Por que ter mais diversidade no universo nerd é importante para jovens

15 de agosto de 2019

Projetos relacionados à cultura nerd, na escola e fora dela, mostram o impacto positivo da diversidade e representatividade em histórias e personagens


“É evidente como a indústria cinematográfica e literária influenciam nas opiniões e ações do público, principalmente de jovens”. A constatação é de um projeto de dois alunos da Escola SESI Djalma Pessoa, localizada em Piatã, Salvador (BA), que trata de um tema cada vez mais relacionado à cultura nerd: diversidade. Mas será que esse universo é representativo e traz diversidade de gênero, racial ou geográfica?

Larissa Almeida e Juan Freitas, do SESI Piatã, mostram no projeto “Representatividade dos super-heróis africanos: descolonizando os personagens da Marvel Comics e DC Comics na escola SESI Djalma Pessoa”, citado no começo deste texto, que o universo nerd ainda não retrata a diversidade como poderia.

Os alunos fizeram uma pesquisa com outros colegas da escola para mostrar como a indústria ainda retrata uma visão deturpada de outras culturas e etnias, principalmente as africanas. “A elaboração dessa pesquisa tem como propósito desconstruir a visão errônea acerca da África no ambiente artístico, especificamente, através das histórias em quadrinhos”, afirmam os estudantes em artigo.

As perguntas feitas durante o trabalho foram: Quando você pensa em super-heróis, quais surgem em sua mente? Com quais heróis você se identifica? Por quê? Você se sente representado por qual herói? Quais os atributos físicos e/ou psíquicos são mais importantes em um herói para você?

Depois, foram mostrados quatro super-heróis africanos até então desconhecidos pelos estudantes. As perguntas foram feitas novamente, e o resultado foi bem diferente: se antes os alunos, particularmente os negros, não se sentiram representados por nenhum herói que conheciam, “99% dos entrevistados conseguiram de forma positiva e espontânea se identificar com pelo menos um dos quatro heróis africanos apresentados durante a pesquisa”, aponta o artigo.

A conclusão do trabalho indicou a importância de existir representatividade em filmes, propagandas, HQs e diversos outros espaços, para promover a sensação de humanidade e igualdade de grupos sociais que lidam com preconceitos e exclusões. “Tal sentimento de representatividade implicará no futuro dos cidadãos, visto que esses poderão acreditar na sua capacidade e poderão se sentir valorizados, confiar em seu potencial, além de ser capazes de alcançar seus objetivos e atingir seus sonhos e desejos”, finaliza o artigo.

 

Representatividade importa

As empresas perceberam que representatividade importa. No caso da Marvel, um de seus diretores já adiantou que “diversidade, tanto na frente quanto por trás das câmeras, será o novo padrão. O futuro desses filmes será um muito inclusivo”, afirmou Joe Russo segundo o Omelete.

A nova fase de filmes da Marvel demonstra que a empresa continuará buscando diversidade de gênero e racial após sucessos como Pantera Negra, primeiro filme da produtora protagonizado por um herói negro, primeiro do gênero indicado ao Oscar de Melhor Filme e o 3º filme de maior bilheteria dos Estados Unidos (10º do mundo).

“Repensar personagens dentro das grandes produções é de grande importância como um processo de reparação histórica para uma população que há anos sofre com a falta de representatividade. Isso faz com que crianças e jovens se inspirem e possam se enxergar nas grandes mídias, além de repensarem o seu lugar no mundo, e também demonstra que podemos chegar a todos os lugares”, acredita Igor Nogueira, um dos organizadores do PerifaCon, a primeira conferência nerd das favelas que visa trazer a democratização do acesso à cultura nerd, geek e pop para as periferias.

 

O papel da escola

Andreza Delgado, que também organiza o Perifacon, acredita que a escola tem um papel importante na formação das crianças e pode trazer o universo nerd para seus alunos apresentando personagens mais diversos, além do perfil hegemonicamente branco, masculino, cisgênero e heterossexual.

“Olho para trás e vejo que não tive diversidade na escola, mas olhando agora vejo um avanço grande. Tem muito a ver com essa geração nova que está mais disposta a cobrar representatividade”, afirma.

Para Igor Nogueira, o trabalho feito pelos alunos do SESI Piatã, é um exemplo de como o meio escolar pode usar a cultura nerd, geek ou pop para se aproximar dos jovens.

“Para escolas e educadores é uma forma abrangente e bacana de abordar o assunto. Se você consegue falar de questões de diversidade e representatividade por meio da cultura nerd, você acessa o estudante com mais facilidade por ser algo que ele está acostumado a ver, consumir e gostar”, conclui.



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