Manter o foco nos benefícios para o aluno propicia relação entre família e escola

04 de agosto de 2016

Conheça algumas iniciativas que superam desafios da relação, como insegurança dos pais diante do currículo e dificuldade da escola em buscar os dispositivos adequados.

Já dizem os princípios da educação integral, inspirados no provérbio de origem africana: para criar uma criança é preciso toda a comunidade envolvida. E, no lugar de transferir a responsabilidade de uma esfera para outra – escola se queixando da falta de envolvimento da família e pais alegando não encontrar espaços de participação – a inovação educativa está principalmente na articulação e na elaboração compartilhada de uma proposta de educação e desenvolvimento.

Como observou o Centro de Referências em Educação Integral, a participação familiar da educação vai além de garantir o acompanhamento de tarefas no ambiente doméstico, como pode ter sido antigamente. É antes o caso de colaborar no planejamento, na gestão e nas práticas pedagógicas da escola que, por sua vez, precisa criar espaços e canais que viabilizem essa participação.

Segundo reportagem do Porvir, muitas vezes a participação da família fica restrita a ações pontuais tanto por uma questão de ausência de diálogo como de uma cultura de participação. Para Kezia Santos, coordenadora geral do CRECE (Conselho dos Representantes dos Conselhos de Escola do Estado de São Paulo), diretores e professores precisam entender que a presença da família na escola não é uma ameaça ou intromissão.

A diferença, como colocou a diretora executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, está na percepção de que esta parceria pode trazer resultados para o aluno, ainda que seja uma tarefa a mais para a escola – “até que elas percebam que com a parceria da família vão ter o seu trabalho facilitado”, argumenta.

A iniciativa da educadora Juliana Fernandes, com o projeto “Família e Letramento no Contexto Escolar”, fez com que a demanda das famílias em relação à escola mudasse de: “como vocês trabalham?” para “como eu posso trabalhar em casa?”. Foram realizados dois grandes encontros com os pais na escola para que conhecessem o contexto do letramento (fase de aprendizado em que estavam seus filhos) e participassem de uma oficina de alfabetização, fazendo atividades e orientando as intervenções. “Eles começaram a identificar o que viam em casa”, explicou.

O estudo Cultivando a Aprendizagem Diária, realizado pela Fundação Lemann, a empresa de investimento em filantropia Omidyar Network e a consultoria de inovação IDEO, mostrou que muitas vezes os pais não se envolvem com a educação dos filhos, pois não se sentem seguros ou qualificados para ajudá-los nos conteúdos curriculares, mas, por outro lado, estão dispostos a apoiá-los no desenvolvimento de habilidades para a vida.

Pensando neste desafio, o projeto EduqMais, resultado de uma parceria entre a Fundação Lemann e a MGov, propõe que pais e responsáveis recebam mensagens com informações e sugestões de atividades por SMS. Segundo a gerente do projeto Maúna Rocha, uma das maiores vantagem do método é o amplo alcance da tecnologia: “Apuramos que na maior parte dos municípios do país as pessoas têm celular, mas nem todos têm internet, smartphone ou acesso a plano de dados. Chegamos então a essa ferramenta com a maior capilaridade”.

O conteúdo das mensagens do site EduqMais está relacionado ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais, com as quais os pais se sentem mais seguros para lidar, e que trazem resultados importantes para o desempenho escolar, a permanência na escola e a continuidade dos estudos no futuro. “Se fôssemos pedir para ele ajudar em currículo e tarefas de matemática, talvez se sentisse menos preparado”, afirma Maúna. A escolha de atividades sugeridas leva em conta, portanto, a parte do processo formativo pela qual os pais se sentem responsáveis e que a escola compreende como importante, mas sente dificuldade em encontrar os dispositivos que permitam isso.

Na avaliação do professor Diogo, da Fundação Darcy Vargas (Rio de Janeiro), uma das instituições contempladas pelo projeto piloto do EduqMais em 2015, aproximar os pais da escola colabora no desenvolvimento da responsabilidade do aluno, ajudando-o por consequência na resolução de questões mais complexas ligadas ao currículo. Segundo explica a gerente do projeto, se um pai que estava mais distante – por qual motivo fosse – começa a se interessar pelo processo formativo do filho, isso traz benefícios em si, em termos de desenvolvimento e de autoestima, já produzindo uma mudança. E isso vale tanto para as crianças de menor idade como para adolescentes e jovens.

Neste ano, o projeto será ampliado para a rede estadual de escolas em São Paulo, chegando a 25 mil alunos. Um desafio a ser superado é o cadastro dos pais e responsáveis que, ao serem convocados pela própria escola, ganham mais confiança no programa. “Depende muito do quanto a escola se engaja no desafio”, diz Maúna.

Na continuação desta matéria, vamos contar como a escola municipal paulistana Desembargador Amorim Lima, considerada uma referência em práticas inovadoras de educação, dá conta desses espaços de participação, em um projeto que concilia uma experiência muito próxima das famílias e da comunidade e uma nova plataforma, desenvolvida no âmbito do programa Escolas Inovadoras.



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