Quatro premissas para a adoção de STEAM nas escolas brasileiras

28 de novembro de 2018

A investigação científica pode transformar o ensino, mas existem alguns desafios a serem superados para que os alunos aproveitem o potencial da metodologia

Imagem mostra Anna Penido falando ao microfone. Ao fundo estão outros palestrantes do Educação 360 STEAM, como Maria Conceição, do Sesi, e Alexsandro, do Instituto Unibanco.

Na última segunda-feira (26), cientistas, educadores e pesquisadores se reuniram no Rio de Janeiro para mais uma edição do evento Educação 360, realizado pelos jornais O Globo e Extra, com o apoio da Fundação Telefônica Vivo. O encontro apresentou reflexões sobre os desafios e as oportunidades do STEAM, metodologia que incentiva a ciência e a tecnologia nas escolas.

Criado nos Estados Unidos nos anos 90, o conceito nomeado pelo acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática partiu da constatação de que há um desinteresse de alunos pelas ciências exatas, o que reflete na escassez de profissionais formados na área, um entrave num mundo cada vez mais tecnológico.

A valorização de STEAM nas escolas prevê um conjunto de conhecimentos técnicos essenciais e contemplam investigação científica, desenvolvimento de pensamento computacional e cultura maker. O ‘A’, referente às artes, foi adotado mais recentemente, num entendimento de que o estudo das humanidades adiciona uma sensibilidade importante para a formação integral do estudante.

A adoção de metodologias pautadas pelo STEAM nas escolas brasileiras tem potencial transformador, uma vez que aumenta o protagonismo do aluno, incentiva a criatividade, a inovação e a colaboração e dá mais sentido ao aprendizado. Isso pode fazer diferença diante dos desastrosos resultados do Brasil no ranking mundial do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa) – entre 70 participantes, somos o 63º colocado em ciências e o 66º em matemática.

A perspectiva não é melhor no ensino superior, como apresentou Paulo Mól, diretor de operações do Sesi: “15% da população de 25 a 64 anos tem ensino superior completo. Destes, apenas 16% são formados nas áreas exatas. Um país que quer ser inovador não pode ter uma representatividade tão pequena!”. Porém, a efetividade do STEAM nas escolas brasileiras começa a partir do entendimento dos quatro apontamentos, a seguir listados pelos especialistas durante o evento Educação 360. Confira:

Ressignificação escolar além da mudança do currículo

Não basta aumentar a carga horária de ciência e matemática. A metodologia envolve toda uma mudança de comportamento nas escolas, com maior protagonismo ao estudante. O currículo sai do engessamento característico e contempla demandas atuais da sociedade.

A Rede SESI de Minas Gerais, formada por 38 escolas, mais de 15 mil alunos e 937 docentes, decidiu apostar na transformação para recuperar o entusiasmo de alunos e professores.  A superintendente de educação Maria da Conceição Caldeira contou, no painel STEAM nas Reformas – BNCC e Ensino Médio – e Cultura Digital no Brasil, que o primeiro passo foi a escuta dos professores. “Foi um momento que exigiu de nós muita humildade para reconhecer que tínhamos falhas”.

Depois era hora de mexer na estrutura pedagógica, reorganizar os currículos com foco em habilidades e competências, ampliar carga horária, incluir o ensino por projetos de vida, investir em tecnologia, além de incentivar a participação em competições e olimpíadas.

Tudo isso representou uma mudança de foco: em vez de preparar para o mercado de trabalho, o investimento passou a ser no autodesenvolvimento dos estudantes e na valorização de profissionais.

Diversidade e inclusão são indispensáveis

É preciso romper com o estereótipo do cientista homem branco, meio maluquinho, de jaleco e óculos, como levantou Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare. “Os brasileiros não se enxergam como cientistas. Precisamos quebrar isso estimulando a curiosidade intelectual desde cedo”.

Outros palestrantes alertaram para a marca do racismo estrutural e das desigualdades brasileiras cravadas também na ciência e tecnologia. De acordo com dados apresentados no painel Mulheres em STEAM, somente 30% dos pesquisadores do mundo são mulheres, apenas 20% das mulheres brasileiras têm bolsa para iniciação científica e 60% das mulheres que trabalham com ciência e tecnologia já sofreram assédio.

“Equidade de gênero não é mimimi. As meninas precisam sentir-se seguras para que ocupem os lugares que quiserem”, declara a mexicana Amalia Fisher, do ELAS Fundo de Investimento Social.

Márcia Barbosa, diretora da Academia Brasileira de Ciências, chamou a atenção para a distinção que começa a ser feita no ambiente escolar. “A escola dissemina a ideia de que os meninos são inteligentes e as meninas são esforçadas”, disse ao apresentar um estudo internacional com o achado.

