Mara Mansani e a alfabetização para o século XXI

31 de janeiro de 2019

Educadora há mais de 30 anos, Mara Mansani pensa a alfabetização como uma forma de exercer a cidadania e de buscar uma sociedade mais justa


Ser professora não estava nos planos de Mara Mansani quando era criança: o que ela queria mesmo era dançar, ser bailarina. Mas, por vir de uma família de leitores e pelos pais sempre terem sido ávidos consumidores de cultura, acabou sendo tocada pelo poder transformador da educação e da alfabetização, formou-se em Magistério e hoje acumula mais de 30 anos como educadora, tendo lecionado em cerca de 16 escolas.

A importância de uma boa formação de professores é uma das bandeiras defendidas pela professora ao longo de sua vida profissional, ao longo da qual acumulou experiências com turmas da Educação Infantil à Educação de Jovens Adultos (EJA). Educadores bem formados podem empoderar e valorizar seus alunos, atuando na promoção da cidadania.

Em sua estrada de mais três décadas pelos caminhos e descaminhos do ensino no Brasil, Mara aposta na educação como forma de emancipação do sujeito, atua para a garantia de uma formação de qualidade e, sobretudo, luta para que sejam cada vez mais valorizados os profissionais que se dedicam à alfabetização. Em sua perspectiva, esses educadores têm papel fundamental na transformação das pessoas e, por consequência, do mundo.

Mara Mansani conquistou o Prêmio Educador Nota 10 em 2014 na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga. Anos antes, em 2006, dois projetos seus sobre Educação Ambiental para o Ensino Básico integraram o livro “Muda o Mundo, Raimundo”, publicado pela WWF. Atualmente, a educadora possui um blog no portal Nova Escola, dá aulas na EE Leila Galep Sacker, em Sorocaba, e na EMEF Profa. Silvia Haddad, em Salto de Pirapora, ambas no estado de São Paulo, além de integrar a Rede Conectando Saberes.

A seguir, Mara Masani fala sobre os desafios da formação de professores no Brasil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a alfabetização como o primeiro passo para o exercício da cidadania e o papel do educador no século XXI:

Quais as contribuições do professor alfabetizador para a construção de uma sociedade mais justa?

Mara Mansani: A pessoa estar alfabetizada é, realmente, o primeiro passo para exercer a sua cidadania, ser gente no mundo. Quando não está alfabetizada, ela não pode participar plenamente da vida: é manipulada, enganada, não sabe se defender…

Não falo somente da leitura e da escrita, é de leitura do mundo de forma mais ampla. O papel do alfabetizador é abrir as portas do mundo para o indivíduo. Em uma sociedade mais justa e igualitária, todo mundo tem de saber ler, escrever e estar letrado, que significa usar a linguagem para ser protagonista de sua história.

O momento em que a criança começa a alfabetização é uma grande mágica. E ela só existe quando o professor faz a mediação da aprendizagem. O mais importante de todo esse processo é o empoderamento. Enquanto a alfabetização não for prioridade, não vamos seguir um caminho correto.

Quais seriam os grandes desafios na formação de professores atualmente e como ela deveria ser, para que o processo de alfabetização tenha cada vez mais qualidade?

Mara Mansani: A gente cobra muito o educador como protagonista do processo de alfabetização, ao lado dos alunos. Mas como cobrar se, muitas vezes, não há uma boa formação de professores? A escola do século XXI, em alguns momentos, se parece mais com uma escola do século XX ou, até mesmo, do XIX.

Nós temos de formar os professores para os problemas da contemporaneidade e para que lidem com as crianças no agora. Infelizmente, nossas universidades não dão conta de trabalhar a didática e a prática em sala de aula. Ainda estão longe da realidade. Hoje as crianças debatem, têm liberdade para perguntar, vivem num mundo tecnológico e são produtoras e consumidoras de conteúdo digital.

Teria de haver uma grande revolução nas universidades e nas políticas públicas para que a formação de professores tivesse mais qualidade. É preciso, também, valorizar e disseminar as práticas dos professores que estão inovando, além de investir em novas metodologias como ensino híbrido, STEAM, gamificação… A alfabetização não pode ficar tão longe do que está acontecendo hoje.

