Programa de voluntariado revitaliza escola de Sergipe

18 de julho de 2019

Os estudantes ganharam quadra de esportes, horta para melhorar a alimentação, conheceram novas culturas e estreitaram o contato com as tecnologias digitais


No nordeste do Brasil, a chuva é sempre bem-vinda. É ela que enche os açudes que vão abastecer o sertão para os longos períodos de seca. Neste inverno, veio torrencial, desafiando a criatividade de um grupo de 15 colaboradores do Grupo Telefônica que participava de uma ação de voluntariado inédita em Sergipe.

Durante as duas primeiras semanas de julho, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Frei Fernando recebeu o Programa Vacaciones Solidárias que trouxe colaboradores de diversos países do Grupo Telefônica para desempenharem ações voluntárias.

Vindos de Argentina, Uruguai, Peru, Equador, Colômbia, México, Espanha, França, além do sul e sudeste do Brasil, trabalharam para tornar a aprendizagem na escola mais significativa e atraente. Divididos em grupos, revitalizaram espaços, criaram uma horta para melhorar a alimentação dos alunos e ainda ajudaram a potencializar o uso de tecnologias digitais nas aulas.

“Eles vieram de longe, deixaram suas famílias e trabalharam duro para transformar nossa escola”, exalta a diretora Cristiane Lima de Carvalho. “Não tinham experiência em cultivar a terra, não são educadores de formação e olha tudo o que conseguiram! Por isso nos deixam com a certeza de que juntos podemos fazer qualquer coisa”.

 

Quando o novo e o velho se encontram

A EMEF Frei Fernando integra a rede municipal de São Cristóvão, a primeira capital do Sergipe e 4ª cidade mais antiga do Brasil, fundada em 1590. O patrimônio nacional é, hoje, uma região em vulnerabilidade social.

Desde 2017, é um dos 46 municípios em Sergipe contemplados com o projeto Aula Digital, que atende 585 escolas no Estado e faz parte do ProFuturo, um programa que promove a educação digital de crianças e jovens na América Latina, África e Ásia.

Todas as 16 escolas públicas de Ensino Fundamental I do município de São Cristóvão são atendidas pelo Aula Digital. Como parte do projeto as instituições de ensino recebem maletas com tablets para uso em aula e os educadores recebem formações.

Parte importante da missão do programa de voluntariado era potencializar o uso da tecnologia nas diferentes disciplinas curriculares. Logo que chegaram, os voluntários passaram por atividades formativas com o kit do Aula Digital.

Depois, pensaram em dinâmicas que integrassem os conteúdos offline e online de modo a tornar mais significativa a experiência de ensino-aprendizagem.

O formador Maxuel Barbosa Domingos, que atende a Frei Fernando e mais dez escolas no município, afirma que todas têm em comum certo receio de agregar a tecnologia ao modo como estão acostumadas a ensinar. Por isso, ele vê muitos benefícios na integração dos projetos Aula Digital e Vacaciones Solidárias.

“Os voluntários vão deixar essa sementinha de que o uso da tecnologia de forma orientada vem para agregar. Eles demonstraram aos professores que é possível desenvolver os alunos com atividades lúdicas e novas metodologias de ensino”, relata Maxuel.

Recém-chegada na escola, a professora Osana Pereira Rodrigues se mostrou surpresa com a ajuda dos voluntários, que acabaram trabalhando o conteúdo que ela daria em três disciplinas. “Na aula de Matemática, por exemplo, fiz a introdução e eles, sem saberem, concluíram meu trabalho. Na aula de Ciências foi o contrário: eles fizeram a introdução do tema que eu ia dar aula. Só tenho a agradecer por toda essa ajuda”.

 

De cara nova

O espaço físico da escola Frei Fernando também precisava de mudanças. Os dois terrenos que abrigam as crianças da educação infantil e do fundamental I eram divididos por um gramado alto, que deixava a área externa inutilizável. Em consequência disso, apenas o pequeno pátio no meio das salas era usado para lazer, o que obrigava o recreio a ser realizado em dois momentos com a separação da turma em grupos.

Os voluntários abriram uma porta entre os muros para integrar as duas unidades, cortaram e trataram a grama, construíram um parquinho de madeira e três quadras para iniciação esportiva de vôlei, futebol e basquete.

“Nossa escola vai ficar muito chique!”, “Sou pró em basquete! Agora vou poder brincar”, “Tá ficando muito linda”, comentava um grupo de crianças de seis e sete anos que assistia à demarcação das linhas no campo.

