Pedagogia da Alternância realça valor do campo e protagonismo juvenil

22 de dezembro de 2015

Escolas do campo no Baixo Sul da Bahia e no Espírito Santo adotam metodologia que alterna períodos de internato na instituição com períodos de prática nas moradias e adequa currículo à realidade local.

A jornada na escola começa cedo. Às 6h30, todos já estão reunidos para o café da manhã. É preciso ganhar tempo para realizar as atividades ao longo do dia: além das aulas curriculares do Ensino Médio, há disciplinas técnicas, práticas e teóricas, voltadas à agropecuária, e tarefas de manutenção da casa, nas quais os alunos se revezam segundo uma escala preparada às segundas-feiras. Apesar de variar a cada semana, esta é uma rotina comum aos estudantes das Casas Familiares Rurais, no Baixo Sul da Bahia, e das Escolas-Família Agrícolas, no Espírito Santo.

Breve histórico da Pedagogia da Alternância

Criada na França, na década de 1930, a metodologia era uma solução dos camponeses para evitar que seus filhos perdessem muito tempo no caminho de ida e volta da escola ou que tivessem de ser transferidos para os centros urbanos para estudar. No Brasil, a iniciativa chegou no final da década de 1970, com uma missão jesuíta, no Espírito Santo, e se espalhou por muitos estados. Apesar de ser realizada no Brasil desde essa época, por iniciativa de organizações e associações comunitárias, a metodologia passou a ser reconhecida pelo Ministério da Educação apenas a partir de 1999. Do contrário, os alunos ainda precisavam fazer um exame supletivo para conseguir o diploma.

Essas, assim como outras quase 300 escolas no Brasil, têm seu modelo educacional pautado na Pedagogia da Alternância: uma metodologia de origem francesa, segundo a qual, como mostra o próprio nome, o aluno alterna períodos de internato nas instituições de ensino com estadias em suas casas, em geral propriedades rurais, onde têm a chance de desenvolver seus projetos educativos-produtivos e aplicar as técnicas que aprenderam em hortas, pomares e plantações, sendo acompanhados e orientados por monitores.

Entre as inúmeras vantagens deste modelo para o contexto do campo, destaca-se a questão do deslocamento. Não é novidade que a dificuldade de acesso à escola é um impasse para muitas famílias residentes na região rural e também um motivo para a evasão escolar. Ao manter os alunos na escola durante um período mais longo, nos alojamentos, e uma ou duas semanas em casa, já se conquista uma redução razoável na quantidade de trajetos.

Como pontuou Idalgizo Monequi, superintendente geral do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES), criado no estado capixaba em 1968, com o intuito de promover a melhoria da qualidade de vida do homem do campo, o modelo possibilitou que os filhos de camponeses estudassem em um local próximo de suas residências e realizassem as atividades propostas com o envolvimento afetivo da família. “É uma forma de educar que promove o desenvolvimento do campo, a partir da formação de jovens protagonistas em suas famílias e comunidades”, afirma.

Em relação a outras escolas, há uma diferença notável no conteúdo. “Nosso princípio é a educação para a vida”, explica Quionei Araújo, diretor da Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves (CFR-PTN), inaugurada em 2002, no município de Tancredo Neves, a 280 quilômetros de Salvador. Por isso, as disciplinas regulares – que acontecem como prevê a Base Nacional Comum – são adequadas às necessidades práticas dos alunos. Uma aula de Química, por exemplo, esclarece as reações que acontecem no contato do adubo com o solo.

“Queremos formar cidadãos capazes de se sustentar, com qualidade de vida, no lugar onde eles nasceram, cresceram e vivem com suas famílias”, sustenta Araújo, explicando o enfoque desta casa, reconhecida pela excelência na preparação de jovens empresários rurais.

Rebatendo a crítica de que o ensino voltado para os saberes do campo limitaria o acesso dos estudantes a outras áreas, Rita Cardoso, diretora da Casa Familiar Agroflorestal (Cfaf), localizada no município de Nilo Peçanha (BA), explica que o próprio aluno – cujo perfil advém da agricultura familiar – procura a escola para aprimorar esse conhecimento. “Eles pensam muito sobre a questão do êxodo, e não querem sair da comunidade. Vêm para cá em busca de uma oportunidade que seus pais não tiveram”, relata.

Ambas as casas, CFR-PTN e Cfaf, assim como a Casa Familiar Rural de Igrapiúna (CFR-I) e a Casa Familiar das Águas (CFA), fazem parte de um contexto integrado, o Programa de Desenvolvimento Integrado do Mosaico de Áreas de Proteção Ambiental do Baixo Sul da Bahia (PDCIS), instituído pela Fundação Odebrecht, que, por meio de ações de desenvolvimento dos capitais produtivo, ambiental, social e humano, pretende estruturar e prosperar esta área rural.

Multiplicadores do conhecimento

Um aspecto comum às escolas de alternância é o estímulo ao compartilhamento dos conhecimentos com a comunidade. “Temos ações multiplicadoras para ajudar a nossa comunidade a se desenvolver”, explica Elaine, aluna do 2º ano da CFR, em uma conversa após o almoço, ainda na mesa do refeitório. “Isso está em nosso PA [Plano de Ação], porque de nada adianta eu me desenvolver se a minha comunidade não se desenvolver junto”, argumenta, enquanto um colega se oferece para recolher seu prato e levá-lo até a equipe encarregada de lavar a louça.

