Professor é peça-chave no uso da tecnologia a favor da educação

30 de dezembro de 2019

Lucia Dellagnelo, diretora-presidente do Centro de Inovação para Educação Brasileira (Cieb), fala sobre a importância das competências digitais para professores no século XXI.


Que habilidades os professores precisam ter na era digital? Para Lucia Dellagnelo, diretora-presidente do Centro de Inovação para Educação Brasileira (Cieb), além de competências específicas, é importante que os educadores saibam como formar cidadãos conscientes no mundo digital.

A questão foi um dos temas abordados no enlightED, evento de educação realizado em outubro de 2019 em Madri, na Espanha, no qual Lucia foi palestrante. A especialista, que é doutora em Educação pela Universidade de Harvard, acredita que a tecnologia é a grande promessa da educação, mas ainda é preciso saber como usá-la nas escolas e, assim, impulsionar a inovação, que só é possível com uma educação de qualidade.

O Brasil ocupa as posições 57º em Leitura, 70º em Matemática e 64º em Ciências, de acordo com o último ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), feito em 78 países. Apesar dos desafios, Lucia Dellagnelo celebra a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e indica as habilidades que todos educadores e estudantes devem.

 

Qual a importância das competências digitais para os professores?

Lucia Dellagnelo: Se nós não preparamos o professor para incorporar a tecnologia nas suas aulas e na maneira com que ele ensina, provavelmente a tecnologia não vai ter um impacto muito positivo na qualidade da educação.

O professor é uma peça-chave, porque a tecnologia tem que transformar a maneira dele de ensinar, e a pedagogia, dando aos alunos a oportunidade de ter um ensino mais personalizado, de receber conteúdos que realmente respondam às suas necessidades de aprendizagem e, principalmente, que permitam ao professor também avaliar esse aluno e ver como ele está progredindo no seu processo de aprendizagem.

Dessa forma, o professor vai conseguir que todos os alunos, independente de seu ritmo e de seu histórico, de fato aprendam.

 

Qual a dificuldade que os professores enfrentam ao não serem nativos digitais?

Lucia Dellagnelo: Os estudantes são usuários de tecnologia, mas poucos deles entendem, por exemplo, o que é essa tecnologia, como ela funciona, quais são as implicações éticas e morais do uso dela. Os professores também são usuários. Quando você pergunta para o professor se ele usa tecnologia, ele responde “claro que eu uso, eu uso whatsapp, eu uso mensagem, eu uso rede social”. O que ele não sabe é como incorporar isso na sua maneira de ensinar. Então, tanto professores quanto alunos têm muito a aprender sobre tecnologia. E a gente pode fazer isso junto.

É meio falacioso dizer que é preciso ensinar os professores porque os alunos são nativos digitais e sabem tudo de tecnologia. Não é verdade! A Base Nacional Comum Curricular, que é o Currículo Nacional aprovado agora no Brasil, coloca como uma das competências gerais que todos os alunos brasileiros desenvolvam a competência geral 5, que é compreender, utilizar e criar novas tecnologias.

 

Por que a discussão do uso ético da tecnologia é importante?

Lucia Dellagnelo: É muito importante porque a tecnologia cria um novo espaço público onde ainda não ficou claro quais são essas regras de convivência que nós teremos nesse mesmo espaço. Há defensores que dizem que a tecnologia ajuda a democracia e outros que afirmam que ela atrapalha porque cria bolhas, círculos onde você realmente não discute com toda a diversidade que existe na sociedade. Ela dá a falsa impressão de que estamos nos comunicando com a sociedade como um todo, mas isso não é certo. Ela cria subgrupos onde a gente se comunica. Então, essas novas regras, estes comportamentos éticos ainda não estão bem definidos e vão precisar ser discutidos tanto pelos professores quanto pelos alunos.

 

Embora no Brasil o uso das redes sociais esteja muito disseminado, ainda há muitas pessoas fora do universo das tecnologias digitais?

Lucia Dellagnelo: O Brasil tem um nível de adoção muito rápido. As pessoas adotam as tecnologias de maneira muito rápida, mas também as abandonam e há falta de criticidade. Quando se pergunta a alguém o que é um algoritmo ou qual é o usado pelo Google, para recomendar alguma informação, elas não sabem.

Nós somos grandes usuários, mas ainda somos só consumidores de tecnologia e não realmente usuários críticos que conseguem entender as implicações que essa tecnologia traz para a nossa vida cotidiana.

 



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