O complexo cenário do letramento no Brasil

01 de dezembro de 2016

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Crédito: Acervo Paulo Freire/Instituto Paulo Freire

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2015, 38% dos universitários não são plenamente alfabetizados. E há dez anos esse percentual era de 24%. Ou seja, em uma década subiu 14 pontos percentuais, o que é muito, muito ruim: 57% dos estudantes do Ensino Médio e 27% da população adulta são analfabetos funcionais. Expresso em números inteiros, são milhões de pessoas que não têm “habilidade de ler e escrever diferentes gêneros e suportes, com coerência e compreensão crítica”.

De acordo com a pesquisa que baseia a tese de mestrado da pedagoga Noemi Lemes, para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, “os alunos brasileiros estão saindo da escola com dificuldades para argumentar, defender teses e construir pontos de vista”. A tese ainda revela que a razão está no restrito acesso a um único gênero textual, o livro didático, repleto de informações extraídas das mídias e que reproduz opinião de quem o escreveu. Nada ou quase nada de literatura, filosofia, política, retórica. Ao invés de serem ensinados a buscar informações em diversos gêneros textuais e autores para desenvolver pensamento autoral e posicionamento crítico, reproduzem ideias pré-concebidas, ou preconceitos (leia mais sobre a pesquisa aqui).

Outro dado assustador revelado pelo Inaf e que compõe o complexo cenário do letramento no País: em 2015 o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, que realizam a pesquisa, incluíram um 5º nível de alfabetismo aos 4 pré-existentes, visando acurar ainda mais os dados, que por ora são nominados de “proficiente”. Um nível que indica “habilidade de ler, compreender, tomar decisões e argumentar a partir da avaliação de diversas variáveis e bases textuais”. No recorte posição de trabalho declarada, a pesquisa revela que apenas 22% daqueles que exercem posição de liderança nas empresas tem o nível proficiente.

Albert Einstein dizia que “um problema não pode ser resolvido no mesmo nível de consciência no qual foi gerado”. Logo, diante deste “apagão”, como assegurar as habilidades que todos nós precisamos ter para promover o mundo que queremos: íntegro, preservado, com qualidade de vida para todas as vidas, aqui e agora?

Inseridos num universo onde a economia pauta vidas, os desafios para o que chamamos de sustentabilidade pede abertura para pensar o novo bom e melhor para olhar além do imediatismo e do consumo desenfreado como opção para o que chamamos crescimento e pensar novas tecnologias de produção, a fim de causarmos o mínimo de dano e o máximo de bem. É preciso reavaliar este modelo claramente antropofágico para respeitar a diversidade humana e cuidadosamente pensar arranjos que promovam o bem coletivo, para entrar em contato com outros pontos de vista, para pesquisar incansavelmente, para inovar, para debater, para rever-se, para colocar-se no lugar do outro, para reinventar o mundo.

Diz o professor Luiz Percival Leme Britto, linguista, escritor, ativista e parceiro incansável por leitura e escrita de qualidade para todos: “O mundo que a gente quer pode ser o mundo que a gente decidir fazer: e isso significa gente que pensa, cria e estuda. A educação é a possibilidade da consciência de que a vida se faz na história humana e essa história é também uma história de fazer a natureza além de simples coisa”.

Certo é que não há uma função redentora na leitura, pois as pessoas se constituirão e junto com elas seus valores e consciência a partir de uma série de outras interações no mundo, extremamente complexas. Como se diz, é preciso uma aldeia para educar uma criança. E essa aldeia precisa ser constituída por pessoas conscientes de que há muito no chão a ser pisado – e não será sem muito esforço intelectual, inclusive, e acolhimento que chegaremos na plena proficiência para fazer as leituras de mundo necessárias e assumir os compromissos. Isso não será transmitido pelo contato cotidiano com leituras descuidadas internet adentro, leituras sem propósito formativo, sem o apoio permanente de um adulto educador: em casa, na escola, na cidade, no campo, no chão que a gente pisa e habita.

O que quero dizer é que há uma atenção estratégica na garantia da plena inserção na cultura escrita que precisa ser conscientizada e assumida com efetividade: desde os primeiros momentos da vida de uma criança no colo da família, recebendo direto da fonte de afeto o alimento literário, nas instituições de ensino, nas bibliotecas abertas ao público. Deve estar em campanhas para informar famílias, no projeto político-pedagógico das escolas, nas bibliotecas nas escolas plenamente integradas à educação integral, no currículo das universidades, em especial na formação dos professores.

Há muitos debates sobre a relevância da literatura, da ficção, ao promoverem a fantasia, a fruição, que oferecem aos leitores a experiência de se colocarem no lugar dos personagens e a sua possibilidade de experimentarem a alteridade, fundamental para desenvolver uma habilidade imprescindível ao comportamento de abertura para o conhecimento e o acolhimento, a capacidade de escutar e se colocar no lugar do outro; um requisito estruturante para a vida democrática.

Somos feitos dos mesmos elementos presentes nas estrelas, heranças do “Big Bang”, mas está em nossas mãos o nosso destino comum. Diante do cosmos, somos figurinhas insignificantes planando numa pequena poeira cósmica: “a pale blue dot” (um pálido ponto azul), como o cientista Carl Sagan se referiu à Terra, observável pela primeira vez fora das fronteiras de sua atmosfera graças ao lançamento da Voyager nos idos de 1977. E há um bonito paradoxo nesta frágil existência: a força da pulsão de todas as vidas vividas, conhecidas de nós ou não, que nos antecede e prolonga para além de nós. Uma razão a mais para seguir o conselho de Carl Sagan: nos apegarmos com amorosidade e responsabilidade a este pequeno planeta. Para isso, inclusive, precisamos ser plenamente proficientes em ler e escrever. Abaixo, o vídeo para saber e se encantar:

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*Christine Castilho Fontelles é cientista social formada pela PUC/SP com MBA em marketing pela FIA/FEA/USP. Consultora de educação do Instituto Ecofuturo, organização da qual foi co-idealizadora e onde criou e dirigiu o programa “Ler é Preciso” por 15 anos. É conselheira do Movimento por um Brasil Literário e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Fundadora da Centhral do Brasil, Consultoria de projetos de educação para a leitura e escrita e sustentabilidade.



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