Para isso, a estudante de 23 anos acompanha, além da cultura de aipim na propriedade de sua família, a produção de dois agricultores da vizinhança, que aceitaram recebê-la para empregar novos métodos de cultivo. Seus colegas desta e de outras casas familiares no Baixo Sul da Bahia fazem o mesmo. “Equivale a um trabalho de conclusão de curso: como eu encontrei e como eu deixei essa comunidade”, esclarece.

Outra iniciativa são os “Seminários Rurais”, palestras que os alunos realizam a partir do primeiro ano de curso. Como contou Patrícia, aluna de 17 anos, no 3º ano da Cfaf, para este momento são convidados associações, agricultores, turmas e professores de outras escolas e demais interessados. “Na minha comunidade, onde ainda tem muito uso de agrotóxicos, falamos sobre a questão da segurança alimentar. Mesmo sabendo o que estão aplicando no alimento, as pessoas têm coragem de comer o que sabem que não é bom!”, reclama.

Seu grupo palestrou para 64 pessoas, enfatizando a mudança no custo dos produtos que melhoram a qualidade do alimento e a valorização do que plantam em relação aos alimentos processados. “Moramos em um lugar muito rico, temos terra para plantar, e ainda vemos as pessoas indo para a rua comprar achocolatado, biscoito recheado, enquanto na propriedade tem uma laranja, uma fruta, e ela não dá valor”, relata Patrícia.

Segundo o monitor responsável pelo 1º ano da Cfaf, Admilson Sacramento, essa atividade requer um diagnóstico da região em seus diferentes aspectos: econômico, cultural, social, ambiental. Depois, os dados são compilados, gerando um material a ser discutido. “É o momento também em que o jovem se reconhece e tem a oportunidade de se apresentar para a comunidade. O que o está impedindo de conquistar os seus sonhos?”, propõe como reflexão aos alunos.

Conheça a metodologia que realça o valor do campo e o protagonismo juvenil, alternando períodos de internato nas instituições de ensino com estadias em casa. Fotos: Carolina Pezzoni e Fabrício Cruz
Posted by Fundação Telefônica Brasil on Terça, 22 de dezembro de 2015

Participação familiar

Além de ampliar a participação comunitária, um dos pilares da alternância é o desenvolvimento da unidade-família. Na visão de Idalgizo, a fim de assegurar uma formação integral dos jovens, a escola deve estar organizada e estruturada para que a família participe da educação dos filhos, “não apenas como forma de verificar se ele está indo bem, avaliando seu desempenho nos conteúdos, mas, muito mais do que isso, assumindo com a escola a responsabilidade pelas decisões”. “Como diz o segundo artigo da Lei de Diretrizes e Bases, a educação é dever da família e do Estado. Se existe só um ou outro, o resultado não acontece”, acrescenta Quionei Araújo.

O envolvimento de seu João, agricultor da comunidade de Ouro Preto, na educação dos filhos, João Joaquim, de 16 anos, aluno do 2º ano da CFR de Presidente Tancredo Neves, e Jailton, 25, ex-aluno da Casa Familiar, é uma referência. “Desde que Jai entrou na casa, temos esse sistema de trabalho. É uma parceria de pais e filhos. Não tem ‘meu’, tudo o que adquirimos é nosso”, conta seu João, que mantém uma propriedade a dois quilômetros da escola, onde os filhos podem aplicar seus conhecimentos nos cultivos de banana-da-terra, abacaxi e mandioca.

O apoio da família conta inclusive no momento da seleção. “Se não tivesse, não tinha como a gente implantar os projetos”, conta Elaine. “Algumas resistem um pouco porque já estão acostumadas a fazer de uma certa forma, mas em geral todos aqui tem unidade família disposta a contribuir.”

“Eu sou do campo”

Se inovação em educação, como disse a socióloga Helena Singer, consiste em que todos os integrantes de um projeto educativo saibam qual é o seu objetivo, aonde quer chegar e por que acontece daquela forma, o modelo das casas familiares é um dos exemplos mais genuínos.

Na opinião da estudante Jailda, de 17 anos, que está no 3º ano da CFR, uma das principais atribuições do modelo está na mudança de olhar sobre o jovem do campo. “Existe uma visão de que os jovens que moram no campo são uns brutos, não sabem falar direito, não sabem se expressar. A gente já consegue ter uma visão diferente, mais ampla: vemos propósito em muitos jovens”, argumenta. “E quantas pessoas vivem no campo e hoje têm uma vida muito melhor do que quem foi para a cidade?”

Letícia, da mesma turma, concorda: “Teve um tempo em que os alunos do campo e da cidade tinham de estudar em horários diferentes para não se encontrar, por conta do preconceito. Tinha muita vergonha. Hoje, a gente já diz com orgulho: eu sou do campo, eu cultivo”.

Fundadas como associações civis e mantidas por meio de parcerias entre sociedade civil, poder público e iniciativa privada, o modelo das casas rurais familiares mostra que é possível desenvolver o campo por meio da educação, apostando no jovem como sujeito de transformação. “Não somos mais um profissional que vai trabalhar no campo e aplicar as técnicas que aprendeu”, reconhece a estudante Vanessa, de 18 anos, que acaba de se formar na CFR. “Conseguimos fazer coisas que achávamos antes impossível, e ainda ajudamos as pessoas. Tudo o que aprendemos aqui vamos levar para a vida”.



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