Movendo montanhas: casal cria cadeira de rodas para trilhas

28 de março de 2018

Conheça a Julietti, cadeira adaptada pelo projeto Montanha Para Todos para ajudar pessoas com mobilidade reduzida a experimentar aventuras

Juliana Tozzi, com microfone, e Guilherme Simões apresentam palestra sobre a cadeira Julieti

O projeto Montanha Para Todos leva pessoas com mobilidade reduzida ao encontro das aventuras da vida. A ideia surgiu a partir da experiência de um casal apaixonado pelas alturas.

Guilherme Simões e Juliana Tozzi, viajantes de longa data, tiveram de enfrentar reviravoltas mais desafiadoras que muitas escaladas. Após batalhar contra um câncer de mama e ser diagnosticada com uma síndrome neurológica rara (Degeneração Cerebelar Paraneoplásica), Juliana ficou com os movimentos limitados. A partir daí, ela compreendeu que o impossível era questão de iniciativa, e para isso contou com a ajuda de seu parceiro.

Assim nasceu a primeira Julietti, uma cadeira de rodas para trilhas, adaptada para passeios em natureza. Produzida em uma serralheria, sob o esboço do desenho de Guilherme, o equipamento foi desenvolvido especialmente para Juliana.

A ideia deu tão certo que passou a despertar o interesse de mais pessoas. Por que, então, não modificar a experiência de aproximadamente quatro milhões de pessoas com mobilidade reduzida em todo país?

Uma vez dedicados à ideia, o projeto passou a ganhar forma, assim como os primeiros desafios. Cada cadeira custaria, em média, R$ 5.000,00 para ser produzida. Como arcar com esse custo? “A princípio, pensamos em ir atrás de patrocinadores, empresas do segmento de turismo de aventuras, mas não foi tão fácil assim”, relata Guilherme, que na época oferecia para as empresas bordar o nome e o logo delas no encosto das Juliettis, perpetuando o marketing à medida que as cadeiras fossem rodando o Brasil.

Mas as propostas só começaram a chegar quando a reportagem sobre a história do casal de São José dos Campos (SP) saiu em rede nacional, em um programa de TV. “Um rapaz me ligou perguntando quanto eu cobrava para fazer uma palestra em Blumenau (SC)”, conta o empreendedor.

Quando Juliano – o rapaz da ligação – contou o quanto estava disposto a pagar, o casal viu aí uma oportunidade de produzir mais cadeiras e ainda começar a injetar dinheiro no projeto. “Depois que demos a palestra, decidimos deixar uma cadeira por lá, e nomeamos o Juliano tutor da Julietti”.

Outras pessoas presentes no evento engajaram-se e fizeram propostas parecidas, dando origem ao sistema de financiamento do Montanha Para Todos em sua fase inicial. “Quando nos pagavam pelas palestras, construíamos uma cadeira para aquele local”. Dessa maneira, 14 Juliettis foram feitas, cada uma com um tutor responsável por divulgá-la em sua região.

 

Força-tarefa voluntária

Caderia Julietti

A força do engajamento foi o que moveu a busca por voluntários. “Já estávamos quase na 10ª cadeira quando percebemos que só entregar não resolvia”, relembra Guilherme, que é o responsável por selecionar pelo e-mail do projeto os interessados em ajudar.

Cuidar de todas as partes do processo quando o objetivo é atingir um país com as dimensões do Brasil pode tornar-se uma tarefa desgastante para duas pessoas, e é por isso que os tutores nomeados são de extrema importância para gerenciar ações, campanhas, mobilizar a comunidade local e divulgar a iniciativa.

Juliano, tutor da Julietti 001, em Blumenau, reconheceu a história inspiradora do casal como uma oportunidade de ajudar o projeto a ganhar força. A principal função dele como tutor é divulgar, disponibilizar e promover ações para integrar pessoas com mobilidade reduzida na região. “As famílias interessadas têm de assinar um contrato de comprometimento, para garantir a conservação da cadeira”.

Não existe uma equipe de voluntários fixa – essa seleção é feita sazonalmente, quando há necessidade de um número maior para eventos ou ações. “Tivemos que estruturar um regulamento para que funcionasse. A gente quer promover a inclusão social, e para nós a inclusão é quando pessoas próximas ou da comunidade colaboram”, explica Juliano. 

Em Blumenau, a distribuição e uso da cadeira é realizada por meio de agendamento no site Target Aventura, sem um itinerário determinado. Com essa liberdade, a pessoa pode escolher visitar qualquer lugar com a ajuda de familiares e amigos.

Juliana, usando a Julietti à frente de grupo de pessoas andam em trilha

 

Escalando para o futuro

Para distribuir melhor todas as funções, o casal pretende investir em um sistema mais prático de seleção, por meio de um aplicativo (já em desenvolvimento). Por meio dele será possível reservar cadeiras em todos os Estados que disponibilizam as Juliettis e usá-las durante o período de férias. Fazendo essa reserva, e-mails são disparados para os voluntários daquela região.

O que começou como um projeto pessoal está chegando a cumes cada vez mais altos: o Montanha Para Todos acaba de se tornar um instituto, e passará a receber doações formais. Serão recrutados profissionais das mais diversas áreas para as funções administrativas e até mesmo as Juliettis receberão ajuda de custo. A ideia agora é expandir, abrindo editais para desenvolver outros equipamentos de aventuras para pessoas com mobilidade reduzida. “Não queremos segurar o Montanha só pra gente, queremos que ele seja de todos”, diz Guilherme.

O casal está se preparando para uma viagem para a Bolívia no meio deste ano, onde escalarão uma montanha de 6.000 metros, fazendo de Juliana a primeira mulher cadeirante a atingir esse recorde.

Para o futuro, os planos envolvem atravessar oceanos em busca de outros continentes. Afinal, para o casal, “tudo é possível, basta determinação, adaptação e amigos”.



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