Muito além do braille: como a tecnologia tornou a literatura mais acessível e interessante aos deficientes visuais

30 de novembro de 2016


Crédito: Marcello Casal Jr. /Agência Brasil

Por Tânia Carlos*, do Promenino, com Cidade Escola Aprendiz
*Colaborou Carolina Pezzoni

Vivem no Brasil, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE, mais de seis milhões de deficientes visuais. A deficiência visual abrange várias condições oftalmológicas, entre elas a cegueira, que atinge pouco mais de meio milhão de brasileiros.

Em 1854, quase três décadas após a criação do alfabeto em braille pelo jovem cego Louis Braille, o país teve sua primeira escola para deficientes, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, fundada pelo imperador Dom Pedro II. Após a Proclamação da República, o colégio passou a se chamar Instituto Benjamin Constant e, até hoje, é grande referência sobre o assunto no Brasil.

De alguns anos para cá, revolucionou-se o acesso dos deficientes visuais à educação, à leitura e à tecnologia. A ex-professora de literatura e revisora braille do Instituto Benjamin Constant, Virgínia Vendramini, relata que desde a década de 1960, com a popularização dos gravadores em fita cassete, muitos têm substituído a leitura em braille pela leitura falada. Hoje, as bibliotecas providas de acessibilidade para cegos oferecem mais livros falados do que em braille.

A Fundação Dorina Nowill para Cegos estima que apenas 10% dos deficientes visuais sejam alfabetizados em braille no Brasil. Contudo, é preciso lembrar que o braille ainda é importantíssimo para a alfabetização de crianças e para a inclusão de cegos na sociedade. “A impressão de informações em braille nas embalagens de remédios e nos elevadores, por exemplo, foi uma grande conquista dos deficientes visuais. O cego que é alfabetizado em braille, mesmo que não o utilize para ler livros, é mais independente”, explica Virgínia.

A modernidade trouxe aos cegos um outro sistema além do braille: o DAISY – Digital Accessible Information System [Sistema de Informação Acessível Digital, em português]. Ele une o que há de mais prático em usabilidade para que os cegos leiam, estudem e trabalhem em computadores, celulares e tablets. O DAISY é tido pelo Ministério da Educação – que inclusive adaptou o sistema e criou o MECDAISY – como principal parâmetro para publicações inclusivas.

O livro inclusivo infantil
Quando Regina de Oliveira ficou cega, aos sete anos de idade, o que mais lhe fazia falta era ler. “Fui matriculada numa escola normal e naquela época não havia a acessibilidade que existe hoje. Quando não tinha mais nada novo para ler, eu repetia. Lia quatro, cinco vezes o mesmo livro.”

Hoje, Regina é coordenadora da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que há quase 70 anos trabalha em prol da inclusão e da qualidade de vida de pessoas cegas e com baixa visão. Se antes Regina lia e relia os poucos livros em braille aos quais teve acesso, hoje ela vive cercada de obras concebidas pela Fundação.

Tecnologia assistiva: sistemas operacionais,
gadgets, aplicativos

Em 1999, seguindo os conceitos do DAISY, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) criou o DosVox, um sistema operacional gratuito para cegos, que utiliza de comandos de teclado e voz. Pelo sistema, é possível até mesmo se comunicar com outros usuários via chat, tornando-o ainda mais inclusivo.

Há quem prefira utilizar apenas um leitor para Windows, Linux ou MAC, sem alterar o sistema operacional. Alguns cegos preferem usar apenas tablet ou celular. Confira, abaixo, a principal lista de softwares e aplicativos de acessibilidade.

