Os desafios para a inclusão de refugiados nas escolas

30 de janeiro de 2019

Já passam de 73 mil alunos estrangeiros matriculados no país. Acolhimento é a chave para superar as diferenças culturais e de idioma.

Diretor da Escola Infante Dom Henrique, que recebe refugiados, posa para foto com um painel ao fundo

Dispostos em roda, cerca de vinte alunos de quatro e cinco anos cantam em coro Je vais à l’école en chantant. J’arrive à l’école três content (Eu vou à escola cantando. Eu chego na escola muito feliz). A canção em francês foi ensinada por Natalie, que veio do Congo e é mãe de Davi, um dos alunos matriculados na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) João Mendonça Falcão, no bairro do Brás, região central de São Paulo.

A música faz parte do projeto Música de Todos os Povos, que convidou os pais a relembrarem as cantigas de infância. “Nós tivemos a ideia por causa da grande diversidade em nossa sala”, conta a professora Karen Cristina Sobral Bock. Dos 422 alunos matriculados na escola, 70 são estrangeiros, de doze nacionalidades diferentes. A maioria vem da Bolívia e de outros países da América Latina, mas há também congoleses, palestinos, sírios, coreanos e bangaleses.

Nesta efervescência cultural, a EMEI coleciona histórias de desafio e superação. Em 2018, recebeu, pela primeira vez, uma refugiada da Síria. A adaptação foi difícil. A menina de cinco anos chorava o tempo todo. Professoras e funcionários revezavam para tentar ajudá-la da maneira de conseguiam, mas o problema ia além da barreira do idioma.

Quando foi chamado pela direção, o pai contou que a menina saía de casa com receio de que os pais não estivessem mais lá quando ela voltasse. A verdade é que frequentar a escola era algo novo para toda a família, que quando estava em seu país de origem preferira não mandar as crianças para a escola. São marcas profundas de uma guerra, que não vão embora com o recomeço de uma nova vida.

“Os professores e a escola precisam ter uma sensibilidade maior para entender o momento do outro. Além da dificuldade da adaptação cultural e da língua, o estrangeiro lida com tudo o que ele sofreu antes de se estabelecer em um novo país. Refugiados normalmente passam por situações de abuso, violência e assassinato de familiares”, explica Débora Alves, assistente social da Caritás, no Rio de Janeiro. A ONG trabalha para diminuir as barreiras que dificultam o acesso à políticas e serviços públicos dos refugiados.

Com a aproximação da família e o acompanhamento carinhoso do corpo pedagógico, em poucos meses a menina síria passou a ser fluente em português. Virou intérprete de um colega recém-chegado e que só se comunicava em árabe. “Ela passou a ser nossa ponte com esse menino. Mas quanto tinha que falar em árabe, falava no ouvido dele para que ninguém a escutasse”, relembra divertindo-se a coordenadora pedagógica Marilene Sales de Melo.

A coordenadora conta que o trabalho com crianças imigrantes faz com que as professoras da escola adquiram um poder de observação mais apurado que vai além do olhar. “Não só a fala, mas os gestos, os movimentos, os olhares, a interação com o outro. Tudo o que a criança faz é avaliado não só pelas professoras, mas pelos funcionários de maneira geral”.

 

Lugar de criança é na escola

Na imagem vemos um grupo de crianças reunidas na Escola João Mendonça Filho

Mais de 18 milhões de imigrantes e refugiados pelo mundo são crianças e adolescentes em idade escolar. Metade deles não está na escola, como apontou o recém-divulgado Relatório de Monitoramento Global da Educação da Unesco – Migração, deslocamento e educação: construir pontes, não muros. O problema é grave. Além de educação ser um direito, o relatório enfatiza que crianças que não frequentam a escola têm mais chance sofrer abusos ou cair no trabalho infantil.

O Brasil, apesar de não ser listado como um dos principais países a receber imigrantes e refugiados, tem registrado aumento dessa população. De 2016 para 2017, o número de estrangeiros que busca refúgio por aqui dobrou e chegou a quase 150 mil pessoas, segundo informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Diante desse cenário, as matrículas de alunos estrangeiros nas escolas brasileiras mais do que dobraram nos últimos oito anos, chegando a 73 mil de acordo com o último Censo Escolar. A maioria dos estrangeiros (64%) está matriculada em escolas públicas e São Paulo é o estado com a maior concentração de imigrantes, e o mais preparado para atendê-los.

A legislação brasileira determina que estrangeiros têm direito ao acesso à educação da mesma forma que crianças e adolescentes brasileiros. A falta de documentação não pode atravancar o processo e nem impedir que a criança seja acolhida pela escola. Mas apenas garantir o acesso não basta. O ambiente escolar deve se adaptar e apoiar as necessidades específicas dos imigrantes.

“A escola tem que se empenhar em dar oportunidade de aprendizado a essas crianças, com professores bem preparados, com apoio da gestão e currículos adaptados e que promovam a diversidade”, enfatiza Rebeca Otero, coordenadora de educação da Unesco Brasil. “Dar condições para que o imigrante aprenda a língua local e promover ações que combatam a discriminação e aproxime culturas é essencial”.

