1º Fórum de Negócios Periféricos acontece no Jardim Ângela, em SP

02 de junho de 2017
Primeiro Fórum de Negócios Periféricos

Bairro da zona sul foi palco de encontro entre negócios sociais e empreendedores

A fala de um jovem cheio de sonhos que participou do primeiro Fórum NIPNegócios de Impacto Periférico, no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, é a síntese do que provavelmente muitos pensavam durante o dia de evento: “Não tenham medo de investir na periferia”.

Na plateia, ouvindo o rapper Tião versar sobre seu amor ao bairro que chama de jardim dos jardins, estavam muitos empreendedores: um fundo social que atende pequenos negócios da zona leste; jovens usando a potência de suas raízes afro-brasileiras na confecção de roupas; duas senhoras com um negócio social que transformou suas vidas.

No pátio decorado da Paróquia Santos Mártires, não houve espaço para estereótipos e lugares comuns. “Da ponte pra cá”, como os moradores se referem à região, já não brota a sensação de viver no bairro que já foi considerado um dos mais violentos do mundo pela ONU. Os mais de 295 mil habitantes do distrito querem saber mais é de crescer, investir em seus negócios, girar a manivela da economia local com suas próprias mãos.

Foi reconhecendo o potencial criativo do bairro que A Banca, incubadora social e produtora cultural, surgiu em 1990, em um movimento de união e paz, nadando contra a corrente dos índices de violência. A produtora foi responsável pelo evento ocorrido no dia 26 de maio.

“As pessoas nascidas e criadas na periferia já têm a inovação social por necessidade, não como algo estudado ou aprendido na sala de aula”, explica Marcelo Rocha, conhecido como DJ Bola, criador d´A Banca. “O que queremos com o Fórum é conectar os dois lados da ponte; que a periferia não se feche para novos conhecimentos e que o centro não ignore o que criamos aqui. Juntos, podemos ir longe”. As oito mesas simultâneas que aconteceram de manhã e pela tarde combinavam experiências locais e de outras regiões com negócios sociais já consolidados.

Guiné Silva, do FundoZL, contou sua experiência na mesa Investimento de Impacto. Reconhecendo a potência do território leste da cidade, o fundo funciona como um catalisador de pequenos negócios, emprestando capital que não vai diretamente para o empreendedor e sim para o que ele precisa. Se há uma lanhouse, por exemplo, ele pode usar o fundo para adquirir equipamentos ou se formar em informática. “Entendemos o território enquanto um laboratório”, disse. “Emprestar dinheiro para quem não tem acesso a um empréstimo bancário convencional é criar elos entre recursos e a cidade”.

Primeiro Fórum de Negócios Periféricos

Do outro lado da ponte e com experiência no mercado de investimento de impacto, a Vox Capital apoia projetos que ofereçam serviços de qualidade não somente para quem tem capital para bancá-lo em áreas de saúde e educação. Daniel Izzo explicou que o grande aprendizado da roda é lutar para que qualquer pessoa, e não somente fundos tradicionais, possam investir em ideias que acreditem. “Temos que quebrar o monopólio de investidores dos milhões para os que querem doar 10 ou 100 reais. Negócios de impacto social geram emprego e movimentam a economia local, e é nisso que temos que nos concentrar”.

Criadoras do Papel de Mulher, Selvina Maria e Betânia Maria Carvalho sabem bem disso. Há 10 anos elas redescobriram-se enquanto empreendedoras quando começaram a reciclar papeis descartados. Na feitura artesanal, entre varais e conversas, notaram também que estavam ajudando outras mulheres do bairro. Selvina e Betânia eram as mais atentas ouvintes da mesa Financiamento Coletivo, aprendendo lições com o Juntos com VC, uma plataforma especializada em crowdfunding de negócios de impacto social. A elas, o comunicador Lucas Harada alertou: “O método de capitação tem que ter a ver com a ONG. Às vezes é colocar na internet, mas também passar o chapéu, fazer evento, utilizar o potencial e o que dá certo no entorno do negócio social em questão”.

Inspirações

Os palcos centrais, que aconteciam nos intervalos das mesas, eram ocupados por empreendedores que deram certo. Suas histórias eram inspiradoras justamente por tratarem de questões compartilhadas por muitos da plateia.

Matheus Cardos, por exemplo, contou como ter crescido em um bairro com pouca infraestrutura foi gatilho para seu projeto Moradigna, que oferece reformas de baixo custo para casas periféricas.

Primeiro Fórum de Negócios Periféricos

Já as empreendedoras Adriana Barbosa, da Feira Preta, e Eliane Dias, CEO da Boogie Naipe, contaram sobre o desafio de serem mulheres e negras em um cenário de poucas e desiguais oportunidades. “Minha narrativa foi em cima da potência e abundância da cultura negra, e não de mazelas, como o mercado geralmente faz, por isso acho que deu certo”, concluiu Adriana.

DJ Bola finalizou muito orgulhoso o primeiro Fórum NIP Negócios de Impacto Periférico na expectativa de que seja o percussor de muitos. “Na quebrada demorou muito para virar a chave de fazer por amor ou por sobrevivência. ‘Como vou colocar valor financeiro em algo que faço por muito tempo’ ou ‘Como encontrar naquilo que se faz por afeição valor’ são questões que queremos provocar na base, como também fazer os fundos, famílias e negócios acostumados a investir acessarem esse novo território”.

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