Você sabe como é ser um doador de medula óssea?

28 de dezembro de 2018

Do cadastro aos procedimentos médicos, saiba o que é necessário para ser um doador e como isso impacta a vida do receptor

Rodrigo Machado usa camisa do Brasil e exibe cinco medalhas conquistadas em competições de natação após receber transplante graças a um doador de medula

O leque da prática de boas ações é amplo e sempre gera transformação na vida de alguém. Pode-se aderir ao  voluntariado, a doações de alimentos, de recursos financeiros e até mesmo órgãos. Contudo, a decisão de se tornar um doador de medula óssea pode ter um impacto decisivo e, literalmente, salvar uma vida.

Embora a leucemia e o linfoma sejam as doenças mais comuns associadas ao procedimento, as células-tronco doadas podem curar cerca de 80 doenças catalogadas. Por se tratarem de quadros que afetam o sangue, a compatibilidade genética torna-se um obstáculo do processo.

Segundo dados do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea  (REDOME), o banco conta com mais de quatro milhões de cadastrados. No entanto, em 2018, apenas 327 receptores puderam concluir o processo. Isso acontece porque encontrar doadores compatíveis, ainda que em escala global, depende de uma variedade de combinações genéticas ainda não alcançada pela rede. É exatamente aí que está a importância de se cadastrar como doador.

É fundamental entender que os primeiros passos para ser um doador passam por fazer um simples cadastro e recolher uma amostra de sangue, gestos que salvam vidas. Mitos sobre  supostos riscos à saúde do doador devido ao procedimento do transplante acabam afastando muitas pessoas da ação voluntária.

Impacto na vida real

De acordo com o hemocentro hospedado na Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo, estima-se que as chances de achar um doador de medula entre não aparentados é de 1 em 100 mil. Já entre irmãos, as chances aumentam à proporção de 1 em 100.

Rodrigo Machado, nadador transplantado, se encaixa neste último caso e teve a irmã, Renata, como doadora. Embora não tenha se tornado atleta profissional, o esporte sempre fez parte de sua rotina. Inclusive, ajudou a detectar os primeiros sintomas de câncer.

Em 2012, Rodrigo foi diagnosticado com leucemia logo após completar sua primeira maratona. Aos 40 anos de idade, a fadiga e o cansaço em excesso foram as primeiras pistas de que algo estava errado. “A primeira coisa que pensei foi: se eu pensar positivo, tenho alguma chance. Se pensar negativo, não tenho chance alguma”, relembra o atleta.

A partir do diagnóstico, ele encarou o tratamento e seguiu à risca todas as recomendações médicas. Reorganizou a alimentação, nunca deixou de tomar as medicações no horário e redobrou os cuidados com a saúde devido à imunidade baixa.  Ainda assim, três anos após o transplante de medula óssea, um câncer secundário se desenvolveu.

Superação com ajuda do esporte

Foi justamente no período mais difícil, durante a segunda fase de tratamento, que Rodrigo se deparou com o que se tornaria sua maior motivação: os Jogos Mundiais dos Transplantados, iniciativa em que reúne quem passou pelos mais variados tipos de transplante para competir em modalidades esportivas.

Superando todas as adversidades e com permissão de sua médica, Rodrigo participou de cinco provas individuais de natação em 2017, na Espanha. Bateu o recorde mundial da categoria dos transplantados em uma e acumulou duas medalhas de ouro e três de prata. Em 2018, esteve nos Estados Unidos e na Argentina e foi medalhista nas provas preparatórias.

Atualmente, o atleta se prepara para a competição mundial na Inglaterra, em 2019, e está comprometido em aumentar a representatividade do país trabalhando para integrar atletas transplantados e formar equipes. A expectativa é reunir 30 brasileiros na equipe de revezamento de natação.

“Nossa maior missão é representar os transplantados, os doadores e mostrar que é possível passar pelo câncer e pelo transplante e ter uma vida normal. Temos algumas restrições? Sim! Mas o importante é saber que sempre seremos capazes de competir se acreditarmos no nosso potencial”, ensina Rodrigo.

O que é o transplante de medula?

Como o nome indica, a medula óssea se localiza no interior dos ossos e funciona como uma “fábrica do sangue”, produzindo componentes que circulam nos vasos sanguíneos. As hemácias (responsáveis pelo transporte de oxigênio) os leucócitos (agentes de defesa do organismo) e as plaquetas ( células da coagulação do sangue) são alguns deles. Quando o paciente apresenta câncer sanguíneo, como a leucemia, o linfoma ou o mieloma, e realiza tratamento quimioterápico acaba precisando do transplante. O Transplante de Medula Óssea (TMO) existe para substituir as células-tronco doentes por células saudáveis.

Como se tornar um doador?

O primeiro passo é fornecer alguns dados pessoais e coletar sangue para tipagem de glóbulos brancos. Após aprovação por meio de exames médicos, o doador estará cadastrado no REDOME e poderá ser acionado a qualquer momento, tanto por hospitais nacionais quanto estrangeiros. Não há custo envolvido e o processo é completamente anônimo. O cruzamento entre o doador de medula e quem precisa de transplante pode levar anos, por  isso é importante manter os dados sempre atualizados.

Como é o procedimento para o transplante?

Há três maneiras de realizar a coleta, que pode ser semelhante a uma transfusão sanguínea comum. Existe um tipo de coleta que não envolve internação ou anestesia, utilizando uma máquina de aférese para separar células-tronco de outros componentes não necessários.

O método tradicional envolve uma punção das células-tronco, que são retiradas do osso da região do quadril. É realizado em centro cirúrgico sob anestesia geral, mas o doador é liberado no dia seguinte e dentro de algumas semanas sua medula estará recomposta.

A terceira via é a possibilidade de usar o cordão umbilical do paciente como fonte de células-tronco, que podem permanecer congeladas por anos.

Fui acionado: e agora?

A partir do momento em que há compatibilidade comprovada, o doador de medula será contatado pelo hemocentro e passará por mais uma bateria de exames para verificar o bom estado de saúde. Fora isso, não há qualquer restrição ou exigência para com os hábitos de trabalho ou alimentares.

Enquanto isso, o receptor se prepara para uma dose intensiva de quimioterapia, a fim de destruir completamente a medula óssea e o sistema imune, preparando para a substituição pelas células saudáveis. Por isso, é imprescindível que o doador voluntário se comprometa, pois em caso de desistência, não haverá tempo hábil para encontrar outro doador e, devido ao sistema debilitado, o paciente corre o risco de morte.

Dentro de alguns meses após o procedimento, se a “pega”, termo médico utilizado para atestar o funcionamento da nova medula, acontecer e houver o desejo por parte do doador e do receptor, existe a possibilidade de se encontrarem pessoalmente.

O doador de medula deve estar ciente dos procedimentos e comprometido a realizá-los caso seja acionado. Para mais informações, consulte as instruções da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.


2 comentários sobre “Você sabe como é ser um doador de medula óssea?”

  1. Claudemilsanes Ângela Lourenço de Queiroz disse:

    Doadora voluntária.

    1. Fundação Telefônica Vivo disse:

      Olá, Claudemilsanes
      Obrigada pela mensagem, sua opinião é muito importante para nós.
      Continue nos acompanhando.
      Abraços!

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