O enfrentamento se dá pelo empoderamento e pela representatividade. “O debate precisa existir, assim como o incentivo de mais conferências de mulheres e a valorização do estudo de cientistas brasileiras”, complementa.

Os abismos para a equidade são ainda mais profundos, como apontou Alexsandro Santos, especialista-consultor do Instituto Unibanco: “Escola para todos, ensinar a ler e a escrever na idade certa, o domínio do cálculo fazem parte de uma inclusão educacional prometida pelo Brasil no século XIX e que ainda está sendo feita. Ao mesmo tempo, estamos sendo demandados a incluir pessoas na sociedade do século XXI, que traz uma cidadania mais complexa e desafiadora”.

Ele alerta: “se a gente não fizer o pagamento das duas dívidas ao mesmo tempo, com políticas públicas bem estruturadas, vamos cair num abismo social”.

Artes – e as ciências humanas – são a cola do STEAM

Como uma demanda que surge do mercado, há o apelo à valorização técnica. Porém, Gustavo Pugliese, pesquisador da Universidade de São Paulo que se dedica a estudar o STEAM, alerta para o fato de que não podemos deixar que a metodologia seja vista de forma apartada dos conteúdos humanísticos, essenciais para a formação do ser.

“Sou grande entusiasta do STEAM, mas uma crítica que faço é que é muito difícil você ver uma proposta que realmente envolva Artes, que trabalhe educação ambiental e as demandas de sociologia, que discuta a neutralidade da ciência, já que ela é feita por seres humanos”, observa o Gustavo.

Em um mundo cada vez mais dominado por máquinas, empatia e ética precisam estar no centro da discussão.

“Hoje vivemos com robôs, inteligência artificial e aplicativos. A pergunta que eu faço é: vocês gostam da sociedade que temos? Sabem quais violações dos direitos humanos a tecnologia causa? Vocês têm ideia do que pode acontecer se não colocarmos os seres humanos no centro?”, questiona Edson Prestes, professor de informática da UFGRS, ao falar sobre empatia e ética para superar a violação de dados, falta de interação humana e invasão de privacidade.

Da esquerda para a direita, Paulo Mól, diretor de operações do Sesi, fala ao microfone. Ele está sentado no palco do Educação 360 STEAM, ao lado do pesquisador Gustavo Pugliese e do professor Edson Prestes.


O STEAM não veio salvar a educação

A investigação científica, o trabalho por projetos, uso da robótica e da programação e o movimento maker, que fazem parte das propostas do STEAM, costumam ser definidas no Brasil como “metodologias ativas na educação”.

Independente do rótulo usado, a adoção de modelos deve partir de uma intencionalidade do educador. “Nesse sentido, escuta dos alunos e sistematização são fundamentais para dar aprofundamento”, avalia a diretora do Instituto Inspirare, Anna Penido.

Isso significa que a adoção do STEAM por si só não vai ser a solução para todos os problemas da educação. “Houve um tempo em que se falava em equipar a escola com computadores, agora o foco é a busca por metodologias ativas”, diz Gustavo Pugliese.

“O que a gente precisa é deixar de reproduzir modelos e passar à adoção e incorporação de maneira mais crítica e consciente, entendendo de onde veio, para que serve e todos os vieses”, completa o especialista.

Ciência que transforma

Imagem mostra a professora e cientista Joana D’Arc Félix de Souza. Ela é uma mulher negra, tem cabelos cacheados e usa uma blusa vermelha de manga comprida.

Um dos momentos mais emocionantes do Educação 360 foi a apresentação da química, professora e cientista Joana D’Arc Félix de Souza. Saída de uma família pobre de Franca, cidade do interior de São Paulo, ela ingressou na Unicamp aos 14 anos. Aos 25 já era PhD em Harvard. Ao longo de sua carreira, recebeu mais de 70 prêmios e desenvolveu 15 produtos patenteados.

Durante sua palestra, contou sobre o trabalho que conduz na Etec Prof. Carmelino Corrêa Júnior, com bolsas de iniciação científica para alunos envolvidos em tráfico de drogas e prostituição.

Além da redução da evasão escolar, a ciência promove uma verdadeira mudança na vida dos alunos, que tiveram uma série de projetos premiados e patenteados em 30 países.  Foram desenvolvidos, por exemplo, vestuários microbianos, cimento ósseo e pele para transplante feita de pele suína.

“Investir em educação científica é a peça chave para uma sociedade mais democrática, humana e sustentável. Tem o poder de transformar vidas”, declarou Joana D’Arc de Souza à plateia.



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