Projeto ouve crianças e adolescentes e repensa uma cidade mais justa e politicamente ativa

20 de abril de 2016

Em gravações, Projeto Jaê reúne depoimentos da juventude que debate melhorias para o bairro e seus entornos.

Seu habitat natural são as gangorras e os balanços da praça. Sabem de cor o nome das ruas que circulam suas escolas, e gostariam que os carros ali passassem gentilmente lentos, como lesmas, para que brincar nunca fosse perigoso. Eles não pensam em árvores de chocolate ou unicórnios montáveis. Quando crianças são convidadas a repensar a cidade, elas querem o que enxergam possível: um bebedouro para matar a sede na praça, mais pontos de ônibus, um canteiro com hortas públicas.

O projeto Cala-boca já morreu no próprio nome tem definido que sua proposta de educação trabalha com a abertura da boca e, principalmente, a dos ouvidos. Os adultos e jovens corresponsáveis pelo projeto entenderam que a idade do saber é toda idade – a criança que vai para creche já desenvolve uma capacidade de memória afetiva e geográfica que a acompanhará até sua adolescência. É por acreditar e vivenciar diariamente a competência dos jovens, tendo-os como iguais na construção de saberes e soluções, que o projeto trabalha com o fortalecimento de indivíduos.

Fortalecer o indivíduo é acreditar que ele é pleno desde sua concepção, e que quando fala, de sua boca de dentes de leite saem políticas e projetos brilhantes. Por isso, e com grande alegria, o Cala-boca se inscreveu no edital Redes e Ruas, criando assim o Jaê. Com ferramentas simples como gravadores e ouvintes dispostos, o projeto Jaê procura mostrar como São Paulo pode ser melhor, além de garantir um local de manifestação para que crianças e adolescentes falem abertamente da cidade em que gostariam de viver.

Grácia Lopes, educadora e uma das corresponsáveis pelo projeto, conta do Jaê. “Ele diz claramente do quanto é importante que crianças e adolescentes sejam ouvidos. O quanto sua fala é uma ação política de fortalecimento”. A metodologia do Jaê navega contra uma correnteza dita como natural nos processos envolvendo jovens: a criança não é objeto de pesquisa, ela é seu sujeito. Os depoimentos, embora possam ser analisados, são importantes somente pela sua existência.

A corresponsável Milena Klink foi uma das mediadoras das oficinas que, como explica, nasceram da experimentação e do desejo genuíno de ouvir. A primeira parte do projeto era cartolina, cola e desenho. As crianças das cinco regiões paulistas eram mediadas em grupos, falando sobre o que conheciam dos telecentros – lugares, geralmente, como bibliotecas ou escolas e – do que havia em seu entorno. Diziam do que gostavam e do que não. A segunda parte do exercício foi pensar quais eram suas propostas para a cidade desejada. “Falamos para que eles criassem coletivamente, perguntando o que tinha de ter em uma cidade para que ela fosse boa. Íamos provocando”, ela conta.

Posteriormente, as falas foram condensadas em programas de rádio disponíveis online. O resultado é uma provocação sonora aos lugares comuns em que se colocam a infância e a adolescência: criança não é sinônimo de lúdico, juventude não é sinônimo de indiferença. “Quando se fala em infância, vêm os estereótipos do imaginário e da brincadeira. Não é nada disso. Todos disseram da realidade deles. Tem a hora de brincar e a hora de falar mais sério. Por exemplo, se a criança fica muito tempo brincando na praça, ela pergunta por que não tem bebedouro nem banheiro nela, ou porque não tem brinquedos de crianças mais velhas”, relata Milena.

O senso de coletividade dos jovens é pungente, desmentindo a ideia de que essa é uma fase individualista. “Todos trazem essa coisa do público, de oferecer coisas boas para todos. Quando pensamos um nome para o território, eles sugeriram ‘cidade para todos’ ou ‘cidade de graça’. Quando indagados de onde essas coisas viriam, suas respostas não são ingênuas: dos impostos”. O lúdico não fica restrito às crianças; brincar continua correndo na veia dos adolescentes, que também querem uma pista de skate, um lugar para sentar e comer amoras.

A escola é peça central de muitas das respostas, para o bem e para o mal. Ao mesmo tempo em que ela serve como centro de referência para se imaginar e reivindicar, também pode ser o lugar onde a imaginação não tem vez. “É interessante perceber como a escola X, com tantas dificuldades, interfere no modo como eles olham para a própria cidade”, fala Milena. Em torno dessa escola, transporte, moradia, saúde e lazer são assuntos discutidos com mestria, permeando-se, mostrando que elas têm noção de que a cidade boa e quais áreas funcionam em harmonia.

Arquitetos que constroem escolas, urbanistas que desenham as praças, educadores que pensam suas aulas; adultos tão cheios de conhecimento, tão prontos a pensar que fazem para as crianças, e não com elas, precisam imergir dentro dos depoimentos. A cidade das crianças e dos adolescentes é muito real e possível, e começa quando são escutadas.



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