Os desafios para a formação de professores no Brasil

06 de junho de 2019

Saiba como cenário atual que envolve a carreira docente no país pode impactar na qualidade do sistema educacional

Na imagem, que ilustra matéria sobre formação de professores no Brasil, educador usando óculos e segurando um livro aponta para estudante com a mão levantada. Ao fundo há uma lousa.

Nenhum sistema educacional é superior à qualidade dos seus professores. Foi a partir desse direcionamento que o movimento Educação Já!, organizado pelo Todos pela Educação, estabeleceu uma das agendas prioritárias para a educação brasileira nos próximos anos: a profissionalização da carreira e formação docente.

Desvalorização da profissão, falta de atratividade, defasagem na formação inicial, descontinuação dos estudos e capacitações, ausência de avaliações eficientes, baixa remuneração e falta de atenção para os profissionais já inseridos no mercado foram alguns dos desafios levantados pela iniciativa.

“Um pouco do nosso papel é tentar sair do discurso de que ser professor é um dom, e colocá-lo no centro da agenda como profissional”, explica Ivan Gontijo, responsável pela coordenação de projetos dentro das políticas docentes no Todos pela Educação. “Existem determinadas competências que podem ser aprendidas, desde que haja estrutura para incorporá-las nas práticas pedagógicas”, complementa.

 

Atratividade e incentivo

Em análise feita pelo documento Profissão Professor na América Latina, lançado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cálculos baseados no ENADE 2008 revelaram que cerca de 20% dos estudantes de pedagogia escolheram a carreira como alternativa, caso não conseguissem outro emprego. Em 2014, esse cenário mudou (caiu para 6,8% no total), mas se somado a outras razões como falta de condições financeiras para cursar outra graduação ou influência familiar, o número chega a 15% do total.

Os dados citados acima trazem uma primeira reflexão: Quem são os jovens atraídos para a carreira de docente?

“Percebemos que muitos alunos que vão se tornar os professores do futuro possuem baixo desempenho no Ensino Médio. 70% dos alunos que cursam Pedagogia têm nota abaixo da média do Enem”, afirma Ivan Gontijo.

Na contramão deste cenário, os países melhor classificados no PISA estão trilhando o caminho de valorização da profissão e exigindo excelência acadêmica de quem quer se formar professor. Diante da realidade brasileira, políticas como incentivo e bolsas de estudos para alunos de alto desempenho cursarem a formação inicial em carreiras docentes são exemplos de caminhos possíveis para atrair e qualificar os novos profissionais.

 

Diálogo entre teoria e prática 

Outro desafio que atinge a formação inicial de professores é a carga teórica muito maior do que a parte prática. Segundo dados levantados pelo Todos pela Educação, 71% dos professores avaliam os cursos de graduação como insuficientes. Isso porque o professor quando sai da universidade, já é colocado para administrar uma turma de vários alunos e não há muito tempo para o preparo, acompanhamento e mentoria, como existem em outras áreas.

“Quando o professor se depara com problemas em sala de aula, vai ter que recorrer à teoria. Mas primeiro ele precisa se deparar com esses problemas. Isso se torna muito mais difícil quando ele não tem contato com a prática durante a formação”, acrescenta Ivan Gontijo.

Para mudar esse cenário, Gontijo destaca a importância de uma regulação para que os cursos possam estruturar melhor a residência pedagógica – uma espécie de estágio para que o professor acompanhe aulas e reflita práticas, trocando experiências com os colegas.

 

Espaço para Formação Continuada

Nos próximos dez anos, estima-se que 50% dos professores vão se aposentar. Levando esse dado em consideração, uma nova equipe de professores estará entrando no circuito e será necessário pensar em uma ação que garanta a qualidade da formação dessa nova geração, além de subsídios para que os atuais docentes complementem suas práticas. Tal caminho pode ser encontrado por meio da formação continuada.

“Há ainda uma dificuldade em aceitar que o estudo deve ser contínuo e não apenas enquanto estamos no ensino superior. E isso se deve a uma falta de perspectiva de onde se quer chegar dentro da carreira docente”, comenta Rita de Lino, diretora administrativa da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância). “Quando eu tenho um projeto de vida, é muito mais fácil demandar por mais conhecimento para superar desafios e atingir novas metas”.

A professora ressalta que outros fatores também contribuem para a descontinuação dos estudos como condições financeiras e o desconhecimento de cursos gratuitos, falta de espaço para a formação continuada dentro da carga horária escolar e a ausência de articulação dentro das instituições para possibilitar que os professores dediquem tempo extraclasse para investir em capacitações.

“Está previsto na regulamentação que os professores têm um terço do tempo extraclasse para se dedicar aos cursos de formação continuada. Mas o que acontece é que a maioria dos docentes leciona em mais de uma escola por dia e esse tempo fica comprometido”, complementa Gontijo.

 

Facilidades do ensino a distância

Ambos os especialistas defendem a ideia de que o verdadeiro objetivo da formação continuada é a vivência e a troca entre os pares. Ainda assim, muitas vezes os espaços escolares não oferecem essa oportunidade e, portanto, os professores têm como alternativa as facilidades do ensino a distância.

“Só pelo fato de ele não ter que se deslocar de uma cidade para outra, os professores tem chance de melhorar sua performance profissional e ainda gerenciar o seu tempo”, explica Rita Maria de Lino. “Para os grandes centros funciona como uma alternativa, mas quando vamos para cidades no interior do país, a educação a distância é a única opção”.

Hoje há mais matriculados em formação EAD do que no ensino presencial, o que representa um desafio para regular os cursos não desconsiderando os componentes práticos. Segundo o Censo EAD 2018, publicado anualmente pela ABED, 47% dos cursos apresentam interação entre os alunos, 45% deles abrem espaços para trabalhos colaborativos e 54% oferecem atendimento pedagógico. Além disso, já existem movimentos para alinhar esses critérios à nova proposição da BNCC.

 

Políticas públicas e avaliação

A articulação entre as redes e a regulação do Governo Federal é uma boa maneira de garantir um desenho de políticas públicas e um sistema de avaliação que possa dar insumos necessários para cada região. As avaliações poderiam ser feitas a partir do próprio ENADE e a regulação por meio da recém-aprovada Base Nacional Comum Curricular.

Segundo o coordenador de políticas docentes, um dos grandes desafios é implementar um plano de ação que dialogue com as competências e habilidades propostas. “A formação continuada, por exemplo, será um instrumento para fazer com que a BNCC deixe de ser apenas um documento e passe a se verificar nas salas de aula brasileiras”, analisa.

Fóruns como os da Consed e da Undime já discutem essas tendências e ressaltam o papel do Governo Federal em atuar diretamente na atratividade para os cursos. “É importante entender que já existem iniciativas que funcionam. Precisamos tentar buscar esses elementos e levá-los para outras redes”.

Boas Práticas

No Ceará, as redes se organizam para disponibilizar momentos durante a semana para que os professores de cada disciplina se reúnam e discutam como ensinar os conteúdos. E é nesse processo de troca que os professores conseguem identificar quais são as soluções.

Outro exemplo é o da rede municipal Novo Horizonte, em São Paulo, com bom desempenho no IDEB. A rede proporciona aos professores durante a formação continuada momentos de discussão, análise e avaliações internas, feitas pela própria escola, por meio da Secretaria de Educação.

Fique ligado e acompanhe mais da nossa série de reportagens sobre o movimento Educação Já. Alfabetização e Financiamento foram temas já abordados.



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