Jogo de tabuleiro ensina sobre a história de São Paulo

27 de setembro de 2019

De forma lúdica,o jogo Passeando Pelas Ruas permite ensinar sobre fatos históricos da cidade de São Paulo, além de reflexões sobre cidadania, diversidade e temas sociais.


O processo de ensino e aprendizagem pode ser complementado por jogos que desenvolvem habilidades cognitivas e emocionais, contribuindo para que o conteúdo pedagógico seja assimilado de forma mais natural pelos alunos. Um exemplo é o jogo Passeando Pelas Ruas, criado por um coletivo de mesmo nome para contar a história da cidade de São Paulo de forma lúdica, participativa e divertida.

Criado em 2014, o coletivo é integrado pelo professor de história Philippe Reis, pela historiadora Renata Geraissati, e pela pedagoga Paloma Reis, e promove passeios gratuitos toda semana para diferentes pontos da capital paulista, saindo de São Miguel Paulista, na zona leste.

No jogo de tabuleiro, que pode ser jogado por crianças, jovens e adultos, existem cinco caminhos para as diferentes zonas da cidade, cada uma com um prédio histórico que a representa em forma de pino: Sítio Morrinhos (zona Norte); Museu do Ipiranga (Sul); Capela de São Miguel (Leste); Memorial da América Latina (Oeste), e Edifício Martinelli (Centro). Os pinos avançam conforme o jogador acerta perguntas sobre uma personalidade, um patrimônio, um logradouro ou um tipo de entretenimento da cidade. São 240 cartelas com perguntas e quem chegar primeiro à sua área de origem, vence.

Para Philippe, aprender sobre a história da cidade permite criar “a ideia de identidade e apropriação do espaço no qual se vive. Ao conhecer o nosso bairro e outras regiões com as quais possuímos vínculos, como o local de estudo ou trabalho, é possível desenvolver nossa intelectualidade, cidadania, exercício de democracia e outros valores”.

É possível discutir muitos temas a partir da história de uma cidade como São Paulo, explica o professor. “O jogo traz para discussão a ideia de que a cidade é plural, diversa e que não somos centrados no bairro em que vivemos. É importante entender que a cidade tem uma complexidade, que possui espaços diversos. Mostrar questões sobre essas diferenças também é uma forma de conhecer a cidade”, afirma.

 

O jogo nas escolas

O Passeando Pelas Ruas produziu até o momento, com fomento da prefeitura, 100 unidades que seriam distribuídas gratuitamente para escolas públicas. A primeira que recebeu o jogo foi a E.M.E.F. Virgílio de Mello Franco, no Jardim Helena, zona leste, após a formação de cerca de 50 professores. O projeto lançará um financiamento coletivo para chegar a outras instituições.

Segundo Philippe, a aceitação na Virgílio de Mello Franco foi excelente tanto para quem já participou dos passeios promovidos pelo coletivo como para quem nunca fez parte deles.

“O jogo traz o lúdico para todos. Cada dica presente nas cartas traz uma história que o aluno pode pesquisar”, diz. Além disso, é uma ótima maneira de complementar o ensino e a aprendizagem, se tornando uma ferramenta que auxilia educadores.“Existem várias possibilidades para adaptar o material à realidade do aluno e, dessa forma, pensar em discussões que se relacionem com temas educacionais e sociais”, afirma o professor.

Foto mostra caixa do Passeando pelas Ruas e os pinos usados para jogar

 

Diversidade histórica

Além de História e Geografia, outros temas permeiam o jogo, como a descentralização da história de uma cidade. “A ideia é mostrar que o espaço no qual uma pessoa vive também tem história. Existe uma naturalização de que apenas alguns lugares são históricos, como o centro da cidade e arredores. Essa ‘consagração’ acaba por deixar de lado outros bairros, como se eles não tivessem a sua própria história. O jogo traz a ideia de que existe uma diversidade na cidade que precisamos conhecer”, exemplifica Phelippe.

Outros assuntos também podem ser abordados a partir do jogo, como direito à cidade, gentrificação, participação social, imigração, construção da memória, racismo e machismo. “Uma dificuldade que tivemos quando estávamos selecionando os logradouros que estariam no jogo foi perceber como poucos deles têm nomes de mulheres, assim como de pessoas negras. Essas e outras questões podem ser discutidas”, diz Phelippe Reis.

Para ensinar História e temas relacionados, que podem ser debatidos a partir do jogo de tabuleiro, é fundamental considerar as pessoas e a influência do tempo, segundo o professor. “A História como construção de conhecimento é aperfeiçoada ao longo do tempo. Gosto de comparar a uma casa, que está sempre em processo de transformação. É assim que a História caminha, você a constrói de acordo com as perguntas que faz ao passado”, analisa. “Além disso, a História sem pessoas não é História. Não é só o prédio ou a rua, tem que ter gente ali. Se não tem gente, não tem História”, finaliza.



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