Como você pensa o professor-alfabetizador quando falamos sobre o papel dos educadores, de forma geral, no século XXI?

Mara Mansani: O papel do professor hoje é, principalmente, entender seu papel de mediador, de facilitador e que ele não é o centro do saber. O educador precisa entender que ele é um eterno aprendiz e que a construção do conhecimento se dá com ele e com os alunos, juntos.

Como profissionais, precisamos estudar, nos apropriar de novas metodologias e temos de correr atrás daquilo que não nos foi oferecido, porque as possibilidades de formação continuada são inúmeras. Temos de inovar também na nossa forma de aprender, estudar sempre, elaborar projetos, sugerir algo novo para as escolas, sermos criativos…

Quando falamos em ser profissional, pode parecer que não tem muito a ver com amor ou com respeito, mas não é bem por aí. Paulo Freire já dizia sobre o afeto na educação. Nós precisamos fazer uma sala de aula diferente. Como pode, no século XXI, ainda pensarmos em crianças sentadas uma atrás da outra? A escola não pode parecer com uma prisão: cheia de grades, muros, sem liberdade…

Uma das características mais marcantes do século XXI é a presença da tecnologia e as rápidas transformações que ela provoca, inclusive na educação. Como pode se dar o diálogo entre tecnologia e alfabetização?

Mara Mansani: De maneira geral, ainda é muito difícil entendermos que tecnologia vai muito além do digital. A gamificação, por exemplo, não precisa, necessariamente, de um suporte digital: é mais a forma como se trabalha algumas técnicas e conhecimentos. Mas para empregar tudo isso é preciso uma boa formação de professores.

Nós podemos fazer muita coisa com a tecnologia: jornal digital, blog da turma, animações em computador, produção de livros… Nem todas as escolas têm laboratório de informática, mas as crianças têm acesso aos smartphones em casa e utilizá-lo ainda é uma forma de trazer a família para perto do processo de alfabetização.

Podemos explorar metodologias, como sala de aula invertida e ensino híbrido a partir das tecnologias digitais. Nas escolas em que não temos tantos recursos, podemos explorar o circuito de aprendizagem, por exemplo. Nós vivemos no mundo digital e tecnológico, então como não vamos dialogar com ele? Sem contar que o próprio letramento digital está previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

No que diz respeito à formação de professores e ao processo de aprendizagem, quais são pontos importantes que a Base Nacional Comum Curricular traz?

Mara Mansani: Participei da construção da Base, tanto na etapa da Educação Infantil quanto do Ensino Fundamental. Entre os pontos positivos dela está o estabelecimento de uma idade limite para a alfabetização, pois é preciso alfabetizar o quanto antes. Além disso, parece que há um fio condutor mais nítido entre a educação infantil e a alfabetização, o que torna o processo menos sofrido para a criança.

Podemos destacar também a questão da igualdade: crianças de todas as regiões do país vão poder almejar o mesmo nível de aprendizado. Dessa forma, o educador sabe para o que ele precisa se preparar, mas ele também pode ir além da base e trabalhar coisas novas. Se a BNCC for apoiada, implementada com seriedade, se houver uma boa formação de professores, temos chances de avançar na educação brasileira.

Quem está em sala de aula vai precisar entender que os currículos são vivos, que podemos dar a cara de cada região a ele, levando em conta as peculiaridades locais.

Colocando tudo o que foi falado até agora em uma roda de diálogo, como você pensa a escola do século XXI?

Mara Mansani: A escola do século XXI não é uma utopia: pode ser real e possível, por meio de uma boa formação de professores e de mudanças nas estruturas das escolas.

É um local em que todos constroem conhecimento juntos, em que o aluno é o protagonista do processo de aprendizagem. Também é uma escola em que o professor é um aprendiz, facilitador, mediador e provocador do conhecimento.

É uma escola inovadora, criativa, aberta para o mundo e sem muros entre ela e a sociedade. É mais justa, democrática e utiliza metodologias inovadoras de educação. É uma escola em que o professor é valorizado, é bem pago e que a educação é, de fato, o que mais importa. Também é um local de respeito à diversidade e, principalmente, um local de amor. Ainda acredito que a educação possa, de fato, fazer a diferença!



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