Softwares leitores de tela:
Jaws (Windows)
Virtual Vision (Windows)
NVDA (Linux)
MAC VOICE OVER (vem integrado em todos os sistemas MAC)

Leitores de tela para celular: 
Android: TALK BACK
iPhone: VOICE OVER (já integrado)

Leitores de objetos em foto/vídeo para celular:
Como funcionam? Ao tirar uma foto de um determinado objeto, o aplicativo o identifica. Os principais são:

oMoby
CamFind
Talking Goggles (Apple e Android)

Mas o que é um livro acessível para crianças? Regina explica: trata-se de um livro que pode servir à criança cega ou com baixa visão, à família, aos colegas de escola, ao professor. Esse livro é impresso em braille, mas em tinta também, com fonte ampliada, de forma que não apenas as crianças cem por cento cegas possam ler, mas também as com baixa visão. O livro inclusivo é pensado ainda para pessoas que enxergam, ou seja, para que todos leiam juntos. Além da edição em papel, existe também um CD com as audiodescrições das imagens e um audiobook, para quem quiser ouvir o livro narrado.

E se um livro infantil requer ludicidade, é importante ter esmero com as ilustrações, mesmo quando a publicação é pensada para a criança cega. Para Regina, existe uma adaptação do traço: no livro acessível, ele estará estilizado e em alto relevo, para que a criança o perceba pelo tato. Já a criança com baixa visão requer muitas cores e contrastes para ser estimulada; logo, os livros da Fundação Dorina possuem os dois elementos, que servem para atrair a criança e enriquecer a imaginação dos pequenos leitores.

“Com o livro acessível, a criança não vai ficar excluída dentro da sala de aula e nem dentro da família. Essa criança precisa de algo parecido com o que crianças que enxergam têm. Apesar da importância do braille para a alfabetização, ter a audiodescrição e o contorno em relevo aproxima a criança das outras”, afirma Regina.

A Fundação Dorina Nowill lançou recentemente a Coleção Clássicos Infantis Acessíveis, que constitui dez títulos, entre eles “Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve”, “Peter Pan”, “Robin Hood” e “Rapunzel”, em três mil tiragens de cada história. A produção contou com o auxílio do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e será distribuída em bibliotecas, escolas e instituições voltadas para deficientes visuais, além de ser vendida pelo site da Fundação.


 Coleção Clássicos Infantis Acessíveis – Fundação Dorina Nowill | Crédito: Divulgação

O condomínio literário de Virgínia
“Já queimei cinco scanners. Estou no meu sexto”. É assim que Virgínia Vendramini, escritora e artista plástica, explica seu incansável e voluntário ofício de digitalizar livros para cegos. Ela já digitalizou, na última década, mais de 1,2 mil títulos e possui um acervo, junto a alguns amigos, de mais de 32 mil obras.

Virgínia e a literatura são melhores amigas desde os dois anos de idade da escritora, quando seus pais liam para ela. Cega desde os 16 anos, Virgínia estudou no Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, a primeira escola voltada para deficientes visuais do Brasil. Ela relata que na década de 1960, quando lá estudava, o Instituto já dispunha de uma biblioteca braille, na qual permanecia por horas após as aulas. Mais tarde, cursou Letras e se tornou professora de literatura na mesma instituição. Hoje, possui cinco livros publicados e coleciona mais de 50 prêmios literários.

Hoje, o que mais ocupa o tempo da literata é o chamado “condomínio literário”, como ela denomina o grupo de amigos que colaboram com a digitalização dos livros para deficientes visuais.


A escritora Virgínia Vendramini (sentada) em 1995, no lançamento do livro de poesias “Rosas Não” | Crédito: Arquivo Pessoal

Digitalizar livros para cegos, Virgínia explica, é diferente de disponibilizá-los para quem enxerga. O processo é lento: “O Open Book é um software de digitalização desenvolvido para ser utilizado por uma pessoa cega. Quando o usuário dispõe o livro sobre o scanner para fazer a varredura, ele informa qual página está digitalizando, avisa quando a pessoa pode seguir em frente. Depois disso, é preciso revisar esse documento. Por exemplo, se a ortografia do volume em questão for antiga, edito para que fique atual; se contiver muitas notas de rodapé, separo-as e as coloco num anexo no final da obra, porque essas informações em excesso atrapalham a leitura do cego. Agora, quando as notas são explicativas sobre algum termo que está naquela página, eu deixo, para que a pessoa não tenha que ir ao fim do livro e retornar.”

