Projeto ensina programação para refugiados na Holanda

18 de dezembro de 2017

 

migrantes_hack_your_future_736x341

O Hack Your Future nasceu em 2016 e busca oferecer novas oportunidades a quem chega ao país

O que acontece depois que refugiados conseguem se estabelecer em países europeus?  E depois que o asilo é concedido, como reconstroem suas vidas? O Hack your Future é um projeto que nasceu em 2016 na Holanda e que busca proporcionar novas oportunidades de vida a quem chega ao país.

O projeto dá suporte a estrangeiros ensinando programação e, ao mesmo tempo, os insere na cultura holandesa e no mercado de trabalho.

Saiba no artigo a seguir como o programador holandês Gijs Corstens criou o Hack your Future, uma iniciativa que une tecnologia e empreendedorismo social, criando uma verdadeira corrente do bem. E conheça também um pouco da história do sírio Mhimid Dbis, que encontrou no Hack your Future a possibilidade de uma nova vida na Holanda.

Texto originalmente publicado em inglês na plataforma acitymadebypeople.com, por Asha Indralingam, com o título Hack Your Future – The Story of Amsterdam’s Refugees Turned Coders. Imagens: Richard Rigby

Três anos atrás, Abdul Rahman Mhimid Dbis era um adolescente típico de 19 anos. Em seu segundo ano como estudante de tecnologia da informação, ele também gostava de escrever em blogs sobre privacidade e segurança virtual. Para ele, sua casa era em Hamah, onde ele tinha amigos e uma vida social. De forma geral, estava tudo perfeito.

Mas Dbis é sírio, e em algum ponto do começo de 2015, sua vida e qualquer sensação de normalidade foram ameaçadas pela guerra civil em erupção no seu país natal. Então, como outros 65 milhões de pessoas que deixaram suas casas para escapar de conflitos e perseguições no último ano, Dbis deixou a dele.

Eventualmente, ele chegou à Holanda, a procura de asilo e de uma nova vida. Ainda assim, para refugiados como Dbis, chegar à Europa é apenas metade da batalha. Uma vez lá, eles têm de enfrentar um arsenal único de obstáculos que os colocam em desvantagem para entrar no mercado de trabalho.

Programador holandês Gijs Corstens é o criador do hack your future

Gijs Corstens é um empreendedor holandês politicamente ativo e muito atento a essa assombrosa realidade. Notando o fluxo de refugiados, Corstens pesquisou e descobriu estatísticas chocantes. Segundo o Instituto de Pesquisa Social de Amsterdã, apenas um 1/4 dos migrantes asilados tiveram um trabalho depois de dois anos, e pouco menos de 50% encontrou trabalho dentro de 10 anos.

“Pensei sobre o que mais me preocuparia se estivesse no lugar de um imigrante. Para mim, se você não pode encontrar um trabalho, tudo que você faz é ficar de lado e ver a sociedade avançar na sua frente”, diz Corstens, que já atuou como investidor de risco e com startups. “A maioria dos refugiados trabalha durante toda a sua vida, e agora eles não têm nada a fazer além de sentar em acampamentos improvisados. Não poder contribuir com seu novo país é difícil para eles. E era isso que eu via como problema principal”.

Foto de perfil de homem debruçado sobre mesa usando notebook

Corstens fundou, então, o Hack your Future em 2016, uma escola de programação que treina refugiados para se tornarem desenvolvedores de software. O programa é um resultado direito do que Corstens considera como solução para um problema de mão dupla. “Existe uma necessidade de desenvolvedores habilitados na Europa e existe um grupo de pessoas com desejo de aprender”, diz o desenvolvedor, que aprendeu a programar sozinho. “Eu tinha uma tese, e decidimos então juntar um bando de voluntários desenvolvedores com refugiados em uma sala e ver o que acontecia”.

O projeto se tornou um programa de seis meses estruturado nos valores do FreeCodeCamp (plataforma que incentiva o livre aprendizado de programação). Corstens e seu time promoveram o projeto dentro de grupos de Facebook como o Refugee Start Force, que tenta diminuir a distância entre os cidadãos holandeses e os refugiados.

A seleção dos estudantes tem critérios como ser capaz de falar inglês – o suficiente para compreender as instruções em sala de aula – e a capacidade de avançar por uma série de testes básicos sobre programação. Os interessados variam em idade e grau de profissão, com alguns possuindo graduação em Direito ou Engenharia Elétrica e outros que sem terminar o ensino médio.

Desde então a escola aceitou mais de 100 estudantes no programa. Eles geralmente são homens, a maioria descendente de sírios, ou seja, a população mais atingida em sua terra natal e também a com mais chances de sobreviver à viagem para a Europa. Mulheres raramente se inscrevem no programa. Corstens suspeita que as refugiadas em Amsterdã, muitas vindas da Somália e da Eritreia, geralmente não se veem como capazes de aprender, um estereótipo que ele está tentando ativamente lutar contra.

“Se alguém está com muita vontade de aprender e você o conecta com pessoas que são apaixonadas pelo o que fazem, você cria uma incrível energia. Nós vemos pessoas crescerem rapidamente”, diz. “Há também uma sensação de completude para os professores, diretamente impactados pela experiência”.

Um pouco depois de um ano de sua vinda para Amsterdã, Dbis passou por Ter Appel, o maior centro de processamento de dados de refugiados. Ele ganhou asilo, teve aulas de holandês na universidade de Amsterdã e atualmente está fazendo um curso na sua área. Mas talvez sua maior conquista tenha sido se graduar no Hack Your Future, onde ele hoje se voluntaria como instrutor.

Outros graduandos do programa partiram para conseguir bolsas e trabalhos em grandes multinacionais. “Passar pelo Hack your Future faz com que eles repensem sobre quem são e quem podem ser. Ao invés de serem refugiados, eles são agora desenvolvedores de softwares”.

 Homem de meia idade aponta para dados projetados sobre tela em apresentação

Leia também:



Deixe uma resposta aqui