A realidade brasileira, no entanto, esbarra em empecilhos que dificultam o trabalho. Falta de infraestrutura nas escolas, salas de aula lotadas, com alto índice de distorção de idade-série são problemas comuns e podem atravancar o processo. “O que a gente percebe é que a integração do imigrante depende muito da postura que a equipe técnica da escola tem em relação à inclusão e integração”, aponta Débora, da Caritás.

 

Mudança de foco

Quando chegou para assumir a direção da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Infante Dom Henrique, também na zona central de São Paulo, Claudio Marques Neto foi informado de que indisciplina e violência eram sérios problemas da escola. O ano era 2011, época em que 10% dos alunos eram estrangeiros, bolivianos na quase totalidade.

Os atos de racismo e xenofobia eram frequentes, por isso o diretor percebeu que era preciso fazer um trabalho específico de integração. Chamou os pais e os alunos imigrantes para conversar e criou o projeto Escola Apropriada – Educação, Cidadania e Direitos Humanos, um sucesso na escola até hoje. São encontros quinzenais que trabalham empatia, vivências, acolhimento, sentimentos, respeito e valores.

A escola não só conseguiu mitigar a violência e reduzir os episódios de racismo e xenofobia, como se tornou uma referência no país. Além de vários prêmios conquistados, passou a integrar o Programa das Escolas Associadas à Unesco (PEA), em 2016. Hoje a porcentagem de estrangeiros subiu para 22% (de 570 alunos), com representantes de Marrocos, Angola, Síria, China, Peru, Argentina, México, Paraguai, Venezuela, Haiti, Nigéria e Bangladesh.

Quando um estrangeiro chega na escola é recebido por uma comissão de alunos que fica responsável por ajudá-lo a se familiarizar com os espaços e com as regras da instituição. O imigrante também é convidado a contar mais sobre seu país e suas vivências. “A gente não se preocupa com a língua, mas com acolhimento e em dar condição para as pessoas se desenvolverem. É claro que é uma barreira, mas ela se torna mais fácil quando a criança ou o adolescente se sente acolhido pelo grupo”, afirma Claudio.

A escola também está sempre aberta a projetos que promovam a integração cultural entre os alunos. Em 2016, duas alunas bolivianas de 11 anos tomaram a iniciativa de dar aulas de espanhol no contraturno. “O que a gente quer é que eles construam coisas juntos, que ajudem uns aos outros e tenham um olhar social mais apurado”, defende Claudio.

“Já passei por escolas onde os atos de violência eram ignorados. No Infante, isso não acontece. A escola tem esse olhar cuidadoso e promove ações para que xenofobia, racismo e violência de gênero, ou de qualquer tipo, não aconteçam”, relata a professora de História Rosângela Mara Galvani Parlamento, que há dois anos lidera um projeto na escola que discute gênero para promover a cultura da paz.

 

Narrativa é resistência

A professora também chama a atenção para o fato de que a vida do aluno estrangeiro e de sua família, bem como seu país de origem não é apagada, mas enfatizada. “Eu aprendo muito com eles. Outro dia, estava dando aula sobre Egito e o Mohamed, meu aluno sírio de 12 anos, me cobrou por que não estudávamos o país dele. Isso me forçou a voltar pra casa, pesquisar melhor e preparar uma aula sobre a Síria”, relata Rosângela. “Os alunos todos ficaram encantados em conhecer aquele país antes da guerra, com cidades grandes, carros modernos, mesquitas lindíssimas!”

Mais recentemente, a imigração deixou de ser um acontecimento na escola para se tornar eixo narrativo do Projeto Político Pedagógico (PPP). Os professores de todas as disciplinas incluem temas relacionados a migrações e de interesse dos estrangeiros nas aulas. A comunicação da escola é toda feita em quatro línguas: português, espanhol, árabe e inglês.

O objetivo é ajudar o aluno a ser protagonista e valorizar sua narrativa de vida, como relata Claudio: “A narrativa é fundamental! Quando você conta o que viveu e o que está sentindo, você extravasa sentimentos. Além disso, aquilo deixa de ser um sofrimento e passa a ser uma luta.”.

 

O poder da empatia

Um grupo de brasileiros e estrangeiros posa para a foto com a bandeira do Brasil. Matéria debate inclusão de refugiados

O aumento da diversidade em sala de aula traz desafios, inclusive para os brasileiros, mas também traz oportunidades de se aprender com outras culturas, trocar experiências, se enriquecer. Marilene, da EMEI João Mendonça Falcão, observa isso na prática. “É só conversar um pouco com nossas crianças e você vai perceber que a palavra que elas mais usam é ‘amigo’. Dia desses, um de nossos meninos emocionou a todos nós ao dizer que se o mundo seria melhor se as pessoas fossem mais amigas uma das outras”.

Ter um amigo passa pelo reconhecimento do outro, pela empatia, pela identificação e respeito, apesar das diferenças que saltam aos olhos. Como enfatiza, na abertura do documento, a Presidente do Conselho do Relatório da Unesco, Helen Clark:

“A educação pode despertar o melhor nas pessoas, fazer com que estereótipos, preconceitos e discriminação sejam substituídas por pensamento crítico, solidariedade e abertura. Ela pode oferecer ajuda aos que sofrem e um ponto de partida aos que precisam desesperadamente de uma oportunidade”.

 



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