explora a diversidade de plantas medicinais e especiarias encontradas em todo o território nacional, orienta sobre manejo adequado e mostrar formas de abordar o tema em sala de aula.

A próxima turma começa as aulas em 06 de maio!

Outros projetos também constroem uma ponte entre a tradição indígena e o conteúdo escolar. No caso da Escola Indígena Puranga Pisasú, em Manaus (AM), a professora Luciana Pascoal Araújo refletiu sobre como usar o conhecimento do povo indígena Baré de Nova Esperança, do qual faz parte, na educação.

Inspirada por uma formação do projeto Aula Digital, ela teve a ideia de juntar objetos usados na Casa de Farinha, importante espaço frequentado pelo grupo, para ensinar formas geométricas e unidades de medida.

A ligação do conteúdo com a cultura local valorizou e revitalizou os conhecimentos tradicionais do povo indígena. “Consegui inserir a matéria no contexto dos alunos, pois a verdade é que eles já sabem medir e nem percebem”, disse. Segundo Luciana, os resultados no aprendizado dos alunos melhoraram após a iniciativa.



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