Por que a digitalização para cegos tem de ser tão limpa de informações?
Virgínia explica que os livros serão lidos por um software de voz e, se não forem retiradas informações repetitivas como a cabeça [geralmente título da obra e autor localizados nos cantos superiores das páginas] ou notas muito grandes ou recorrentes, a leitura pode se tornar exaustiva, confusa.

Outra questão importante para digitalização é a fonte na qual a edição original do livro foi impressa. “Já sei qual é o tipo utilizado na obra ao identificar a editora”, conta Virgínia. Algumas delas utilizam fontes nada funcionais, que podem provocar erros de interpretação do scanner.

Para ler as obras que digitaliza, Virgínia usa os aplicativos Ebook e Voice Dream em seu iPhone: ambos leem os arquivos em formatos simples como .txt, .rtf, .doc, .pdf ou epub.

Bibliotecas inclusivas
A Biblioteca Pública do Paraná (BPP), em Curitiba, é pioneira quando o assunto é acessibilidade para cegos. Com um acervo de mais de 25 mil livros digitais, sendo dois mil em braille e três mil livros falados, tanto para crianças quanto para adultos, a BPP é considerada uma das maiores bibliotecas inclusivas do Brasil.

“Já tivemos o maior nacional de livros acessíveis; hoje, outras bibliotecas já nos ultrapassaram, inclusive a Biblioteca Pública do Amazonas, que utilizou nosso acervo como base e hoje tem seu próprio.”, conta Cleomira Burdzinski, coordenadora da Sessão Braille da BPP.

De acordo com Cleomira, o critério para a disponibilização das obras é a própria demanda dos deficientes visuais, que vão à Biblioteca e as requerem. Para os livros falados, existe um programa de voluntariado que recruta narradores.

Em Maringá, o Projeto Visão de Liberdade trabalha pela múltipla inclusão: nele, detentos da Penitenciária Estadual de Maringá, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (SEED), narram livros em áudio e produzem material didático em braille para a alfabetização de deficientes visuais. A produção é distribuída para 195 cidades atendidas pelo Centro de Apoio Pedagógico às Pessoas com Deficiência de Maringá.

Idealizada por Dorina Nowill, a Biblioteca Louis Braille do CCSP (Centro Cultural de São Paulo) também é referência no assunto. São dois mil livros em áudio, alguns deles também narrados por voluntários. Em braille, são seis mil títulos, revisados internamente. De acordo com a revisora braille Gasparina Martins, a biblioteca possui quase dois mil usuários inscritos.

Instituições de apoio aos cegos e à literatura
LARAMARA (Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual), localizada em São Paulo, existe desde 1991 e já distribuiu mais de três mil máquinas braille, além de oferecer cursos e assistência às famílias de pessoas cegas. A associação oferece gratuitamente o curso de Comunicação e Expressão, que se utiliza da literatura para incentivar os alunos a ler e a escrever melhor. Segundo Mara Siaulys, pedagoga e fundadora da LARAMARA, o curso tem bastante procura (chega a ter lista de espera), atende grupos de 12 a 14 pessoas e abre inscrições todo semestre, com duração de seis meses.

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A palavra Ahimsa, do sânscrito, tem um significado de não violência, de valorização da vida e da empatia pelo próximo. São esses os valores que a instituição de mesmo nome aplica às crianças e aos adolescentes que atende na Vila Mariana, em São Paulo. A instituição recebe livros da Fundação Dorina Nowill para que o trabalho seja fortalecido. “Agora temos recebido livros mais atuais, favorecendo o acesso às pessoas com deficiência às leituras de obras como ‘A Menina que Roubava Livros’ e outros. Assim, pessoas com cegueira e surdocegueira podem ler o que as demais pessoas também estão lendo e, efetivamente, isso contribui como para estarem incluídas na sociedade”, afirma a professora Dalva Rosa Watanabe. A Ahimsa dispõe também de uma impressora braille, que facilita o acesso dos deficientes visuais a outros tipos de leitura.

 

No dia 8 de abril é comemorado o Dia Nacional do Sistema Braille. A data foi escolhida em homenagem ao nascimento do primeiro professor cego brasileiro, José Álvares de Azevedo.

 



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