Tecnologia na escola: aliada ou inimiga?

17 de outubro de 2019

Estudantes, educadores e especialistas dividem suas percepções sobre o papel que o uso da internet e as tecnologias digitais ocupam na relação ensino-aprendizagem.


O uso de tecnologias digitais pela escola é um caminho sem volta, especialmente depois que a Base Nacional Comum Curricular destacou a Cultura Digital como uma das competências gerais para a educação básica. Mas será que a internet melhora de fato a relação de ensino-aprendizagem? Quais seriam os benefícios ou desafios que a conectividade impõe à escola e seus atores?

Algumas destas percepções foram apresentadas na 3ª edição do estudo Juventudes e Conexões, promovido pela Fundação Telefônica Vivo e realizado pela Rede Conhecimento Social em parceria com o IBOPE Inteligência. Foram ouvidos 1.440 jovens internautas de 15 a 29 anos, de todas as classes sociais e todas as partes do Brasil.

Um dos principais achados em relação à educação revela que, de maneira geral, os entrevistados consideram que a internet melhora a dedicação aos estudos, favorece a troca de conhecimento e traz mais flexibilidade ao processo de ensino-aprendizagem.

Por outro lado, o mundo conectado pode aumentar a dispersão e a dificuldade de gerir o próprio tempo, especialmente diante de tantas distrações que a rede oferece, como prova um relato anônimo de um jovem que participou do estudo. “Você abre o YouTube para estudar com um vídeo sério do conteúdo que precisa. Mas, no meu caso, eu começo a estudar cálculo e quando dá meia hora já estou vendo um vídeo de galinha botando ovo”.

Mediação é fundamental

Hemily Correa, de 22 anos, é formada em Ciências Contábeis pela Universidade Estadual do Mato Grosso. A jovem, nascida em Cáceres (MT), afirma que desde a Educação Básica sua relação com a internet nos estudos tem altos e baixos: se, por um lado, toda a informação de que precisa está ao alcance de suas mãos, por outro ela tem dificuldade para encontrar o que precisa.

“Minha geração não foi orientada a usar a internet para construção de conhecimento. Fica parecendo que é tudo liberado, e os impactos disso na era da fake news são profundos. Muita gente faz o CTRL C + CTRL V das informações sem senso crítico. Ou seja, tem-se acesso a tudo e ao mesmo tempo se aproveita pouquíssimo, o que gera muita ansiedade”, define Hemily.

Fazer bom uso da internet para pesquisas é um dos maiores desafios hoje da educadora Ligia Roca, professora de artes e de mídia de uma escola particular na zona oeste de São Paulo.

“Eu percebo que os estudantes têm muita dificuldade em fazer curadoria na internet. Quando o Google traz milhões de resultados, eles pegam os primeiros que aparecem, de qualquer lugar, sem prestar atenção nas fontes. Estou nessa busca de como orientá-los a fazer boas pesquisas”, diz Ligia.

Neste semestre, ela e seus alunos dos anos finais do Fundamental e do Ensino Médio estão trabalhando na construção de um jornal sobre a Amazônia. A saída encontrada por Ligia foi trabalhar de forma coletiva em sala de aula: um dos alunos começa a pesquisa no computador da sala e o resto vai opinando sobre caminhos para uma boa curadoria.

Leia também: Como a escola pode ajudar a combater a repercussão de fake news

“O grande lance do professor é fazer a mediação entre o conhecimento que a escola tem que dar e o mundo do seu aluno. E a tecnologia ajuda muito porque traz mais recursos criativos para dialogar com os jovens. Mas, para isso ser bem feito, você precisa conhecer bem o seu estudante”, aconselha Ligia.

Um bom complemento

Lorian Moreira de Toledo, de 26 anos, sempre encarou a tecnologia como aliada de seus estudos. Tanto que se formou em Design Digital pela Universidade Federal de Pelotas (RS).

“Eu sempre usei a tecnologia para os meus estudos. O formato das aulas da minha graduação já eram mais interativas e coletivas, o que prendia mais a minha atenção do que aulas convencionais”, afirma Lorian.

Ela acredita, no entanto, que o bom uso das tecnologias digitais para o estudo depende de dois fatores fundamentais: a maneira como o professor incorpora os objetos digitais nas aulas e a autodisciplina do estudante, para não deixar que as possibilidades da rede atrapalhem a concentração.

“Uso muito a internet para complementar as coisas que estou aprendendo. Quando eu cursava a universidade, todos os dias eu ia buscar informações extras do conteúdo para tirar dúvidas, me aprofundar em determinado assunto ou buscar referências”, conta Lorian.

Presença ressignificada

O estudo Juventudes e Conexões mostrou que os jovens valorizam muito o professor e a escola como local e fonte para aprender. A internet e todo o universo digital ocupam espaço importante e relevante no cotidiano dessa geração, mas não se destacam como principal referência para as juventudes.

Para Lúcia Dellagnelo, diretora e presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), isso está ligado ao fato de que a tecnologia ainda é pouco usada na maioria das escolas brasileiras, ainda que viabilize várias práticas pedagógicas inovadoras, como ensino híbrido e ensino mão na massa.

“O jovem enxerga a internet como algo paralelo à escola, que ele usa para aprender coisas diferentes, em qualquer lugar e a qualquer hora. O que a escola precisa é se transformar em um lugar de aprendizagem mais contemporâneo, com outra organização de tempo e espaço”.

Segundo a especialista, a real incorporação de tecnologias digitais só acontece quando se articulam quatro dimensões de maneira simultânea: ter uma visão clara do por que e para que usar a tecnologia expressa no currículo escolar e nas práticas pedagógicas adotadas; a competência dos educadores em buscar bons conteúdos e objetos digitais de aprendizagem; matérias digitais de qualidade que vão muito além de Google e Power Point; e infraestrutura com equipamentos e conectividade adequados para que todos os alunos consigam ter acesso à internet.

“Educação é um processo fundamental de troca de conhecimento entre seres humanos. A tecnologia facilita o papel do professor como um orientador, que articula informações, provoca reflexões e direciona exercícios para uma aprendizagem mais significativa”, conclui Lúcia Dellagnelo.

Confira alguns dados sobre a relação dos jovens com a internet quando o assunto é educação:

. 55% dos respondentes acreditam que a internet influenciou positivamente no tempo dedicado aos estudos;

. 50% dos entrevistados concordam totalmente que a internet aumenta a troca de conhecimento escolar/acadêmico;

. 47% usam a internet com frequência para buscar mais informações sobre o que foi dado em aula;

. 48% aprendem mais com aula presencial do que online;

. 42% não concordam que aprendem melhor quando o professor dá aulas mais interativas com o uso de tecnologias.

Quer saber mais sobre o que pensam os jovens na era digital nas áreas de educação, comportamento, participação social e empreendedorismo? Acesse e baixe gratuitamente a terceira edição da Pesquisa Juventudes e Conexões.



Deixe uma resposta aqui