No terreno atrás das salas de aula, uma horta foi plantada. A partir de agora, as crianças vão poder cuidar das mudas de coentro, alface, salsinha e cebolinha e, mais tarde, usá-las para incrementar o cardápio oferecido pela escola.

“Trabalho com vendas num escritório. Nunca tinha mexido na terra e jamais pensei que conseguiria montar uma horta do zero. É impressionante como a gente descobre que sabe fazer coisas que nem imaginava”, definiu o uruguaio Fabrício Silveira.

 

Contornando imprevistos

O trabalho estava adiantando quando a chuva torrencial começou e atrapalhou os planos iniciais do grupo de voluntários de decorar o pátio para brincadeiras. Mas se tem uma coisa que o Vacaciones Solidárias sempre desperta é, justamente, a resiliência.

“Eu acho que parte da seleção de colaboradores do programa passa pela avaliação da capacidade de improvisar, porque aqui é o que mais a gente faz. Ainda mais com essa chuva toda”, definiu o argentino Roque Ruben Sanchez.

Diego Ortiz da Silva, de Curitiba (PR), considera que a chuva até ajudou. “Em vez de pintar no pátio, decidimos fazer em tapetes que terão maior durabilidade e poderão ser utilizados pelas professoras em outros espaços. No fim, saiu melhor do que planejamos”, comemora.

Se o aguaceiro atrapalhou as atividades nas áreas externas da escola, também despertou a criatividade dos voluntários, que transformaram uma geladeira abandonada em uma biblioteca recheada de livros, alguns trazidos de seus países.

“Penso que este intercâmbio de culturas, costumes, músicas e tradições foi muito importante tanto para as crianças, que tiveram seus mundos ampliados, quanto para nós. Viemos de outras regiões e pudemos entender um pouco do contexto delas, com suas maravilhas e necessidades”, define a espanhola Ane Urain Gurruchaga.

A professora do 1º ano, Ceiça, estudou na EMEF Frei Fernando quando criança e trabalha há mais de 25 anos na instituição. Durante todo esse tempo, nunca viu tamanha transformação na escola.

“Foi uma troca mútua de experiências, com aulas inovadoras, com conhecimento de novas culturas dos países dos voluntários. Nós estamos muito agradecidos por todo o legado que eles nos deixaram”, relata.

 

Emoções que transbordam

O coração é o maior motor do projeto Vacaciones Solidárias. A convivência intensa firma laços. “O amor que as crianças nos dão é algo inexplicável. Elas abraçam, beijam, escrevem cartinhas, dão presentes. Uma delas pediu para a mãe revelar a foto que tiramos juntas para que eu nunca me esqueça dela. Foi lindo demais!”, conta, com os olhos marejados, a voluntária Bianca Albuquerque Guerra, de São Paulo.

A intensa convivência também faz com que os voluntários criem, entre eles, relações de afeto. A argentina Viviana Andrea Prado deixa o Brasil com a certeza de que a experiência transformou a todos:

“Nós criamos um espaço onde todos nos descobrimos como seres humanos. A convivência e a união nos deixou livres para sermos quem realmente somos. A essência de cada um vai surgindo e, no meio disso, acabamos desenvolvendo flexibilidade e tolerância para lidar com o diferente. Isso é muito potente”.

E a corrente de afeto alcança distâncias. Foi o período mais longo que o voluntário de Itanhaém (SP) José Marcos Novaes ficou longe da esposa e do filho. “A saudade aperta bastante, mas a força vem de saber que estou trabalhando por um bem maior”.

Em uma roda de conversa, já no último dia na escola, ele emocionou a todos ao relatar que o filho de 21 anos ligou para dizer que o amava. “Às vezes é só longe de casa para entender a importância de ouvir isso. Somos todos carne e osso. Não vamos levar nada desse mundo, então tudo o que podemos fazer é deixar coisas boas e palavras de amor”.

A cada edição, o Vacaciones Solidárias prova que solidariedade, afeto e engajamento deixam marcas profundas por todos os lados: nas escolas, nas cidades, nos participantes e, mais do que isso, um legado do bem que pode se estender por gerações.

“O mais bonito é que temos a chance de despertamos nessas crianças um espírito voluntário. Com certeza quando elas forem adultas vão se lembrar dos voluntários que trabalharam para transformar a escola delas. É algo que se espalha, uma corrente do bem que se fortalece”, acredita Luanda de Lima, gerente de comunicação e voluntariado da Fundação Telefônica Vivo.



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