O voluntariado como ponte entre o refugiado e seu novo país

14 de outubro de 2016

Agentes de organizações e voluntários contam como o voluntariado qualificado pode fazer com que o imigrante ganhe autonomia em seu novo lar

Para os quase nove mil solicitantes de refúgio e imigrantes que vivem no Brasil atualmente, segundo o Comitê Nacional para os Refugiados, cada instante do cotidiano é um desafio tão grande quanto os que tiveram que passar para deixar seus lares. As tarefas do dia-a-dia, às vezes banais para os brasileiros, parecem impossíveis diante de entraves como idioma ou costumes distintos: pegar transporte público, matricular sua criança na escola, conseguir um emprego ainda que haja qualificação mais do que suficiente para tanto, ou simplesmente se comunicar para conseguir comprar comida.

“A inserção é muito difícil, e se pode até dizer que é uma violência tentar se comunicar diariamente em uma língua que não se compreende”, relata Mônica Nakajima, coordenadora do curso de português para refugiados do Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado – Brasil). Para tornar a cidade mais afetuosa a esse cidadão recém-chegado, o voluntário local se torna uma espécie de ponte entre as duas realidades.

O voluntário do primeiro contato é o responsável pela tarefa de “quebrar’’ a desconfiança do imigrante e fazê-lo se abrir sobre suas frustrações e desejos neste novo espaço. Os voluntários que ensinam o português também são indispensáveis para que o estrangeiro possa começar a se mover com segurança na cidade e a ganhar autonomia. Há também aqueles que se disponibilizam a prestar serviços como assistência jurídica e a ensinar novos ofícios e outros idiomas.

Com uma rede de 200 voluntários, o Adus oferece diversos serviços para integrar não somente o refugiado como também o estrangeiro que esteja com dificuldade de adaptação. Mônica detalha que embora muitos voluntários se inscrevam, principalmente quando notícias sobre a situação de outros países pipocam nas mídias, nem sempre eles cumprem os requisitos necessários para a prática. Mais do que o domínio de outro idioma ou experiência na área – características desejáveis – eles devem ter constância no voluntariado, percebendo-o como uma experiência para muito além da caridade. “Ser voluntariado para pessoas em situação de refúgio é estabelecer um vínculo de confiança”, diz.

Ainda que tenha prática na área, o voluntário deve se descontruir como tal: frente a alguém de costumes e culturas diferentes, os desafios de ensinar português, por exemplo, não podem se resumir à alfabetização. “O voluntário não está dando um curso de português: o foco é a comunicação. A ideia é que esse refugiado consiga entender e ser entendido”, complementa Kelly Alves, também coordenadora do curso de idiomas do Adus.

O discurso que permeia a questão do refúgio muitas vezes se reduz à ideia de que são pessoas com apenas carências e demandas, ignorando a complexidade de suas histórias. Quando a voluntária Ligia Zambone começou a atuar na Cáritas Brasileira, entidade de promoção aos direitos humanos, ele percebeu estar diante de indivíduos corajosos e inspiradores. “O mais incrível de voluntariar na Cáritas é que esses refugiados ensinam sobre a capacidade de regeneração, de reconstruir sua vida do zero. São narrativas de superação”, relata a historiadora e internacionalista, que ajuda no primeiro atendimento ao refugiado.

Para o voluntário João Sugahara, que também atua na Cáritas na área de fornecimento de informações, as narrativas corajosas com as quais lida servem para repensar seu próprio papel enquanto ativista e agente de mudança do entorno. “Quando conheço um advogado ou engenheiro que não pode exercer sua profissão e deve se reinventar, ou um homossexual que foge de seu país porque tem o risco de morrer somente por conta de sua orientação sexual, me confronto constantemente com meu papel social”.

Dessa forma, as fronteiras se diluem nesta troca entre o voluntário e o imigrante. Nesta relação os dois são igualmente ajudados e habitantes de um lugar de solidariedade.



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