Escola pública de Sergipe vira inspiração pelo trabalho com meio ambiente

13 de fevereiro de 2019

A parceria entre estudantes e comunidade foi fundamental para revitalização da área verde da escola. As ações inspiraram programa do Ministério do Meio Ambiente


Durante as férias de janeiro, um grupo de alunos e professores se revezava para cuidar do mais novo xodó do Colégio Estadual Delmiro de Miranda: uma horta de 50 metros quadrados e 11 canteiros de onde saem coentro, alface, cebolinha e muitos outros alimentos direto para a merenda escolar.

Imagem mostra pedras alinhadas em meio a área de revitalização da horta
Cordão de pedra é instalado
na revitalização

A horta faz parte de um projeto ambiental que revitalizou toda a escola, localizada na cidade de Canindé de São Francisco (SE). A paisagem do sertão sergipano foi substituída por uma zona completamente arborizada. A aposta é que daqui uns anos, quando as árvores recém-plantadas começarem a crescer, a escola se torne um cinturão verde no meio da área urbana onde ela se localiza, numa confluência de alegria para os olhos, descanso para a mente e novos ares para os pulmões.

O carinho da equipe escolar é especial porque toda a mudança foi promovida pelos estudantes dos 2º e 3º anos do Ensino Médio, liderados pelas alunas Deysiane Souza de Lima e Ianara Mesquita da Silva, de 17 anos, e Tainara Moura dos Santos, de 18 anos. Com trabalho iniciado em agosto de 2018, os alunos pegaram na enxada, carregaram pedras e colocaram as mãos na terra para limpar o terreno ocioso, plantar as novas árvores e construir a horta.

“Foi muito bonito ver todo mundo mobilizado e trabalhando junto”, relata a professora de sociologia Maria Nilza de Santana Ferreira, que fez parte do grupo de professores que orientou os estudantes e participou mais ativamente do projeto. “Todo mundo aprendeu com isso. Os professores viram que um projeto simples pode ser transformador e trazer muito aprendizado, os alunos descobriram que a união e a troca de ideias fazem milagres. Nossa escola ficou muito linda!”.

 

Integração escola e comunidade

Imagem mostra estudantes arrumando cordão de pedras
Estudantes participam ativamente
do trabalho na horta

O projeto na escola foi uma extensão de algo que começou na comunidade rural onde Deysiane, Ianara e Tainara moram, a 18 quilômetros da zona urbana. Elas são parte das 45 famílias – cerca de 300 pessoas – que vivem no assentamento Florestan Fernandes, onde os moradores vivem da agricultura. O problema é que a região enfrenta seca há seis anos.

A água só chega de caminhão-pipa, que costuma demorar de seis meses a um ano para passar na região. Nesse meio tempo, animais morriam de sede e as frutas e hortaliças não tinham seu melhor desempenho. “Meus avós contavam que antigamente tinha uma nascente por aqui. Só que era difícil de visualizar porque era só terra que enxergávamos”, conta Deysiane.

Recentemente, uma equipe técnica do Ministério do Meio Ambiente incluiu a região na estratégia chamada Urads (Unidades de Recuperação de Áreas Degradadas), que visa mitigar os efeitos da seca e neutralizar a degradação das terras do semiárido brasileiro. Com base nos relatos dos moradores e contando com o envolvimento de toda a comunidade, a equipe conseguiu escavar até desobstruir a nascente. A água reapareceu, foi encanada e a área da nascente, de 50 metros quadrados, foi cercada, reflorestada com plantas nativas e protegida como uma área de preservação permanente.

“A água foi canalizada e tratada para tirar o sal. Em pouco tempo já notamos uma recuperação da fauna e da flora. Pássaros que tinham sumido reapareceram”, explica Deysiane, que coordena grupos de escolas para que conheçam a nascente. A jovem explica que os caminhões-pipa logo não serão mais necessários e a comunidade vai voltar a conviver com a água.

Com o projeto, a comunidade se engajou em outras melhorias, como construção de cisternas para armazenamento de água da chuva e irrigação do plantio, construção de ecofogões para moradores e até a construção de uma casa para uma família que vivia numa moradia de barro.

Foi por causa Imagem mostra estudante plantando na hortadessa mobilização toda no assentamento onde moram que as três jovens decidiram estender o projeto para a recuperação de áreas degradadas da escola. A direção apoiou logo de início e as portas do colégio foram abertas para as famílias do assentamento. “Elas vieram nos ajudar. Sem a comunidade, não teríamos conseguido nada. Eles nos orientaram como fazer a horta, como proteger da luz solar, plantar de maneira adequada”, conta a professora Maria Nilza.

Boa parte da capacitação dos alunos foi feita na própria comunidade. “Não adianta a gente chegar com teoria na escola. Primeiro tínhamos que levar o colégio para a comunidade e depois fazer o movimento inverso. Por isso, levamos os alunos para ver, na prática, como se constrói uma horta. Muitos moram na cidade e não tinham a menor ideia de como mexer na terra”, explica Deysiane.

 

O verde de volta

  • Trabalho com a terra
    Trabalho com a terra
    Jovens participam de revitalização de áreas degradadas na escola
  • Revitalização
    Revitalização
    Nova área verde
  • Escavação da nascente
    Escavação da nascente
    Equipe se envolveu com a escavação para a recuperação da nascente
  • Reflorestamento das margens
    Reflorestamento das margens
    Nascente com reflorestamento
  • Nascente redescoberta
    Nascente redescoberta
    Após processo de escavação, nascente ressurge no município
  • Palestras na escola
    Palestras na escola
    Estudante ministra palestras para conscientizar estudantes sobre preservação ambiental
  • Horta finalizada
    Horta finalizada
    Horta da escola em funcionamento
  • Vida nova
    Vida nova
    Árvore plantada em nova área

 

Escola modelo

No colégio, as estudantes realizaram palestras para sensibilizar cada vez mais alunos sobre a importância da recuperação e preservação do meio ambiente. Além do Ensino Médio, outras turmas também foram incentivadas a visitar o assentamento e se envolver nas ações. Agora a escola quer aumentar o projeto também para o Ensino Fundamental e equipar ainda mais a horta para que os alimentos excedentes possam ser comercializados na região.

A integração com a comunidade e as ações da escola chamaram a atenção do Ministério do Meio Ambiente, que, a partir dessa experiência, criou um programa derivado da Urad, chamada Urade (Unidade de Recuperação de Áreas Degradadas nas Escolas), que visa ampliar as ações de recuperação do paisagismo e construção de horta em outras escolas da região.

Além disso, o projeto de revitalização da escola e conservação do meio ambiente foi um dos premiados no Desafio Criativos da Escola 2018, promovido pelo Instituto Alana. A iniciativa celebra projetos protagonizados por crianças e jovens de todo o país que estão transformando as escolas, as comunidades e os municípios onde vivem.

“Quando nos inscrevemos, eu nem imaginei que de dois mil projetos de todo o Brasil, a gente seria um dos premiados. Ficamos muito felizes, até porque de onde eu venho, a gente gosta de compartilhar conhecimento”, diz a jovem Deysiane, que coordena um grupo de 23 jovens do assentamento onde mora. “Nós estamos sempre inovando, nos engajando em projetos tanto na escola como na comunidade, com foco no coletivo”.

 



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