Professoras do ensino público falam sobre os desafios da profissão

07 de março de 2018

Educadoras de duas gerações de uma escola da rede municipal de São Paulo conversam sobre as perspectivas da sala de aula

Professoras Lúcia de Oliveira Francisco, de 60 anos, e Gisele Paneque da Silva, de 25, trocam sobre diferentes fases da vida de um educador

Será que os desafios do dia a dia escolar mudaram ao longo dos últimos anos? Quais são as expectativas de professores em diferentes estágios da carreira? As percepções sobre colegas, escolas ou alunos se alteram com a experiência?

Para responder a essas perguntas, convidamos para um bate-papo duas professoras da EMEI Professor Alceu Maynard de Araujo, localizada no bairro do Bom Retiro, na região central de São Paulo.

Lúcia de Oliveira Francisco acaba de completar 60 anos, boa parte deles vividos em sala de aula. Com 20 anos de atuação na prefeitura e cinco no Estado, ela acaba de pedir a aposentadoria. “Não estou preparada. Quando sair publicada no Diário Oficial, acho que desabo. A escola é minha vida. Eu queria continuar trabalhando até os 70, 75 anos”, diz a educadora que se orgulha de ter o livro ponto impecável e dos 90 cursos que fez ao longo da carreira.

Gisele Paneque da Silva, 25, está começando sua via profissional agora, apesar de já ter cursado magistério, Pedagogia e pós-graduação em Psicopedagogia. Atua na prefeitura da capital paulista desde 2015 e confessa ter receio sobre o futuro. “Com tanta mudança acontecendo no Brasil e na educação, só espero realizar meu trabalho com qualidade, saúde e dignidade”, diz.

Passado e presente

Dar conta de uma sala cheia, com 35 alunos, é um dos maiores desafios para Gisele. “Isso dificulta em tudo, principalmente em trabalhar a inclusão em sala de aula”. Ela também sente falta de maior troca de experiências com os colegas. “O que mais me deixa frustrada é quando aquela pessoa que está no mesmo barco que você, com os mesmos desafios, não te ajuda”.

Lúcia pensa mais nos desafios fora dos muros da escola, como aumentar a participação dos pais, e sente um certo desânimo nos professores novatos. “Sinto que eles já chegam desmotivados, e acho que tem a ver com a nossa política e com o sistema”, observa. Ela critica a falta de plano de carreira na educação infantil e defende maior exigência com a formação desses professores, além da existência de projetos de educação para orientar o trabalho em sala de aula.

Para ajudar a dar um panorama mais completo da profissão docente e entender as mudanças de expectativas de duas profissionais com diferentes trajetórias, as professoras desempenharam os papéis de entrevistada e entrevistadora. Confira a seguir:

 

Gisele: Percebeu alguma diferença entre as crianças e as famílias no início da sua carreira e agora?

Lúcia: Eu acho que as famílias estão cada vez menos participativas. Eu não sei se a vida piorou, mas eu percebo que os pais estão deixando a educação da criança para a escola. Já as crianças estão mais indisciplinadas, impacientes, com menos limites. Acho que é reflexo da nossa sociedade atual, muito tecnológica, muito apressada.

 

Lúcia: Qual a sua opinião sobre a política educacional da rede municipal de São Paulo?

Gisele: Em comparação à rede particular, onde também atuei, eu acho a rede municipal muito boa. Para quem quer seguir carreira no magistério, para quem gosta da sala de aula, quer estabilidade e uma boa infraestrutura, penso que a Prefeitura de São Paulo ainda é a melhor opção.

 

Gisele: Pensando no lado profissional, qual a principal diferença entre você no início da carreira e agora prestes a se aposentar?

Lúcia: Agora, com mais experiência, estou mais calma, com mais desenvoltura, além de confiança e segurança em meu trabalho. Mas isso é coisa que a idade dá. Em certas situações, já consigo enxergar lá na frente, sei onde está a dificuldade.

 

Lúcia: O que você poderia propor em relação às necessidades de mudanças nos processos que envolvem a escola?

Gisele: Reduzir o número de crianças em sala de aula é fundamental. Acho que as gestões podem pensar não só na formação do professor, mas também em sua saúde e acolhimento.

 

Gisele: Ao olhar para trás, tem algum arrependimento ou frustração?

Lúcia: Nenhuma. Eu vivo aquele ditado que diz “se arrependa apenas do que não fez”. Se pudesse voltar no tempo, faria tudo igual, seria professora de novo. Mas eu posso dizer que eu deveria ter aprendido mais coisas, como tocar um instrumento musical ou fazer aula de artes. Mas tenho tempo. Eu ainda vou aprender a tocar violão ou sanfona, viu?

 

Lúcia: Em sua opinião, o currículo referente à educação infantil está adequado à realidade escolar?

Gisele: Não. Apesar dos inúmeros estudos de neurociência que falam sobre aprendizado para crianças, acho que atuamos de maneira meio intuitiva. Consciência fonológica, por exemplo. Existem outras técnicas para desenvolver isso na criança além de leitura e escrita, mas a gente não explora. Também deixamos de sistematizar conhecimentos importantes, como matemática e raciocínio lógico, com medo da escolarização precoce.



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