O que pensam e querem os futuros educadores do país?

30 de maio de 2017
Juliana Inácio e Érica Ito, estudantes de pedagogia

Juliana Inácio e Érica Ito, estudantes de pedagogia


Conheça alguns jovens estudantes e professores que acreditam na educação como ferramenta para transformar o mundo

Victor Jesuíno tem 21 anos e sonha alto. Prestes a concluir o curso de pedagogia em uma universidade particular de São Paulo, ele afirma que não vai parar de estudar até chegar à superintendência da educação no país.

Único homem em uma sala de 60 alunos, o Victor escolheu a área da educação mesmo sem o total apoio dos próprios professores ou dos pais que, preocupados com o mercado de trabalho, gostariam que ele seguisse uma profissão ligada à engenharia.

“Sempre gostei de brincar de dar aulas. Escolhi estudar pedagogia para seguir meu sonho de vida, e todos diziam que eu era louco. Hoje, me sinto realizado por ter escolhido fazer o que realmente amo”, diz.

Victor faz parte de um grupo que, na contramão da maioria dos colegas da sua idade, decidiu ser educador, enfrentando preconceito de amigos, familiares e até de colegas de profissão mais experientes. Questionadores e conscientes de seu papel na sociedade, eles vêm de diferentes contextos sociais, mas compartilham de um desejo comum: transformar o mundo por meio da educação. “Ela é a base de tudo nessa vida e a única capaz de criar seres pensantes por meio do conhecimento. Uma sociedade educada é uma sociedade transformada”, diz.

Assim como Victor, Paulo Soares, de 24 anos, também enfrentou resistência quando decidiu se tornar professor. Químico recém-formado, ele trocou o trabalho na indústria para dar aulas na universidade federal onde se graduou e hoje leciona em um curso para alunos em fase de preparação para o vestibular.

Paulo Soares
“A gente sabe quais são os problemas e o que podemos fazer melhor”, diz Paulo Soares, de 24 anos, professor

“Depois que comecei a dar aula, aconteceu uma mudança na minha vida, e percebi que ensinar me deixava extremamente feliz. A carreira de docente foi tão sucateada que as pessoas passaram a ver só os contras, mas a nossa profissão é a única na qual tivemos contato durante toda a vida. A gente sabe quais são os problemas e o que podemos fazer melhor”, explica Paulo.

Dentre os atributos que considera essencial para um educador, o jovem destaca a renovação constante e formação continuada, o uso da tecnologia e a proximidade com os estudantes. “Eu tenho uma relação muito bacana com os meus alunos e muitos nem me chamam de professor. Não tenho medo de ser questionado ou que eles tragam informações que eu desconheça para debatermos juntos e não é por isso que não há respeito e falta de aprendizado dentro da sala de aula.”

Perspectivas para o futuro

Jovens como Victor e Paulo são considerados minoria em um universo onde a profissão ainda luta para ocupar um espaço de reconhecimento na sociedade.

No ano passado, o movimento Todos Pela Educação realizou um estudo com 1551 jovens, entre 15 e 19 anos para saber o que eles pensam sobre os professores, a participação social e a educação no Ensino Médio. Dentre os tópicos abordados, um dado chama atenção: embora 38% dos jovens já tenham pensado em ser professor, 23,5% desistiram da ideia. Os principais motivos trazidos pelos entrevistados que não seguiriam a carreira foram o baixo salário inicial, a desvalorização da profissão pela sociedade e, principalmente, o pouco respeito dentro da sala de aula.

Para a coordenadora de articulação e mobilização do movimento, Carolina Fernandes, a falta de motivação em seguir a carreira docente reflete a insatisfação com o que acontece em classe. “Um dos grandes problemas do Ensino Médio é justamente a falta de conexão entre o que é passado dentro da escola e a vida fora dela. Os jovens não se identificam com o modelo de ensino atual e isso acaba repercutindo na visão sobre o professor. Porém, é importante destacar que eles reconhecem a importância do educador, apenas desejariam que a escola fosse diferente”, explica.

Carolina Fernandes
É fundamental aproveitar esse momento de discussão sobre o novo Ensino Médio para ouvir os estudantes, diz Carolina Fernandes, coordenadora do Todos Pela Educação

Dentre as mudanças esperadas pelos jovens, a coordenadora destaca o uso de tecnologia em sala de aula, projetos interdisciplinares e a realização de aulas práticas, que levem em conta as experiências de vida de cada um. “É fundamental aproveitar esse momento de discussão sobre o novo Ensino Médio para ouvir os estudantes e investir na valorização e formação do professor”.

Novas vozes

A necessidade dos jovens em serem ouvidos já tem refletido em mudanças importantes nas faculdades voltadas para futuros educadores.

Alunos de pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) decidiram realizar um evento acadêmico para debater temas atuais e boas práticas com especialistas e professores convidados, promovendo maior integração entre os estudantes do curso.

“Queríamos levantar discussões relevantes dentro da faculdade, mostrando aos próprios alunos que existem várias formas de melhorar a educação em nosso país e que nós podemos ser os protagonistas desta mudança”, afirmam as jovens Juliana Inácio e Érica Ito, que fazem parte do grupo idealizador do evento.

“A profissão nem sempre é valorizada, mas se você quiser ser um médico, um advogado ou engenheiro você vai precisar de um professor. Educar é uma responsabilidade muito grande porque nos dá chance de oferecer às pessoas novas perspectivas de vida e oportunidades”, conclui a futura pedagoga.

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