Projeto Âncora: aprendendo de maneira autônoma e afetiva

01 de setembro de 2016
Projeto âncora: aprendendo de forma autônoma e afetiva

Sem avaliação e com classes multisseriadas, a escola preza por um aprendizado inovador, onde a criança escolhe o que quer aprender.

Uma escola que aposta na criança como um ser autônomo, que persegue seus sonhos – desde reciclar com consciência até ser astronauta – é o que norteia os processos pedagógicos do  Projeto Âncora, localizado na região de Cotia (SP).

Quando Walter e Regina Steurer criaram a ONG Projeto Âncora, em 1995, o fizeram para que crianças da região de Cotia tivessem uma opção de contraturno – famílias de baixa renda, cujas mães tinham que trabalhar, eram acolhidas no projeto. Não demorou muito para que percebessem que o que as crianças aprendiam dentro do Projeto Âncora era muito diferente da realidade de outras escolas. Eles sonhavam em fazer uma escola única e para a vida, mas também temiam a dificuldade de fazê-la.

Em 2011, o Projeto Âncora encontra o educador português José Pacheco. O idealizador da Escola da Ponte, referência em aprendizado autônomo, é acolhido pelos educadores do projeto em Cotia para pensarem um novo espaço pedagógico. Não havia o desejo de replicar a experiência em Portugal; a escola Projeto Âncora deveria nascer de anseios e necessidades específicas da comunidade que a cercava.

Suzana Maria Camargo, coordenadora-geral do projeto, lembra muito bem a sensação que a acometeu no primeiro dia da aula, no ano letivo de 2012. “Já começamos de maneira diferente. As crianças foram recebidas no circo, ficaram em grupos heterogêneos e foram auxiliadas tanto por educadores como por pais”. Quatro anos depois, cerca de 200 crianças em educação infantil e fundamental são atendidas em espaços que vão desde amplos salões de aprendizado, pistas de skate até uma grande e colorida lona de circo. Os preceitos que guiaram os primeiros dias ainda se mantêm: não há séries e o aprendizado dos alunos não provém de uma grade curricular fixa.

Quando uma criança chega à escola, ela passa por um processo de alfabetização que vai muito além de disciplinas. “Parafraseando o professor Pacheco, a pessoa precisa aprender a aprender. Na iniciação, ela irá se munir dos conhecimentos para se desenvolver dentro do projeto e também se alfabetizar em valores como respeito, responsabilidade, solidariedade e afetividade”, complementa Suzana. Esse processo não vale somente para a criança, como também para o educador que inicia seu trabalho na escola ou um voluntário.

Terminada a inicialização, os alunos começam a etapa do desenvolvimento: “Na escola tradicional, o ponto de partida são as matérias e depois vem a criança. No Projeto Âncora, são as crianças e a comunidade que começam tudo”, explica Suzana. Quando uma criança sugere o que quer aprender, um tutor irá desenvolver com ela um projeto que abarque as disciplinas a partir de seu ponto de interesse. Na prática: se uma menina quer aprender sobre o hábito alimentar dos tubarões, seu tutor irá traçar metas de aprendizado em áreas diversas como geografia, biologia e português. O Projeto Âncora segue todos os parâmetros curriculares a que outras escolas são submetidos; o aprendizado só acontece de maneira invertida.

A avaliação do desempenho da criança não se dá por meio de provas ou testes, e sim de forma contínua. O processo de tutoria se apoia nesse educador que abre caminhos e mostra possibilidades para o aluno; ele não apenas avalia a criança, como também a encoraja a se autoavaliar. Se crianças têm projetos em comum, elas podem juntar-se independentemente de suas idades para projetos como engajar-se na coleta de lixo, adquirir novos objetos para o laboratório ou cuidar de grupos de responsabilidade contra o bullying.

O projeto pedagógico da Escola Âncora está longe de ser definitivo: à medida que a maneira de aprender dos alunos se transforma, também se transforma a escola que parte dos anseios deles. Está em andamento o projeto de abrir vagas para o ensino médio, o que permitiria que crianças e adolescentes passassem sua vivência escolar e sua escolha vocacional em um espaço onde o que é disruptivo tem a ver com um entendimento simples: o que a criança deseja é o que vai guiar sua trilha de aprendizado. “Nós não preparamos nossos alunos para a vida”, finaliza Susana. “Nós os preparamos na vida. E isso faz toda diferença.”



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