Na zona sul de São Paulo, projeto une futebol, cinema e literatura

19 de julho de 2017
Crianças jogam futebol

Neste 19 de julho, Dia Nacional do Futebol, saiba como funciona o Projeto Viela, iniciativa na zona sul de São Paulo de incentivo à leitura usando a prática esportiva.

“Começa quando a gente é criança. Quando qualquer coisa – até o corredor da casa – é um campo de futebol e qualquer coisa vagamente esférica é a bola. Se é genético, não se sabe. Um brasileiro criado na selva por chimpanzés, quando se pusesse de pé, começaria a fazer embaixadas com frutas?”. Texto publicado no jornal Marca da cal, em abril de 2007.

Nesta crônica sobre o amor pelo futebol, Luis Fernando Veríssimo fala justamente da fase da vida em que as canelas são mais finas e os sonhos grandes: o tempo da infância. Em qualquer bairro e viela, crianças mantêm vivo nos pés o desejo de se tornar jogador de futebol. Anderson Agostinho, o Buiú, foi um desses meninos.

Em 19 de julho é celebrado no Brasil o Dia Nacional do Futebol. A data foi escolhida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 1976, em homenagem ao time mais antigo do país em atividade, o Sport Club Rio Grande, do Rio Grande do Sul, fundado no dia 19 de julho de 1900.

Quando se mudou com os pais para um terreno na zona sul de São Paulo nos anos 1970, gostava muito de jogar bola – hoje esse terreno é o Jardim Ibirapuera, uma comunidade na região do M’Boi Mirim. Em um cenário de desigualdades sociais, violências e sonhos engolidos por falta de políticas públicas de lazer e cultura, Buiú abandonou os estudos aos nove anos, começou a trabalhar e acabou se envolvendo com drogas. Foi só quando adulto, no CIEJA Campo Limpo, que voltou a estudar.

A partir de então, ele começou a repensar sua história e sua comunidade. Como forma de resgatar as riquezas por vezes escondidas nos becos do bairro, Buiú passou a oferecer, principalmente para crianças e adolescentes, o que por muito tempo lhe foi negado: oportunidade, aprendizado e, claro, o sonho da bola no pé. Nascia assim, em 2009, o Projeto Viela. 

Na laje de sua casa, ele fazia sessões de cinema e leitura com a criançada, mas foi a parceria fechada com a Escola Estadual Comendador Alfredo Vianello Gregório, que liberou o uso da quadra desportiva para o projeto, que possibilitou levar futebol, prática pedagógica e cultura a mais de 1.400 jovens.

Hoje, às 80 crianças que participam regularmente da iniciativa é proposta uma condição: para treinar, elas devem topar participar de uma roda de leitura mediada por educadores e voluntários. Nos treinos de futebol, sentados em círculo e com textos às mãos, eles discutem assuntos relacionados ao esporte e também com outros temas a partir da realidade a que eles se afeiçoam.

Crianças sentadas em viela

“Trabalhamos com o sonho de todos os meninos da comunidade, que é se tornar jogador de futebol. Queremos que entendam que existem outras opções de futuro, então, usamos a literatura como ponto de partida”, explica Elisa Ednalva Santos, uma das coordenadoras do projeto e esposa de Buiú.

Atualmente, o Projeto Viela conta com intensa participação da comunidade, e além de literatura e futebol, são também oferecidas aulas de jiu-jtsu, inglês, oficinas e o Cinema na Viela, que transforma ruas em salas de cinema ao ar livre.

Buiú e os jogadores do Projeto Viela

Em pausa por conta das férias de julho, Buiú está preparando uma reestruturação pedagógica no Viela, e um dos objetivos é a maior inserção de meninas nos times de futebol do projeto.

Em entrevista ao Portal Aprendiz no aniversário de oito anos da iniciativa, em 2016, Buiú diz acompanhar os boletins escolares dos meninos, e que é possível notar claramente melhora em pontos como leitura, rendimento e relações interpessoais. “A abertura que a gente dá para que eles possam estar aqui fazendo coisas é a abertura que pode potencializar as suas ideias e seus sonhos”.

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